Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº1733 - 26 de Junho de 2020

Lê, no futsal italiano

Edição nº 1723 - 17 de Abril de 2020

O sacramentano, Leandro (Lê) Alexandre Ferreira 27,  filho de Eurípides Barsanulfo Ferreira, e Maria Beatriz Pereira Ferreira, é um atleta que vem fazendo a diferença no futsal dentro e fora do Brasil.  Lê, que estava disputando a Liga Italiana de Futsal, pela equipe italiana  Colormax  Pescara,  desde novembro último, com a suspensão das atividades esportivas no país no dia 9 de março, devido a pandemia do novo coronvírus, retornou ao Brasil no dia 21 de março. Depois de passar 20 dias em quarentena, já em Sacramento, pôde abraçar a família e dar o 'ar da graça' para todos.  Relatando a sua trajetória, seus aprendizado e até seus medos, Lê concedeu a seguinte entrevista ao ET.

 

Tudo começou na quadra do João XXIII

      Aqui nasceu cresceu, estudou nas escolas Eurípedes Barsanulfo, Afonso Pena e o ensino médio na Escola Coronel.  Como todo garoto, desde a infância demonstrou sua paixão pelo futebol. “Há uma quadra na porta da minha casa, na Cohab, e ali passei a infância jogando 'rachinhas'. O gosto pelo futsal nasceu ali, depois vieram os primeiros treinos na mesma quadra, num projeto da Prefeitura com a professora Sinara. O que aprendi ali foi muito importante para o que sou hoje. Complementado depois com o técnico Zé Arí, no Marquezinho. Foi quando comecei nas competições. Reconheço hoje que esse tempo foi muito importante, pois aprendi muito na questão de disciplina, responsabilidade, preparo físico, coisas que fazem a diferença até hoje. 

Mas passei também por outras escolinhas de campo com Nelsinho, no campo do Atlético; com o Diron, de Uberaba, e o Fernando (Bocage), no campinho e na quadra da Cohab, e na quadra do João XXIII, além do técnico Xó, como treinador de futebol de campo no Marianos. E assim fui me aperfeiçoando”.  

 

Inúmeros títulos no currículo

Desde que começou a participar de competições com Zé Ari, Lê não parou mais. Participou de vários campeonatos na cidade e pela cidade. “Foram muitos campeonatos e vários títulos. Só no Copão de Futsal tenho dez títulos, e quero ganhar mais, se Deus quiser.  Tenho também títulos pela URS, um deles, o 3º lugar no Campeonato Mineiro Infantil com Zé Ari; com o Bocage, fomos campeões do JIMI.  Depois conquistamos a segunda fase do JIMI que, para mim, foi o título mais importante que conseguimos, com os treinadores Pereira e Dengo. O campeonato foi em Uberaba e ganhamos do Praia Clube na final. Também com o Pereira ficamos em 4º lugar no Campeonato Mineiro, pela primeira vez ficamos entre os quatro melhores times do Estado e, recentemente, a Copa Band, que conquistamos no ano passado com o Bocage”.   

 

O sonho de ser profissional 

O sonho de ser um atleta profissional era há muito tempo sonhado por Lê, até que, em 2015, sua estrela brilhou mais forte. “Eu estava jogando em várias cidades. Passei por Ipuã (SP), quando disputei o Campeonato Paulista Série A 3. Fiz um excelente campeonato e, num dos jogos, um árbitro de Jaú me convidou para fazer um teste em Bauru, uma equipe profissional que estava contratando atletas. Fui fazer uma 'peneira' durante uma semana na Associação Atlética FIB/Bauru, que me contratou por um ano e meio. De lá fui para o Intelli, de São Sebastião do Paraíso; depois Jales (SP) e AGN Capinzal (SC). Em 2018 retornei a Bauru, onde iniciei como profissional, na Associação Atlética, minha última equipe no Brasil antes de ir para a Europa”. 

 

De Bauru para Chipre

No início de 2018, Lê retornou à equipe de Bauru com um contrato de um ano, mas seis meses depois, surgiu a primeira oportunidade de jogar fora do país. Proposta irrecusável! “Em agosto de 2018, assinei meu primeiro contrato internacional com o time europeu Athletikos Podosferikos Omilos Ellinon Lefkosias, mais conhecido como APOEL, com sede em Nicósia, capital do país. Com a equipe joguei a Liga do Chipre, a Copa e a Supercopa e a Champions  League  de Futsal. Infelizmente perdemos três finais, que para mim foram muito doloridas, com certeza as piores perdas que tive na minha carreira. Porque no Brasil, fui campeão da Liga Catarinense com a AGN Capinzal em 2017 e em Bauru, antes de embarcar para o Chipre, fui campeão da Copa TV Tem de Futsal e da Copa dos Campeões”. 

