Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1754 - 27 de Novembro de 2020

Alerta total contra a dengue

Edição nº 1207 - 28 Maio 2010

São muitos os esforços e ações, mas os resultados têm sido pouco eficazes. Essa é a constatação que se chega diante de um novo surto da dengue, provocada pelo mosquito aedis aegypti, não apenas na cidade, mas em todo o estado. Segundo o secretário de Saúde, Edward Meirelles, em entrevista ao ET, o serviço público tem se mobilizado com mutirões de limpeza nos bairros e terrenos baldios, também com o carro 'fumacê', mas o mosquito continua agindo e a população não. A maior incidência de focos de larvas estão nos bairros, João XXIII, Eurípedes Barsanulfo (Cajuru), Perpétuo Socorro (Cervato I, 2, 3 e 4) e de Lourdes, além do centro. Quer dizer, praticamente, toda a cidade. Até o momento foram registrados, 148 casos notificados com 28 confirmados e aumentando diariamente. Participou da entrevista, o supervisor de endemias, da regional de Saúde, de Uberaba, Clênio Franco Borges, para falar também sobre a incidência de caramujos na cidade. Veja a entrevista:

 

 

ET - Qual o objetivo da visita do supervisor à cidade?

Clênio - É uma visita de rotina, que acontece uma ou duas vezes ao mês. A gente vem supervisionar as campanhas de saúde pública desenvolvidas no município, mais especificamente, o PMCD (controle da febre amarela e dengue) e, PCDCH (programa de Chagas) e, atualmente, uma situação inovadora e bastante preocupante que é o caramujo africano, que chegou na região. 

 

ET – Chegou como?

Clênio - Esse molusco foi introduzido aqui na região, na década de 80, com a pretensão de ser comercializado, pois ele é comestível, mas como não obtiveram resultados, as pessoas que criavam esses caramujos, os soltaram na natureza. Ele é um caramujo que tem uma capacidade de reprodução muito grande. 

 

ET – Como devemos combater esses caramujos?

Clênio - O que pode ser feito é cada morador auxiliar no recolhimento desses moluscos, usando luvas ou plástico. Após recolher, a pessoas devem entregar no centro de zoonoses, para a incineração. Eles têm que ser queimados. Esses moluscos são hermafroditas, isto é, são capazes de fazer a auto reprodução e, em um ano, fazem cinco posturas de ovos de 50 a 400 ovos cada uma, portanto têm uma capacidade reprodutiva muito grande. 

 

ET – Esse caramujo africano tem algum predador natural no Brasil?

Clênio - Não existe predador desses moluscos e esse é o grande problema. É por isso que hoje existe uma norma do IBAMA, proibindo a entrada de animais exóticos no país, como foi o caso desses caramujos que foram trazidos da África. Trouxeram para cá um animal, sem ter um predador, ou seja, outro animal que o mate. Aqui no Brasil, ele não é usado para comer, como é na África, não foi aceito como alimentação. Ele é um caramujo grande, tem uns dez centímetros e pesa em torno de 200 gramas. É marrom escuro com rajas amarelas. No período de chuvas, sobe nas paredes, muros e áreas de umidade. Há muitas espécies de caramujos e só são incinerados os da espécie africana, porque os outros têm predador.

 

ET – Outro dia recebemos a reclamação de um morador da Cohab informando que a secretaria de Saúde foi acionada, mas não tomou providência em relação aos caramujos. O que a secretaria tem feito para solucionar esse problema?

Edward - Não temos funcionários para fazer a catação ou recolhimento desses caramujos, porque eles estão envolvidos noutras ações mais imediatas como a dengue. Nossa recomendação é que a catação desse molusco seja feita pelo próprio morador e depois nós fazemos a incineração. Basta levar os caramujos até o Posto de Saúde 'Dr. Clemente', na rua Comendador Machado. Essa incineração tem que ser cuidadosa, com material especifico, porque dá odor, e, para isso, temos um local especifico. Só não podemos nos responsabilizar pela catação. 

 

ET – Esses caramujos produzem ou transmitem algum tipo de doença?

Clênio – Não, ele não tem importância epidemiológica ou médico-sanitária, ou seja, ele não transmite nenhuma doença. Ele é apenas um competidor nosso, porque é um grande comedor de hortaliças. Agora, no inverno, a sua incidência diminui e é uma época boa de acabar com os que ainda existem. Outra forma de acabar com esses caramujos é evitar o lixo orgânico nos quintais, porque serve de alimentação para eles, evitar umidade. As pessoas não podem usar venenos porque podem contaminar animais de pequeno porte, contaminar o lençol freático, a flora e a fauna. Os únicos processos de combate como ocorre com a dengue é evitar o criadouro, no caso o lixo e água. E reafirmo que o caramujo não causa doença.

