Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1727 - 15 de Maio de 2020

Lima Duarte e seu amor por Sacramento

Edição nº 1351 - 01 Março 2013

 

O sacramentano Lima Duarte (Ariclenes Venâncio Martins), 82,  renomado ator global não perde  a oportunindde de voltar às origens, para recarregar as energias na Chácara Triângulo, da amiga Heigorina  Cunha, e estar com amigos e velhos conhecidos, da cidade e região, como o ribeirãopretano, amigo de infância,  Dr. Denizar. E não foi diferente neste Carnaval, na residência dos amigos Paulo Roberto Pavanelli (Beatriz Zandonaide Pavanelli), degustando um saboroso peixe assado. Antes, porém, Lima, acompanhado da filha Mônica Martins, papeou com o ET, falando mais uma vez de suas origens, dos trabalhos e os sonhos futuros.

 

 

 

As origens em Sacramento

“Falar de Sacramento é falar prioritariamente de minha mãe, América Gonçalves Martins, uma mulher excepcional, que queria ser atriz. E olha que quando falo dela, falo de cem anos atrás. Uma mulher querer ser atriz há cem anos atrás era uma “vaca”, “vagabunda”, “mulher de má fama”. E são cem anos atrás aqui no interiorzão, e mais, ela era epilética. Havia um preconceito muito grande. “Isso pega”, “ela tem aquela doença”. E para completar, ela era espírita, que era mal visto na época. Mamãe era tida como  “a macumbeira”., “a feiticeira”. Tudo isso ela enfrentou naquele tempo”, conta e prossegue relatando dados até então desconhecidos. 

“Mamãe era de Orlândia (SP). Ela foi trazida para Eurípedes Barsanulfo curá-la. Aqui ela se casou com papai, Antonio José Martins, que era de Araguari. Eles ganharam um lugar prá morar lá no Desemboque, um sítio  perto do Marimbondo, onde nasci. Éramos muito pobres, a vida muito difícil. O próprio Eurípedes Barsanulfo arranjou um centro espírita em Ribeirão Preto pra mamãe ser zeladora. Mudamos para Ribeirao Preto, mamãe e papai foram cuidar do Centro Espírita Batuíra. Sou herança por herança de meus pais, fui criado num centro espírita. Quando fomos para Ribeirão Preto eu tinha de sete para oito anos. Em Ribeiro vivi até os 15 anos. 

 

Primeira peça de teatro

E aí tem a guerra de permeio. Nasci em 1930, a guerra começou em 1939 e foi até 1945. Vivi, por um lado, como todos os seres humanos sob a influeência da guerra e, por outro, com o espiritismo. Este mundo fantástico de guerra e espiritismo doiraram a minha infância e a minha mãe querendo ser atriz ainda, mas  foi trabalhar no Centro Espírita do Zé Papo. Mamãe trabalhava em peças espiritualistas, doutrinárias e me levava. Eu vim trabalhar em Sacramento em 1943, numa peça. Estivemos em Franca  e de lá vimos pra cá com a peça, 'O Espírito obsessor'. Esta foi a minha primeira peça de teatro e meu primeiro sucesso”, recorda. 


“Papai me mandou prá São Paulo   

aos 15 anos, diz Lima. Acabou a guerra, papai me mandou pra São Paulo e lá fui trabalhar no rádio e, depois, na TV Tupi, onde trabalhei 25 anos, e na Globo estou há 42. O sonho de ser atriz de mamãe se consolidou em mim. A influência dela perpassa minha infância, eu me fiz ator, o psicológico do ator que sou nasceu aí nessa infância que lhes estou contando. Fiz muita peça espírita com mamãe, e descobri depois, de uma maneira meio confusa, anárquica, que mamãe era grande atriz, mas era uma vocação que só se  realizou dentro do espiritismo”.    

 

O primeiro trabalho 

na TV foi  em 1951  na extinta TV Tupi, na novela,  “Sua vida me pertence”,  escrita e dirigida por Walter Forster; novela que teve 25 capítulos e era exibida duas vezes por semana e  estreou na Globo em 1968, tendo como diretor da novela, Beto Rockfeller ao lado de Walter Avancini. Mas o grande salto de Lima Duarte na TV veio com o papel de Zeca Diabo, na novela, “O Bem Amado”, de Dias Gomes, exibida em 1973. A partir de então sua vida foi só sucesso em mais de 50 trabalhos globais, quer sejam minisséries ou novelas. Destaque-se também a atuação no teatro e mais de 30 filmes para o cinema. Tudo isso lhe rendeu inúmeros prêmios. A mais recente foi uma grande homenagem recebida da Unicamp em novembro do ano passado.

 

Lima Duarte hoje está... 

à disposição da Globo. “Vem aí uma novela pra eu participar, fico à disposição da Globo, mas nao fico parado. Fiz muita coisa nestes dois últimos anos. Fiz muitas palestras, dentre elas  na Universidade de Coimbra, sobre a relação Brasil-Portugal. Tive que fazer uma grande preparação para uma palestra dessas. Inauguramos a Fundação Augusto Boal, meu grande amigo e companheiro de trabalho. Fiz, realmente,  muitas coisas, mas a Globo chama estou pronto. Afinal, são 42 anos de serviços”, explica. 

 

Pendurar as chuteiras...

“Bem que gostaria, alías acho que preciso, afinal os 83 estão batendo na porta. Tenho mais o que fazer, quero montar um recital sobre a minha participação na Universidade de Coimbra, para inaugurar o V Festival de Teatro Ibero-Americano – Fest-Ibero, no Memorial da América Latina, em  São Paulo. Quero ver como me saio lá, ouvir os amigos, os grandes produtores. Enfim, quero ver se eu monto esse recital, chamado a 'Língua de Deus'. E Qual é a Língua de Deus? É a lingua do amor, da justiça, da paz, da compreensão.” 

