Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Os 90 anos do poeta e camarada Deda

Edição nº 1123 - 12 Outubro 2008

O apelido Deda veio antes do nome, José Antonio de Faria. Guairense nascido nas beiradas do rio Grande, no dia 14 de outubro de 1918. Final da 2ª Grande Guerra. Aliás, fatos, datas e nomes a sua memória prodigiosa ainda guarda tudo, com detalhes impressionantes. Foram mais de quatro horas de fita gravada, onde contou a sua comovente história de vida nas terras paulistas até conhecer a cidade que abraçou como sua, Sacramento, terra natal da mulher Julieta Cordeiro, que lhe deu cinco lindos filhos: Antônino (Tânia), Abadia (Luciano Lavor, falecido), Ângela,

 Betô (Reny) e Delfina (falecida aos 7 anos) e que lhe deram oito netos e três bisnetos. Esta entrevista é também uma homenagem do jornal ET a este poeta e comunista (talvez o último, com Oscar Niemeyer) humilde e grande homem, pelo exemplo de vida, trabalho e dedicação à comunidade.

ET - O sr. nasceu então nas barrancas do rio Grande?

Seu Deda – Nasci mesmo em Guaíra, mas fui criado por aquelas bandas. Meu avô materno tinha uma fazenda pertinho de Igarapava, pertinho do rio Grande. Depois a família foi esparramando. Meu avô foi pra Morrinhos. No primeiro casamento ele teve cinco filhos, um deles a mamãe, Adelaide de Oliveira Carvalho. Meu pai, Virgílio Alves de Freitas, filho também de fazendeiro, eram ambos do município de Ituverava (SP). Ali se conheceram e se casaram. Em 1910, eles mudaram pra Guaíra, onde eu nasci. Sou o caçula dos sete filhos que tiveram.

ET – De onde vem o apelido Deda?

Seu Deda – É curioso, na verdade, o apelido Deda nasceu antes do nome. Dizia minha mãe que uma vizinha nossa, teve um namorado cujo apelido era Deda. Aí ela passou a me chamar de Deda e pegou. Quando fui batizado com o nome de José Antônio, o apelido já existia. E fiquei Deda, Deda, Deda e está aí o Deda...

ET - O que o sr. lembra da infância em Guaíra?

Seu Deda - Tudo. Minha vida foi de menino. Meus grandes amigos de infância foram três, Cândido Apolinário, filho da Tia Coca; Euclides e Tião, que eram netos dela. Esses eram meus amigos. Eu brincava com eles. Eu era mais franzino e eles maiorzinhos. Eles tinham muito ciúme de mim, zelavam de mim como irmãos. Tia Coca gostava também muito de mim. Minha família, no princípio era rica, depois ficou pobre. Tudo começou um tempo antes e veio complicar com a crise do zebu em 1922, quando muita gente perdeu tudo. Éramos todos muito pobres. As pessoas passavam meses sem ver um tostão. Eu ficava por ali, em casa, na casa dos meninos e por lá comia. Uma vez, meu pai veio fazer um madeiramento na fazenda dos Ambrósios, na margem de cá do rio Grande, ele demorou muito tempo e plantou um arrozal. A gente mudou pra cá pra beira do rio. A vida era difícil. Não havia conforto... 

ET – O que aconteceu com seu olho direito?

Seu Deda - Foi nessa fazenda que perdi esse olho, eu tinha uns três anos. Dizia minha mãe que um rapaz que papai arrumou pra ajudar no madeirame da fazenda fez um cigarro de palha e deixou o canivete no banco. Aí eu peguei o canivete e comecei a imitá-lo aparando a palha e, de repente, nesse ato de puxar o canivete pra cima, eu furei o olho. Foi quando voltamos para Guaíra, para meus pais cuidarem de mim. Naqueles dias meu pai foi a Campinas em buscar tratamento pra ele, que não estava bem de saúde. Campinas já era um centro oftalmológico de renome, mas ele não me levou. Falta de recursos. Por lá ele adoeceu e não teve jeito, não teve remédio. Papai faleceu em 1922. E meu olho, Santa Luzia curou. Estava tudo infeccionado e podia passar para o outro. Dizia minha mãe que uma vizinha batia clara de ovos e punha no meu olho furado, pra parar de vazar, pra não inflamar, foi o recurso. Naquele tempo, a gente vivia mesmo era de tratamento caseiro.

ET – Foram duas tragédias, o acidente com o olho e a perda do pai, tudo na mesma época...