 

 ET - Então, já que o caramujo não faz mal à saúde, vamos falar da dengue, que pode matar. Sacramento nunca atingiu um índice tão alto de dengue como agora ou não?

Clênio - Este ano foi atípico em todo o país. Inclusive o sul do Brasil registrou muitos casos de dengue. O índice de notificação dos casos de dengue aumentou em todo o país. E Sacramento não é diferente. Na nossa região, desde 1997, temos a presença do mosquito aedis aegypti, só que estamos agora tendo um surto, como é o caso de Sacramento. O que está ocorrendo em Sacramento não é diferente do restante do país. 

 

ET – Qual a participação do cidadão nesse combate ao mosquito?

Edward - Enquanto cidadãos, precisamos estar mais preparados para evitar qualquer tipo de depósito de água, inclusive dentro de casa. São encontrados grande número de focos em vasos dentro das casas e varandas. A parte de quintais está sendo bem feita, mas ficam outros depósitos não eliminados, que são as plantas, os vasos, por isso precisamos da participação da comunidade, senão vamos ter situações difíceis.  Não é o número de pessoas trabalhando que vai evitar o surto, temos que ter a participação da comunidade. O impedimento de um agente entrar dentro de uma casa é um foco ficando para trás. O mosquito tem o hábito diurno e se reproduz em água limpa. Hoje com a quantidade de depósitos recicláveis que temos na área urbana, há um número maior de possibilidades da proliferação do mosquito. 

 

 

ET – Clênio, como supervisor, o trabalho em Sacramento está sendo bem feito?

Clênio – Sem dúvida, o trabalho feito em Sacramento é um dos bons trabalhos feitos na região. Temos um número satisfatório de pessoas trabalhando fazendo um cobertura bimestral em todas as unidades domiciliares da área urbana, fazendo a colocação de larvicída, que inibe a procriação do mosquito na fase larvática, além dos trabalhos educativos, os mutirões e o fumacê, onde há probabilidade maior da transmissão da doença. 

 

ET – Essa pulverização espacial feita pela caminhonete, o fumacê, não é prejudicial às pessoas, não?

Clênio – Não, não prejudica, porque o seu volume é ultra baixo. Ela é uma aplicação de produto adulticida, serve para matar mosquitos adultos. Ele não tem propriedade residual, porque se tivesse, a população cairia primeiro que o mosquito. Aquela máquina que tem um alcance de até 90 metros de distância joga ente 5 a 25 micras de adulticida (para se ter uma noção, um fio de cabelo, por mais grosso que seja, tem 60 micras) O mosquito em vôo, executa 400 batimentos de asas por segundo, assim ele cria um campo de centrifugação e arrasta essas micras para o seu sistema respiratório. Com o fumacê matamos 60% dos mosquitos adultos. E esse fumacê é usado repetidas vezes, com maior intensidade nos locais mais afetados. Mas reafirmo a necessidade de a população receber o agente, porque o mosquito que estiver na fase larvária não vai morrer. O fumacê só tem ação para o mosquito adulto. Repetindo, o fumacê não faz mal para a população.

 

ET- Como é o ciclo do mosquito, aedis aegypti, agente transmissor da Dengue? 

Edward - O aedis bota os ovos num recipiente e eles permanecem ali por até um ano, quando houver chuva, as larvas vão nascer. O recipiente mesmo que seco, mas com os ovos na parede, qualquer quantidade de água que alcance aquele ovo, ele vai eclodir e sair a larva, que vira o mosquito. Como há uma relação atípica com o clima (chuvas no inverno), a alta temperatura devido ao aquecimento global, nós estamos mudando o ciclo. Enquanto permanecerem as chuvas e essa quantidade de locais com focos, não vamos conseguir eliminar a doença, se a população não nos ajudar.  O cuidado tem que ser tomado até mesmo quando as pessoas saem de festas, sejam elas quais forem, e não jogarem copos descartáveis e latinhas em qualquer lugar.

 

ET - Se o mosquito não reproduz em água suja, como fazer com as piscinas?

