Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº1733 - 26 de Junho de 2020

Olária Maria, uma mãe nota 10

Edição nº 1726 - 8 de Maio de 2020

A vendedora de doces Olária Maria de Carvalho, aos 87 anos, é uma das idosas que faz diferença na sociedade sacramentana pelo trabalho que ainda realiza diariamente pelas ruas da cidade, onde é conhecidíssima pelo seu ir e vir empurrando um carrinho carregado de saborosíssimos doces, mel, geleia, café moído em casa...

Nascida na fazenda Capão Comprido, no município de Sacramento, no lar de Silvério José de Santana e Margarida Nicephara de Santana, Olária cresceu ao lado de cinco irmãos, Oscar, Bolívar e Osvalda (falecidos), Isaura e Helena. Ali nas fazenda, no duro trabalho das lides rurais, ela nasceu, cresceu e só deixou a fazenda quando se casou com Tarcísio Rosa de Carvalho.

Estudos nenhum, conforme revela.  “Naquele tempo não tinha muita precisão de estudar, não. E quando chegou na hora não havia escola perto, e eu não tinha companhia para ir até a escola. Meu pai até falou em me levar pra casa de uma tia pra estudar, mas eu não quis sair de perto da minha mãe. A gente era acostumada em casa, não ia querer sair mesmo, não”, conta, acrescentando elogios aos pais. 

“- A vida era difícil, mas meus pais eram muito bons, eram muito católicos, tementes a Deus, a gente rezava o terço em casa todos os dias. Nunca levei um tapa sequer, papai e mamãe chamavam a gente e conversava. Havia muito respeito. Tanto por parte deles como dos filhos que, naquela época, éramos muito obedientes”. 

De fato, a vida não foi fácil para Olária. Ainda criança, ao lado das irmãs, ajudava a mãe em casa em todas as tarefas domésticas. “Desde criança, nossa vida foi de muito trabalho. Eu me lembro que não tinha tempo de brincar, não, sempre ajudando minha mãe em casa. Ao completar oito anos, o trabalho foi ainda mais pesado pois fui trabalhar na roça com meu pai, na enxada, até me casar”. 

O tempo de juventude, das fantasias, dos namoros, das festas, bailes, recorda mais Olária, continuou sendo de muito trabalho e sem diversão.  “Antigamente não havia muita festa, nem muito lugares para   a gente ir. Era ali na roça, em casa ou visitando um parente, um conhecido, nos finais de semana. Então, a gente não passeava. Festas eram muito poucas. A família toda fica em casa, ali com os pais, e trabalhando.  Já mocinha conheci o Tarcísio, meu único namorado, com quem me casei e fomos viver a nossa vida”. 

 

Recordando

“Casamos no Civil e na Igreja Matriz. O Pe Saul Amaral, vigário da época, foi quem celebrou nosso casamento, no dia 15.2.1949. Foi muito simples. Não teve festa nem nada.  Depois de casada continuei trabalhando. Dava uma parada só no resguardo dos quatro filhos que tivemos e logo voltava pra lida. Criei meus filhos trabalhando na roça, ali no eito, lá comigo e o Tarcísio. Deixava 'eles' debaixo de uma árvore, na sombra, e ia pra luta, apanhando café, capinando, mas sempre de olho neles, sempre com muito amor”, recorda. 

Talvez seja por esse passado de intenso e infindável trabalho que Olária continua essa guerreira forjada pelos pais. Misturando bondade, fé e orgulho diz que na roça não foi fácil, mas ali também aprendeu muito. “A lida na roça não é fácil, quando não está na enxada tem outras coisas pra fazer em casa, lavava roupa, passava, cozinhava, fazia sabão, polvilho cuidava das criações, fazia de tudo. Como dizem, 'a vida me ensinou muitas coisas'” relata, sem nenhum lamento daquele tempo, pelo contrário. 

“Sinto saudades daquele tempo”, diz. “Se eu desse conta estaria trabalhando até hoje. A gente apanha gosto pelo que faz e eu gostava, principalmente, de colher e catar café. Hoje não faço mais isto, a idade chega a gente tem que parar. Continuo com meus doces, vendendo pelas ruas da cidade”. 