Seu Deda - Foi, minha mãe sofreu muito com a morte de papai e para cuidar de mim. Depois de três anos de viuvez, mamãe arrumou um companheiro, João Ferreira da Rocha, que tinha muito carinho comigo e com os meus irmãos. Foi ele quem me levou pra escola, eu tinha sete anos.  Mas o diretor não me aceitou na escola, dizendo que eu estava ainda muito novo. Não sei se foi por causa do olho, ou se eu era novo mesmo. Depois, só retornei à escola aos dez anos, em 1928. Em 29 eu perdi o ano. Minha mãe trabalhava muito, fazia sabão, farinha e, eu não sei porquê, o olho esquerdo começou a dar problema. Cheguei a ficar completamente cego. Andava puxado pela minha mãe. Depois, graças a remédios caseiros, como suco de limão galego, sementes de alfavaca e promessas a Santa Luzia, a Nossa Senhora Aparecida, meu olho foi melhorando e graças a Deus não teve mais nada. Só fiz tratamento há três anos atrás, para curar uma catarata. Uma das promessas, a Na. Sa. Aparecida levei 52 anos para cumprir.

ET – Sua mãe ficou viúva muito jovem. Ao se casar novamente nasceram outros filhos?

Seu Deda - Não, havia um farmacêutico, o Manoel Queirós, de Jabuticabal, que mudou pra Guaíra com uma fórmula revolucionária para a época. Ele fazia um remédio para as mulheres não engravidarem. Pode-se dizer que ele inventou a pílula anticoncepcional naquela época. Ele ficou famoso naqueles anos só com esse remédio... Mas morreu jovem. 

ET - Voltando ao seu tempo de estudante. O sr. disse aí que entrou na escola aos dez anos e como foram os estudos? Chegou a se formar?

Seu Deda – Não, não me formei, concluí o 4º ano primário, nas Escolas Reunidas de Guaíra. Lembro ainda dos meus professores: João Augusto Neves, Julieta de Campos, Maria Eugênia Tavares e dona Julieta voltou a ser minha professora no 4º ano.   Tirei o Diploma em 1932 e comecei a vida no trabalho. Aquele tempo era muito atrasado, não havia nem rádio, nem livro direito. Nesse tempo de escola, eu vivi duas revoluções, a do Getúlio e a Constitucionalista. Eu caminhava para os 14 anos, já fazia uns biquinhos aqui e ali. Arrancar e puxar mandioca pra mamãe fazer farinha, buscava barrigadas e cabeças pra fazer sabão, vendia sabão, doces e quitandas na rua. Mas tinha dia que andava o dia inteiro e não vendia nada, a crise estava feia. O lugar que eu mais vendia era no bordel da cidade. As mulheres compravam bem. E eu ganhava até uns quatrocentos réis e era dinheiro. Mas tinha época que não vendia nada. 1929, foi a crise do café, que derrubou muita gente, acabou com o país. Era a segunda crise, primeiro de 1922, com o zebu, quando eu era muito novo, mas ouvia as pessoas contar. Foi com essa crise que a nossa família perdeu tudo. Então, em 29 já éramos muito pobres...

ET - Mas, e as brincadeiras de crianças? Como era na escola aquele tempo de revolução? 

Seu Deda - A gente arrumava um tempinho pra jogar bola no campinho de terra, não tinha nem bola de verdade, era bola de pano. Mas tem uma coisa, todo menino da cidade era revolucionário. A gente ouvia falar da revolução de 1932, via a movimentação na cidade e ficávamos fascinados. Não havia meios de comunicação como hoje, mas me lembro que a gente ficava alvoroçada, todo menino queria ir pra revolução. A gente era besta, mesmo.  Havia até o hino que cantávamos, com música tirada do Hino da Independência: “Nós somos dos Bandeirantes os descendentes sempre arrogantes/ deixamos nos corações deste  gigante as tradições/ nossos bravos avós clamam por nós com aflição/  de ti paulista, viril, espera o Brasil a redenção”. O refrão era assim: “A lei queremos com fervor/ a lei queremos com a Constituição/ São Paulo, braço forte que decide agora a sorte dos destinos da nação. (Música do Hino da Independência – grifo nosso) A gente vivia cantando esse hino, na escola, nas ruas. Os paulistas são marcados até hoje por causa dessa revolução...

ET - Mas eles não tinham razão? Queriam acabar com a ditadura...

Seu Deda - Mas a república também cometeu erros toda vida, cometeu muitos crimes, fez muita picaretagem. Os republicanos não foram bons, excetuando o Campos Sales que foi um grande presidente e o Washington Luiz, e foi na sucessão dele, que houve a revolução de 1930. Depois veio a revolução Constitucionalista, de 1932, pra recuperar. E em 1937 teve o golpe de Estado com a ditadura varguista até 1945. Guaíra viveu e muito esses momentos, a cidade inteira, por isso, nós, os meninos ficávamos entusiasmados. Havia muitos voluntários de Guaíra na revolução de 32. A cidade é limítrofe com Minas Gerais. Do lado de cá é Conceição das Alagoas, então estava sempre movimentada, sempre patrulhada.

