Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

A vida é bela para Budu

Edição nº 1465 - 15 Maio 2015

Dizem os poetas que, fazer aniversário não é ficar mais velho, é completar mais um ano de vida bem vivido. É receber o afeto dos amigos e familiares. É ter história e estória pra contar. É amadurecer.  É ter orgulho de ser o que é. É olhar pra trás e perceber que os erros cometidos fizeram crescer e que os acertos ajudaram a construiu a sua vida e dos outros... Enfim, fazer aniversário é momento de festa e alegria... Fazer aniversário é uma dádiva... Fazer aniversário é simplesmente dizer que a vida é bela e vale a pena ser vivida...  É assim que Constantino Marques de Oliveira se sente neste sábado 16, quando comemora seus 65 anos, ao lado dos filhos Nelson (Carmem), Nelinho (Renata), Matheus (Sheila), Márcia (Paulo Renato), oito netos e um bisneto a caminho e ao lado da atual esposa, Francisca Maria Ferreia, demais  familiares e amigos. Na oportunidade, Budu fará também um agradecimento à vida, com a reza do terço numa capelinha em louvor a Santos Reis e Nossa Senhora Aparecida, construída  no seu rancho no Cipó, em seguida, a comemoração com um almoço.  Merecida comemoração para um homem que fez história na profissão, nos esportes, no carnaval, na vida em si, ao vencer com gáudio os reveses da vida...

ET - Vamos começar com Budu e a família. 

Budu - Sou filho de Mercides Hipólito de Oliveira e de Maria Cândida de Jesus, que vieram de  Guia Lopes (atual São Roque de Minas) e nós,  os 11 filhos nascemos todos ali no Trás do Morro ou Patrimônio, como dizíamos na época, e hoje o  bairro João XXIII. O mais velho era o Onofre, depois, Maria Euripedina, Aparecida, Benedito (ambos falecido), José, Rosa, Budu, Vicente, Abadia e o Orlando. E um filho faleceu logo após o parto. Naquele tempo as famílias eram grandes...

ET - Nem tinha TV (risos). Eta vida difícil naquele tempo, hein?...

Budu - Nossa senhora! Difícil é pouco. Morávamos num rancho de terra batida e coberto de capim como eram quase todas as casas ali no Trás do Morro. Nossa casa ficava naquele largo onde hoje é a Capela de S. Miguel e a praça João XXIII. E pensar que ranchos, hoje, são as mansões nas margens do rio... Tínhamos uma área grande  área ali, como uma chacrinha,  que é onde construíram a capela e as casinhas da vila. Mas a vida era muito difícil, a  gente não teve infância, não teve estudo... Com a morte do pai, a família abandonou o local. Mamãe não quis ficar mais lá, então nos mudamos para um outro rancho, um corredor próximo ao campo dos Marianos. A Prefeitura acabou ficando com a área, porque tudo era do Patrimônio do município mesmo, e doou para a Obra Social João XXIII. Foi quando a paróquia e as Irmãs da Santa Casa construíram a Capela e as casinhas da vila.

ET - Como, não teve infância?

Budu - Porque criança hoje brinca, ganha brinquedo, tem aniversário, Natal, pré-escolar, escola... Naquele tempo moleque começava a ralar cedo. Escola não era igual hoje... Mas eu comecei na escola lá no Grupão (Escola Afonso Pena), mas foram só os dois primeiros anos. Aos oito anos fui trabalhar na fazenda do Ariston do Memeco, na Água Emendada.   Eu estudei um pouquinho a mais, depois de casado, já tínhamos  nosso filho Nelson,  fiz o 3º e o 4º ano à noite, também no Grupão. Voltei da fazenda e  quando tinha 12 anos comecei a trabalhar de servente de pintor com meu irmão, Onofre, que trabalhava com o Jácomo Pavanelli. E aí foi levando os irmãos, primeiro o Benedito, o  Zé, depois fui eu e por fim  o Vicente... Quando comecei com o Onofre, ele já era independente e com ele aprendemos a profissão de pintor. Nós pintamos a Igreja Matriz. Depois o Onofre mudou para pedreiro, aprendemos  também a trabalhar com ele e aí cada um seguiu seu rumo.

ET - E quando veio a primeira casa de alvenaria?

Budu - Quando me casei com a Euripa (Duca), antes de completar 18 anos. Mas antes disso, já não morávamos mais em rancho de capim. Do rancho de capim, evoluímos um pouco, passamos a morar numa  casa de adobe (Grifo nosso: tijolo de terra crua, água, esterco,  palha ou outras fibras naturais, moldados em formas por processo artesanal), era casa de telha, mas de chão batido. De alvenaria, só mesmo quando nos casamos e fomos pra nossa casinha, no bairro de Lourdes. Ali ficamos alguns anos. Depois construímos outra casa mais ampla, também no bairro de Lourdes. E, mais tarde construímos a casa  da rua Joaquim Murtinho. 