Mas o que se percebe na narração de Olária é sua disposição para o trabalho. Beirando os 90, ela ultrapassa os limites de qualquer mãe na sua idade. Diariamente, sai de casa por volta das 7, 8 horas e só retorna de tardinha. “Almoço por aí, entro num bar, numa lanchonete, compro um salgado, um refrigerante; outras vezes passo na casa de uma amiga, almoço; tomo um café aqui, ali...”, explica, lembrando do amigo Carlão, do Rio Grande Hotel que sempre a convida para um café. 

Viúva há 40 anos, mãe de quatro filhos, Antônio Carlos (Cirlene), Osvaldo, Oscarina (Paulo Eurípedes) e Marisa (Antonio Reginaldo), Olária, questionada pela repórter sobre o seu papel de mãe, faz uma avaliação humilde da educação que deixou para os filhos. 

“Fui uma boa mãe. Meus filhos foram criados na roça, mas eu não descuidava hora nenhuma deles, era um olho no serviço o outro neles, e graças a Deus nunca aconteceu nada. Demos a eles o que pudemos, mas nunca lhes faltou nada, principalmente orientações, conselhos pra seguirem sempre no bom caminho, serem trabalhadores, tementes a Deus, honestos”, afirma.

A educação escolar também não foi esquecida, naquilo que era oferecido na época. “Eram todos obrigados a frequentar a escola rural. Todos eles estudaram até o 4º ano, o ensino que era oferecido ali na região. Não tínhamos condições de mandá-los pra cidade pra estudar. Naquele tempo não tinha transporte escolar como tem hoje. Meu filho mais velho tinha muita vontade de estudar, gostava da escola, mas não teve jeito. Mas graças a Deus todos são boas pessoas, todos casados e tenho cinco netos todos adultos”, diz com o orgulho de uma verdadeira e exemplar mãe. 


Olária, a vendedora de doces

A venda de doces foi uma alternativa encontrada para viver na cidade. “Quando parei de trabalhar na roça, passei a fazer polvilho, farinha e sabão pra vender. Aí mudei pra cidade e não tinha como fazer nada disso mais, então comecei a passar roupas nas casas e a noite fazia crochê. Passei roupas nas casas durante muito tempo,  mas aí apareceu um problema na coluna e de circulação, porque ficava em pé passando roupas por muito tempo e sentada até tarde da noite fazendo crochê. 

Os médicos proibiram de fazer estes serviços e pensei: 'Meu Deus, o que vou fazer?'. Fiquei muito triste e aí minha filha me deu ideia pra vender doces na rua. Ela começou a fazer os doces, eu comecei a vender e nunca mais parei. Hoje vendo vários tipos de doces: de leite, amendoim, geleia, mel, requeijão e pó de café caseiro. Pego tudo pronto e saio pra vender. Mas agora tive que parar por causa essa doença. Gosto muito do que faço e estou achando muito difícil ficar parada. A gente que é acostumada a trabalhar, não consegue ficar parada. Saía todos os dias e agora não posso, tenho que ficar em casa e quando saio uso máscara”. 

Dia das Mães, questionamos: 'Se sua mãe fosse viva, o que lhe daria de presente?'. A resposta veio de pronto: “Se mamãe fosse viva, o que eu lhe desse, ela iria gostar.  Mas a primeira coisa, seria lhe pedir a bênção e lhe daria um abraço e uma lembrancinha, porque presente bom a gente não tem condições de comprar. Mas sei que ela iria gostar”. 

Como mãe, ela também se contenta com pouco ao responder sobre o que gostaria de receber de presente. “O presente que ganho todos os anos. Um abraço e muito carinho dos filhos e netos. É isto que eu ganho todo ano, os que moram fora, se não vêm, eles ligam.  Nunca esqueceram a data”, afirma, desejando um feliz Dia das Mães às filhas e noras e a todas as mães do mundo. “Muitas bênçãos de Deus, o carinho dos filhos, muita saúde para todas”.

Na pessoa dessa guerreira, Olária Maria de Carvalho, o ET abraça todas as mães pelo seu dia, pedindo à Mãe das Mães, Nossa Senhora, medianeira de todas as graças, saúde e bênçãos para todas. 

Veja nesta edição os anúncios de saudação pelo Dia das Mães.