Em 2019, Lê brilhou na Copa Band jogando por Sacramento e no mês de novembro passou a integrar a equipe italiana do Colormax Pescara Futsal, na disputa da   Série A da Liga Italiana de Futsal, onde jogou até o início do mês de março, quando as atividades foram suspensas devido à pandemia.

 

Retorno ao Brasil

Lê retornou ao Brasil no dia 21 de março.  Mas reconhece que a experiência de jogar fora do Brasil está sendo fantástica. “Uma experiência muito grande, lugares maravilhosos que jamais imaginei conhecer, lugares e momentos que, às vezes, nem acredito que estão acontecendo, até coisas simples, como viajar de avião. E o que é muito importante é aprender novas línguas, conhecer novas culturas, novas pessoas, fazer novas amizades e, principalmente, adquirir muito conhecimento sobre a vida e o futsal”, revela.

 Com a suspensão das atividades esportivas na Itália, Lê não sabe ainda o que vai acontecer em relação ao campeonato, que estava prestes a entrar no mata-mata.  Mas de qualquer forma entende que o aprendizado foi grande, pela forma como o futsal é jogado no país. 

“A minha equipe Colormax Pescara joga na cidade de Pescara, mas eu moro em Chieti,  cidade vizinha, e estava sendo uma experiência muito positiva. A maneira de jogar futsal na Itália, é completamente diferente de todos os lugares onde joguei. Comecei aprendendo a marcação do zero e, graças a Deus, melhorei muito. O meu time é daqueles que brigam para não cair num campeonato. Estamos muito bem colocados, a uma vaga do playoffs para classificar para o mata-mata. O campeonato está suspenso e deve continuar com os oito classificados disputando o playoffs, quando a pandemia passar. Caso isto aconteça, não estaremos classificados, mas estaremos longe da zona de rebaixamento. Porém, eu acredito que o campeonato vai acabar”. 

Durante a temporada na Itália, Lê foi a Roma duas vezes a passeio. “Uma bela cidade. Gostei muito, só estranhei um pouco o jeito das pessoas, meio fechadas, completamente diferentes do nosso. No Brasil somos muito mais afetivos, alegres comunicativos.

 

O medo da Covid-19

Lê não sabe exatamente quando começaram os primeiros casos da doença no país. Mas o medo tomou conta. “Acredito que tenha começado em fevereiro, porque as pessoas tratavam ainda como uma gripe. Não davam muita bola para a doença, não. O nossos clube não se preocupou, continuou com os treinamentos, até porque o campeonato não havia sido paralisado. A nossa última partida foi no dia 22 de fevereiro contra Mântua (Mantova) e foi uma situação muito tensa. Fiquei com muito medo, porque Mântua fica na região da Lombardia, onde começou a pandemia e já havia muitos casos. Para mim, isso foi um erro da Federação e até mesmo dos dirigentes das duas equipes, que não deveriam ter aceitado. O jogo teve torcida, foi uma partida normal, portanto, foi um risco grande. Felizmente, nenhum jogador foi contaminado”. 

Depois de uma viagem preocupante, Lê foi orientado a passar por quarentena. “A saída da Itália foi muito tensa. Um clima de terror. Ruas desertas. O medo pairava no ar. As pessoas que apareciam na rua olhavam de cara ruim e passavam de três a cinco metros de distância. Hoje eu vejo que era como um filme de terror. Uma coisa muito triste. E rezo para que eu não passe por isso de novo e continuo rezando para que essa doença desapareça do mundo. É muito triste. Meu voo saiu da Itália, parou na Alemanha e chegou ao Brasil lotado de brasileiros, todos querendo fugir daquela situação”. 

Lembra Lê que no aeroporto já no Brasil, ainda não havia restrição, a quarentena não era obrigatória, mas ao chegar a Sacramento, minha namorada e eu ficamos de quarentena atendendo a recomendação do secretário de Saúde, Reginaldo, que me orientou durante toda a viagem, o que me deu um pouco de tranquilidade, porque a viagem foi muito desgastante e eu estava muito tenso. Mas graças a Deus deu tudo certo. Ficamos 20 dias em quarentena, isolados dentro de casa, para a segurança das nossas famílias e amigos. E na última quarta-feira 8, pudemos voltar para casa, abraçar minha família, todos muito felizes”.