ET - E a sua vida de rapazinho, quando começou a sair de casa, freqüentar bailes?.. Enfim, a sua juventude em Guaíra, conta como foi.

Seu Deda - Eu fui crescendo e trabalhando, trabalhei de servente de pedreiro, de seleiro, de balconista, tirador de leite, tratador de porcos nas fazendas, fazia de tudo. E sempre fui muito benquisto, bem aceito com os meninos ricos, tanto nas casas, quanto nas bolas, na rua. Alguns amigos mais chegados, parentes achavam que eu tinha ficado orgulhoso, mas não era nada disso. Então, eu freqüentei a sociedade guairense. E olha que naquele tempo era muito rigoroso, os preceitos do Império ainda vigoravam. Minha família era religiosíssima. Aliás aquele tempo não havia essa multirreligiosidade. Cidade pequena, eram todos católicos. 

ET – Namorador?

Seu Deda – Um pouco! (risos). Quando eu era rapazinho, menino ainda, tive duas namoradas, elas me namoravam, a Iraci e a Sebastiana. A Sebastiana era filha da minha madrinha Jacinta, parteira que assistiu minha mãe quando nasci. A Iraci era filha da Idalina, muito amiga da minha mãe. Iraci era bonita, muito bonita e me esperou muitos anos. A Tiana nem casou. Uma vez fui trabalhar em Ituverava, em 1933, e teve uma prima também, Maria Rita de Carvalho, que ficou doida por mim, mas em 1937 acabei tudo, não tinha condições de casar. Terminei tudo e uma semana depois ela começou a namorar um outro primo... Casaram-se e foram muito felizes. 

ET – Ainda bem, deixou a prima esperando quatro anos e depois se mandou! (risos) E o trabalho, quando começou?

Seu Deda - Comecei cedo no trabalho. Em 1933, eu passei a trabalhar de servente de pedreiro, com meu padrasto. Mas antes eu já havia trabalhado de ajudante de cozinha com uma família síria. E virei amigo dos filhos desses sírios... Um dia fomos a Ituverava ver meu tio Batista. Ele tinha uns cinco ou seis filhos. Foi nessa época que a prima Maria Rita se interessou por mim. Fiquei lá um ano trabalhando no sítio com meu tio e depois voltei para Guairá. Em 1934, entrei no oficio de seleiro pra valer, com o meu professor, Cândido Parreira Duarte. Por conta de algumas contrariedades, me mudei, em 1939, para Mirassol, que, graças a uma apresentação da mulher de meu ex-patrão, o sr. Cândido, que para lá tinha se mudado para tomar conta de um hotel, fui trabalhar com os turcos, Saad e Cia., que tinham uma máquina de mexer com algodão. Eu empilhava sacos de algodão. Ali permaneci apenas três meses e me mudei para Monte Aprazível, onde voltei a trabalhar na profissão, durante três meses também. Ali, em Monte Aprazível, fui acolhido como filho da terra, como filho das melhores famílias da cidade. Depois desse curto tempo, me mudei mais uma vez e fui para Andiara,  porque um seleiro de lá, o Romano Zocal, me chamou pra trabalhar com ele. A cidade de Andiara, estava começando naquela época. Minha vida foi de trabalho pra aqui, pra ali... 

ET – Bom, de Guaíra para Mirassol, Monte Aprazível, Andiara, Ituverava e de lá para a mineira Uberlândia. Em que ano decidiu vir pra Minas?

Seu Deda – Em 1941, um ano no qual aconteceram muitas coisas na minha vida. Fui trabalhar numa fábrica de calçados e de arreio, em Uberlândia, para onde levei mamãe e meus sobrinhos. Fiquei morando na pensão São João. Em setembro, conheci o Dedão, irmão de minha futura esposa, Julieta Cordeiro. Fui passear na Estação da Mogiana e lá o conheci. Ele trabalhava na CMTC. Alugamos uma casa pertinho da sua e viramos vizinhos. Alguns meses depois, o Dedão me contou que a irmã dele iria mudar pra lá. Ela trabalhava na Telefônica de Sacramento e foi transferida para Uberlândia. Logo depois nós nos mudamos para uma casa maior, na mesma rua. Julieta chegou em Uberlândia no dia 4 de agosto de 1942. Eu não fui conhecê-la. No dia seguinte, indo pro almoço, o Dedão me chamou a atenção, por que não tinha ido a sua casa conhecer sua irmã. Eu disfarcei, dizendo que não tivera tempo. No terceiro dia, o Dedão, a mulher  e a Julieta foram  me visitar em casa. Nós nos conhecemos e já no primeiro encontro tivemos um atrito... (risos). Resultado,  aqui estou no Triângulo Mineiro até hoje.

 

Continua na próxima edição