Clênio - É por isso que no centro da cidade há muitos focos. Especialmente as piscinas abandonadas, fora de uso, principalmente neste período de frio, que não recebem nenhum tratamento de filtragem têm que ser tratadas, todas elas, a base de larvicida para fazer o controle da fase larvária. O mosquito põe os ovos na parede da piscina, com a movimentação da água, esses ovos descem para o fundo da piscina, eclodem e nascem as larvas, e elas têm que ser combatidas. Por isso, a importância de receber os agentes. O cloro é um bactericida e não mata a larva do aedis. As piscinas que têm filtração própria conseguem eliminar as larvas, mas se não tiver, devem ser tratadas com a base larvicida, que não é prejudicial às pessoas que vão nadar. 

 

ET - Vamos falar da doença. Por que essa notificação? Saber se a pessoa está doente pra começar o tratamento?

Edward - A pessoa começa com os sintomas, febre, mal estar, manchas vermelhas na pele, que podem ocorrer ou não, dor no fundo dos olhos ou dor de cabeça. Nessa situação, ela deve procurar um profissional da saúde, para uma anaminese, para saber de onde a pessoa vem, se esteve em local que tem dengue e se no local onde mora há alto índice de aedis. Feito isso, elas têm que ter calma, porque o exame não pode ser feito nos primeiros dias de sintomas, temos que esperar de sete a dez dias para colher o sangue. 

 

ET – Por quê?

Edward – Porque, antes desse prazo a amostra do sangue ainda não acusa se a pessoa está com dengue ou não. O sangue depois é encaminhado para a Funed, em Uberaba e o prazo para se ter o resultado é de cerca de 20 dias. É importante ressaltar que saber se a pessoa está ou não com dengue, através do exame, não define também o tratamento. Os sintomas, sim, é que vão definir para o médico a conduta e quais os antitérmicos a serem usados, e que não podem ser a base a ácido acetil salicílico, o conhecido AAS, porque é anti coagulante. Se a pessoa estiver com dengue hemorrágica ele vai favorecer a hemorragia e pode até levar à morte. 

 

ET – Quer dizer, quando o resultado chega, o paciente já pode até estar bem. Prá que, então, o exame?

Edward – É verdade, mas o exame é importante, porque se ela teve dengue, vai receber um documento e carregá-lo sempre, informando que ela foi infectada por um dos vírus da doença. No caso de novos sintomas, que são parecidos com os da gripe A (suína) e da gripe comum, o médico vai proceder um tratamento diferenciado, pois o perigo da dengue hemorrágica está em contrair mais de um tipo de vírus, ou seja a dengue pela segunda vez.

 

ET – Quantos tipos de vírus existem?

Clênio – Atualmente, na nossa região estão circulando os tipos 1, 2 e 3, cada um deles em um mosquito diferente. Não há relatos, na literatura médica, de que um mesmo mosquito possa transmitir dois tipos de vírus. Mas a pessoa pode ser picada por dois mosquitos diferentes, daí as chances de dengue hemorrágicam,  quando a o cruzamento desses vírus. 

 

ET - Qual o tratamento da dengue clássica e da hemorrágica?

Edward – O tratamento é sintomático, não há tratamento específico. A dengue clássica também pode ser grave, a pessoa vai se desidratar, ter diarréia. Felizmente, não houve ainda caso de dengue hemorrágica. Nesse caso o tratamento é intervencionista, hospitalar, para tratar os sintomas, fazer hidratação e inibir a hemorragia, se houver, com remédios. 

 

ET – Por que ainda não temos uma vacina contra a Dengue?

Clênio - Estou com 24 anos de serviços no ministério da Saúde e quando iniciei, era para se esperar a vacina. Mas porque não saiu ainda essa vacina? Pelo fato de termos hoje a dengue transmitida por quatro sorotipos, vírus 1, 2, 3 e 4, a manipulação dessa vacina é complicada. Existem testes, mas vão demandar ainda de cinco a dez anos para entrar na saúde pública. Primeiro é testada em mamíferos, e assim vai até chegar no ser humano. Nós teremos que ter um controle mais efetivo, porque a vacina ainda vai demorar.  

 

ET - Então, a solução é a prevenção?

Edward - Sim, a solução é a prevenção, no sentido de cada um olhar a sua casa, o seu quintal e o do vizinhos. Um ajudando o outro. Um grupo ajudando o bairro e todos ajudando a cidade. Se não fizermos isso todos estaremos vulneráveis, do prefeito ao médico, ao enfermeiro, jovens, crianças, idosos. A dengue não vai escolher pessoas. O mosquito pica quem estiver na frente. Ninguém está imune, por isso todos somos responsáveis nesse combate.