Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

José Alberto: presta homenagem às Irmãs de Cluny

Edição nº 1393 - 20 Dezembro 2013

“Eu estou ligado a essa Congregação desde quando pisaram nestas terras do Santíssimo Sacramento pela primeira vez, trazidas pelo saudoso arcebispo, Dom Alexandre Gonçalves Amaral. A pedido do então pároco da época, Mons. Saul Amaral, coube à minha família hospedar aquelas duas religiosas, as primeiras filhas de Cluny que aqui chegaram em visita, a superiora, Madre Antônia, que estava acompanhada de uma de suas irmãs, Ir. Maria Benigna de Jesus Martins, a quem a partir dali eu manteria uma grande e inesquecível amizade. 

Lembrando aqueles primeiros dias, posso afirmar que madre Antônia não teve pela cidade, à primeira vista, uma impressão muito boa, pelo contrário, não gostou muito. Mas minha mãe (Carmelita), que era zeladora da Santa Casa, insistiu muito pela presença das irmãs, especialmente para cuidar da Santa Casa. O convite de minha mãe foi reforçado por Ir. Benigna que, ao contrário, desde o início, gostou muito da cidade. Assim, Ir. Benigna, muito sensível, ratificou aquele convite junto à sua superiora: “Madre, vamos aqui ficar, nós precisamos  do lugar”, disse no seu peculiar sotaque português.

Sacramento, na verdade, nesse tempo, apesar de ser uma cidade muito bonita, com prédios históricos e muito hospitaleira, ficava praticamente isolada das demais cidades da região, em se tratando de uma ligação asfáltica. Também a estrada de ferro, que tanto impressionava o povo, também ‘passava perto’,  como dizíamos na época. O asfalto do primeiro trecho de uma variante de oito quilômetros só aqui chegou em 1967, através de um trabalho do então prefeito, José Sebastião de Almeida. Já Lucélia, a primeira cidade para onde foram as irmãs, mais desenvolvida,  foi escolhida, porque tinha estrada de ferro. Nós procuramos seguir a vontade da minha mãe pela presença delas, foi quando madre Antônia da Sagrada Família aquiesceu ao convite e aqui permaneceu. 

A presença das irmãs em Sacrament encheu de alegria toda a população, porque elas realmente vieram para trabalhar. E nesse primeiro contato, muitas diferenças linguísticas entre a língua falada em Portugal e no Brasil foram motivo de muitas brincadeiras. Ao serem tratadas por 'raparigas', termo usual nas terras lusitanas ao se referir a uma moça, as jovens enfermeiras da Santa Casa se surpreediam. Ir. Benigna ficou assustada, quando dom Alexandre disse que levaria as irmãs  a Sacramento de 'Perua', dentre outros casos. 

Mas Sacramento deve muito às irmãs. A primeira grande transformação de nossa Santa Casa de Misericórdia de Sacramento começou com as filhas de Cluny. Àquelas primeiras irmãs, logo se juntaram outras quatro religiosas, Ir. Mafalda, Ir. Tereza, Ir. Izabel Vieira e Ir. Juliana que iniciaram então uma verdadeira revolução de trabalho dentro da Santa Casa, ganhando a simpatia de saudosos médicos e da população em geral. 

Além de experientes administradoras hospitalares, as irmãs traziam o carisma do serviço, o carisma de sua fundadora, Me. Ana Maria Javouhey, o de 'fazer a vontade de Deus'. Nós podemos afirmar que essa vontade era transformada em carinho e em zelo a favor dos enfermos e de todas as pessoas que as rodeavam. 

Ao seu lado, juntaram-se muitas voluntárias. Lembro-me bem de minha mãe, na época chamada de zeladora da Santa Casa, liderando com outras voluntárias, como a Sra. Adelaide Tormim e outras, além das próprias Irmãs campanhas de lençóis, toalhas, cobertores e muitos outros bens, o que foi tirando nossa Santa Casa do estado precário em que se encontrava.

Aos poucos, a Santa Casa foi progredindo, daquele pequeno nosocômio, transformou-se em um Hospital Referência, graças às reformas implementadas. Pude dar também, na qualidade de diretor e prefeito, minha contribuição, juntamente com outros provedores, cada um mostrando o seu apoio àquelas irmãs, aliando-se ainda ao apoio de toda a população que retribuía também o bem que elas estavam fazendo à cidade, muito solidária à causa, em especial por conta da nova administração das irmãs. 

As Irmãs de São José de Cluny, além da Santa Casa, idealizaram a Obra Social João XXIII, que deu desenvolvimento àquele bairro, então denominado 'Atrás do Morro'. Naquele bairro, nós comandamos com nosso saudoso padre Antônio Borges de Souza, irmã Benigna, irmã Tereza e muitos outros voluntários, como o saudoso Ítalo Cerchi, uma outra transformação, no campo da promoção humana e da pastoral. Além do conforto espiritual com a construção da Capela de São Miguel e São Bento, visitas às famílias, cursos diversos, as irmãs construíram várias casas, formando a Vila João XXIII. 

Com Irmã Benigna também criamos o curso de Formação de Catequista na cidade e, mais tarde, as mesmas irmãs assumiram outra obra que passava por dificuldades, a Casa Infanto Juvenil São Vicente de Paulo, que ainda hoje, sob seus cuidados, cuida diariamente de 150 crianças. Valeu e vale muito a presença das irmãs de Cluny em Sacramento. 

Na condição de prefeito, devo também à Irmã Maria Benigna de Jesus Martins a criação da bandeira oficial de Sacramento e o canto oficial da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Patrocínio do Ssmo. Sacramento. Enfim, devo a ela muito, até mesmo em lições particulares de oratória e do estudo da língua francesa.

A quantos doentes vocês levaram  vida! O amor de Deus! Quantas vezes, madre Antonia orava junto aos doentes da Santa Casa! Quantas vezes Ir. Juliana levava suas palavras de consolo de ânimo e de força aos enfermos, mostrando a todos uma humildade incomum! O da administradora exemplar que foi Ir. Tereza Vaz na condução da Santa Casa... E tantas outras que deixaram o seu rastro de bondade e de amor a essa terra do Santíssimo Sacramento. 

O rastro que Ir. Benigna deixou nesta terra também foi algo incomum. O seu nome está desfraldado em nosso maior símbolo, que é a bandeira de Sacramento. O seu nome compõe também a galeria dos grandes benfeitores da Paróquia, quer na fundação da Obra Social João XXIII, quer na composição do Hino à Padroeira, quer nas belíssimas procissões de Corpus Christi, quer na cultura, na bondade e na pastoral dedicada aos jovens. 

Neste momento, ao celebrarmos o jubileu de ouro da Congregação, voltamos nosso pensar para a esplanada de Belém, onde a Luz vem ao mundo e se consuma no Gólgota, quando Cristo entrega ao Pai o seu espírito e, logo após sua ressurreição envia seus discípulos a sua missão: ‘‘Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura...’’

E hoje aqui temos o prolongamento da palavra de Deus através dessas Irmãs que, de terras longínquas, nos incentivaram a viver e a construir de modo real o Evangelho. 

A todas meu eterno reconhecimento e carinho.

José Alberto Bernardes Borges