ET - Por falar em Duca, ela foi uma Amélia, uma mulher de verdade...

Budu -  Se foi. Ela foi meu braço direito. Lutamos juntos. Duca e eu vivemos casados 42 anos e éramos  nós dois agarrados no serviço, os dois trabalhando. Ela fazia crochês, bróia, costuras, fazia arremates de costura para os outros, cuidava da casa, tudo pra ajudar. E eu trabalhava nas construções até as 17h com o Onofre  e, à noite, das 18 às 22h, eu trabalhava no Laticínio Scala, dando manutenção, reformas e lá trabalhei 11 anos como pintor e pedreiro. E foi nessa época que e construímos a casa maior.   Depois do falecimento da Duca em 2010, conheci a Francisca. Quase a atropelei e estamos juntos há cinco anos e eu completando 65 anos. Sinto-me realizado e feliz.

ET. Você começou com Onofre aos 12 anos, tem, portanto mais de 40 anos no ramo de construção, pintura... Você  tem idéia de quantas casas já construiu?

Budu - Trabalhei com o Onofre 20 anos. A última construção que fizemos juntos foi em 1980, construímos a Rádio Sacramento e aí passei a trabalhar por conta. Mas no início, tive de, digamos,  vencer a concorrência, só que tive o apoio de amigos que me indicavam para as pessoas.  Eu pegava serviço como autônomo, não tinha firma. O Toim Leite me ajudou muito, ele foi o  primeiro fazer uma indicação. Ele me indicou para a Marisa, aí eu fiz a reforma da Escola Sinhana Borges. Depois ele me indicou pro seu Nelson Amâncio. E  assim foi. Outros serviços foram aparecendo, até que surgiram os conjuntos habitacionais e graças a eles já construí bem mais de três mil casas em Sacramento. 

ET - Quando surgiu a Constrol?

Budu - Foi criada em 1992 e com a empresa pudemos participar das licitações para as construções de conjuntos habitacionais da cidade. Com a Constrol, o primeiro conjunto que fizemos foi o Irmã Tereza Vaz, ao lado da quadra do bairro João XXIII. Depois fizemos o lzaías Borges da Mata, o Bocão; e, ainda o Alto Santa Cruz, antigo Pito Aceso; e o Cervato IV e Cervato V. Nessa época, meus filhos, Nelson, Nelinho e Matheus trabalhavam comigo...

ET - E a Construtora CEM?

Budu - A empresa Constantino e Euripa Marques – CEM, foi criada logo depois que Matheus se formou para Engenheiro, no ano de 2001. Com ela construímos o Jardim Primavera e muitas outras construções particulares, como, por exemplo, o prédio do Chiquinho (Maísa), o Posto Trevo, Banco Bradesco. Cheguei a ter uma equipe de 40 funcionários. Hoje estou aposentado, mas continuo  trabalhando, não diretamente, mas administrando as obras terceirizadas. Não tenho firma mais, não, mas meu filho Nelson, o Rubens e eu trabalhamos juntos, terceirizando obras. Só administramos. Não dá pra parar, minha vida inteira foi de trabalho...

ET – Você, uma pessoa muito trabalhadora, engajada, realizada, como bem diz, cuja profissão e serviços realizados nasceram com a ajuda de outras pessoas. A quem você deve essa ascensão?

Budu - Sem dúvida. Diria que é uma dívida de gratidão, primeiro a Deus, pela saúde e pela força, aos meus pais, ao Onofre e ao seu Jácomo Pavanelli. O dom do trabalho devo aos meus pais, à criação que tive. Papai era muito trabalhador, ele trabalhava pesado na Prefeitura, serviço braçal, furava valetas, não parava.  Devo ao meu irmão, Onofre, que me ensinou a ser pintor, me ensinou a ser pedreiro e ao seu Jácomo, que ensinou o Onofre. Não trabalhei com o seu Jácomo, eu era muito novo, mas o Onofre aprendeu com ele. Quando comecei com o Onofre, ele já era independente. E devo muito também a quem acreditou no nosso trabalho...

ET - Como empresário bem sucedido, tendo construído vários conjuntos habitacionais, diria que esse ramo é bem rentável, especialmente na construção desses residenciais?