 

E o filme Vila dos Confins...

que o diretor João Batista de Andrade, quer rodar no Desembo? Em entrevista ao ET, em julho de 2011, ele disse que o quer no papel do político e prefeito da cidade? - questionamos. Lima responde: “Vi essa noticia no jornal daqui, vi na internet, conheço o diretor, mas não há nada de concreto nesse aspecto. Mas já fiz filmes   na região, o mais recente foi aqui em Patrocínio, com Murilo Rosa. Em dois anos fiz dez filmes“. 

 

Lima acalenta um sonho...

Apesar de toda a fama nacional e internacional, Lima acalenta um sonho:  “Eu gostaria de fazer, se me for dada esse oportunidade, acalento este sonho,  de interpretar Allan Kardec. Acho que tenho o tipo dele. Em recente vista  a Paris, estive no Cemitério de Pére Lachaise, fiz várias fotografias no túmulo de Allan Kardec, junto ao seu busto e me emocionei, acho que posso fazer o papel dele num filme. Quem sabe, um dia eu possa fazê-lo, quem sabe até numa coprodução Brasil-França”, acalanta.

 

Amigos, Lima os tem lá e cá...

os da Tv e da vida profissional, e os das origens. E há vários anos ele não abre mão de dar um pulo a Sacramento. “Chega uma hora, a gente tem que dar uma parada, por isso há vários anos venho a Sacramento no Carnaval, aqui tenho grandes amigos. este ano fui convidado para participar da escola de samba São Clemente, no Rio de Janeiro, cujo tema é, “Horário Nobre”, que enfoca as grandes novelas da Globo. Mandariam até avião pra me buscar pra desfilar num carro como Sinhozinho Malta,   mas recusei, disse que tinha compromisso e tinha mesmo um compromisso inadiável, inarredável com Sacramento, com Heigorina, com Claret, Dr. Denizard, meus amigos do Desemboque. Nessa altura da minha vida, não me interessa mais nada, que prestar contas do  meu passado, cumprir o meu passado, pensar muito em meus pais e na minha vida aqui”, afirma. 

 

Emocionado...

Lima Duarte fala das grandes perdas da TV brasileira nos últimos meses, Hebe Camargo, Marcos Paulo, Walmor Chagas e outros. “À medida que os anos vão passando, a gente começa a perder amigos e temos que conviver com isto. Para mim, peal formação espírita, não perco, ganho. Ganho amigos para o além, para o paraíso. Sei que eles estão por aí a me orientar, a me guiar. No caso do Walmor, é  grave, porque ele suicidou-se, mas eu o entendo, porque o conhecia muito, muito. 

 

Trabalhamos muito juntos... 

durante um período crucial de nossas vidas, minha, dele e de Cacilda Becker, que era presidente do sindicato, no auge dos atores, no auge do período repressivo, dos militares no poder. Éramos  muito contestadores e no Teatro de Arena  lutávamos muito contra o poder instituído naquele momento. Fomos muito amigos. Depois  nos afastamos, porque a vida nos leva de um lado para outro e só mais recentemente passamos a ter contato e logo percebi que ele não estava bem. Ele se afastou de todo e de todos, estava muito amargo, perdendo a visão. E eu via, sentia que ele teria um fim desses. Pelo que conheci de Walmor, chegou uma hora que ele deve ter dito: 'Não quero mais esta vida', e deu um tiro na cabeça”. 

 

Uma amizade de 70 anos...

une Lima Duarte ao amigo Denizard, médico que reside em Ribeirão Preto, na metade da rota que Lima pega para vir a Sacramento.  Muito brincalhão e sorridente diz: “Lima e eu sempre que podemos vimos a Sacramento juntos. Não sei se o pessoal daqui valoriza, como Lima, o ambiente que nosso Eurípedes Barsanulfo deixou. Sacramento é um ambiente, uma cidade de uma energia muito grande, por isso vimos aqui. Isso aqui foi um nascedouro     da nossa doutrina. E vir a Sacramento com Lima é tudo de bom, conheço-o desde criança. Os pais dele tomavam conta do centro que meu pai ajudou a fundar e frequentávamos juntos as reuniões desde pequenos.  Ele fez  até uma festa para comemorarmos os 70 anos de amizade e não demora faremos a de oitenta”, diz entre risos.  

 

A nova geração e a TV...

Duas perguntas curtas e duas respostas igualmente curtas. A nova geração de atores, Lima diz não conhecer e não quer conhecer para não fazer julgamentos. “Não assisto TV, não vejo novelas, salvo se tiver amigos em cena, aí dou uma olhada pra ver como eles estão, porque  amigos a gente não julga.  Os tempos mudaram. São jovens tentam, lutam, uns mais outros menos.  Não os conheço e a última coisa quero na minha vida é julgar. 

 

Sobre a TV brasileira 

é categórico em dizer: “É a televisão que o povo quer. A televisão brasileira é compatível com o seu povo. Com a ascensão da classe C e badalação em cima das classes ascendentes. A televisão ficou um pouco vulgar em termos de concessões e mais concessões para o grande público... Tudo o que interessa para a TV brasileira é número e é assim na música e em vários outros gêneros, por isso quero fazer um recital sobre cultura, quero trabalhar 'Padre Vieira', 'Guimarães Rosa', 'Allan Kardec' e outros, mesmo sabendo que não vão chegar à TV.