Budu - Ledo engano. Os conjuntos foram bons pra cidade. Naquela época a  margem de lucro era muito pequena, eram  obras baratas, que exigem muitos empregados, os encargos muito  altos e sobrava pouca coisa. Curiosamente, o que me deu alguma coisa foi a construção da Destilaria Jaguara, do João Genaris. Um dia, o engenheiro Sérgio Araújo me chamou para montar a destilaria. Aceitei e lá trabalhei durante seis anos e foi onde ganhei tudo o que tenho hoje. Foi um trabalho muito bom, construímos tudo lá, as dornas, caldeiras, pontes, restaurante, escritórios, tudo, tudo. No início éramos três firmas, depois só ficamos nós, quase seis anos.

ET - Mas a Destilaria não foi à falência?

Budu - Quando estávamos completando seis anos de obras, ela 'quebrou' e foi todo mundo pra rua.  Aí o pessoal fez um abaixo-assinado pra ir ao Ministério do Trabalho, mas eu me recusei a assinar. Passado quase um ano, João Genaris me chamou e me perguntou por que não fui à Justiça, sendo eu o que mais tinha pra receber. Respondi que não fiz e não faria isso. Ele então disse que iria fazer o acerto começando por mim. Corrigido o crédito que tinha com eles através das URVs, o dinheiro quase dobrou, mas  fizemos um acordo. Dava pra comprar, na época, uma big fazenda, mas comprei um sítio de sete alqueires de porteira fechada, inclusive com as criações. Com o restante,  comecei a comprar terrenos e construir casas pra vender. O Marão Santana e eu fomos os pioneiros nessa modalidade na cidade. Eu fiz e vendi mais de 300 casas em Sacramento. 

ET - Vamos mudar de assunto. E o Budu beque do XIII de Maio, dos Marianos, do CAS, Budu político, Budu do Carnaval... O que tem a dizer?

Budu – Muita coisa. Comecei no futebol no XIII de Maio, depois passei para os Marianos e fui para o Atlético por muitos anos, jogando com o Japué, Cridão, Tody, Walmor e sempre joguei de beque central (zagueiro). Encerrei a carreira nos Marianos e logo passei a presidente do clube. Era uma época de times muito bons, campeonatos muito bons... Joguei contra o AGAP de Belo Horizonte, Francana, Araxá Esporte. Era um tempo bom, parece que o pessoal se dedicava mais, vestia mesmo a camisa, o pessoal gostava mesmo do futebol de campo. E outra, por parte dos atletas havia disciplina, havia concentração... Agora, política foi uma decepção pra mim, que sempre achei que poderia contribuir com a cidade, me candidatei três vezes e nunca mais. Na primeira, obtive 307 votos; na segunda, 312 e na terceira, 341 e jurei que não me candidataria  nunca mais (risos).

ET - Se foi uma frustração na política, em compensação, o Carnaval só lhe trouxe alegria? 

Budu – É verdade, sempre gostei muito de carnaval, que para mim é uma festa fantástica. Nos carnavais no Poliesportivo Marquezinho, fui quatro vezes campeão com a Duca como 'casal folião mais animado', foram quatro troféus consecutivos de campeão. Gostava tanto que sou um dos fundadores da Escola de Samba Unidos da Estação, junto com o Emídio, o Fernandinho, dona Eleusa Pontes, Paulo Isaías. No primeiro desfile fomos campeões e ficamos com o Troféu Conceição. Mas foi só, a escola morreu naquele ano mesmo.

ET - Como assim?

Budu - Nem me lembro, o certo é que quase os mesmos foliões da Unidos da Estação formaram a Tradição Sacramentana, da Juscelaine e Catão. Na Tradição toquei na bateria dois anos e depois passei a desfilar na ala Luxo e Beleza. E hoje fico pensando como são as coisas, naquela época, a Prefeitura dava um pouquinho de dinheiro, as roupas eram confeccionadas aqui mesmo, cada folião ajudava  e era maravilhoso. Hoje, as escolas ganham um dinheirão, que vai todo embora da cidade com aluguel de fantasias e carros.

ET - Concluindo, que lição você tira de sua vida?

Budu - Acho que fui um herói, porque nasci sem nada, muito pobre, passando muitas dificuldades e me considero um homem muito feliz, trabalhador, muito honesto,  conquistei a confiança das pessoas e tive muitas ajudas, apoios e venci. Agradeço muito a Deus, não posso reclamar da minha vida. Vivi e vivo bem, trabalhei muito, joguei bola, dancei no carnaval e danço forró até hoje. Enfim, tudo o que quis fazer, eu pude fazer. Então, só tenho a agradecer. Deus foi muito generoso comigo e está sendo, porque tenho saúde e estou tranquilo e guardo a minha fé. Sou muito devoto dos Três Reis Santos e de Nossa Senhora Aparecida, fiz várias festas em louvor aos santos e vou comemorar o meu aniversário com um terço na capelinha que fiz em louvor a eles.