Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

A história final do garoto da roça que construiu a Sak’s

Edição nº 1378 - 06 Setembro 2013

Aos 19 anos, desempregado, José Renato aceita o convite do amigo José Walter e parte para São Paulo. Os próximos dois anos serão decisivos para a construção de sua fábrica, valendo, principalmente, sua determinação. Tudo começou, diz ele, quando comprou duas bolsas para trazer de presente às irmãs, nas primeiras férias que passaria em Sacramento. A partir dali conhece o amigo Fu e...

 

ET - Então, você foi para São Paulo já com serviço acertado...

JR - Pra vocês verem como é a vida! Eu tinha um primo em São Paulo, Francisco Araújo, que morava no Glicério, no bairro da Liberdade, fui para lá. O José Walter trabalhava na agência Osvaldo Cruz, na Avenida Paulista. Lembro como se fosse hoje, vesti minha melhor roupa, botei um sapato marrom de bico fino, que havia ganhado do padrinho Gaspar e fui para o Bradesco.  Achei que estava abafando, mas quando cheguei, o Zé Walter me olhou e disse: “Você vai trabalhar aqui no banco com essa roupa caipira?” (risos). O pior não foi isso, assim que ele me atendeu, falou para eu pegar o ônibus Pompéia e ir para casa da Marli, sua irmã. Na época, o lugar que eu tinha ido mais distante era Uberaba, fiquei tão atrapalhado que quando entrei no ônibus, ao pagar o cobrador, fiquei de costas para o corredor - em São Paulo quem conhece sabe o tanto que os ônibus correm e freiam bruscamente – e nessa hora aconteceu essa freada, fui meio voando pelo corredor a fora e cai de costas próximo ao motorista. Aí sim que o dia acabou para mim! (risos)

 

ET - Comprou outras?

JR - Com que dinheiro? E eu não tinha outra. Fui de caipira, mesmo (risos). Quando recebi o primeiro salário é que comprei umas roupinhas. Ele não falou para me humilhar, afinal era um banco, mas eu era mesmo muito caipira. Só que ele falou aquilo meio que brincando, mas sério, entende? E, em seguida, perguntou onde eu queria trabalhar.  Falei que, por enquanto, estava na Liberdade e ele me arrumou na agência Liberdade. E assim foi.  Vejam só, se eu tivesse falado que trabalharia em qualquer lugar e se tivesse ido para outra agência, o rumo da minha vida teria sido outro, porque foi na Liberdade que conheci meu amigo, o vietnamita, Fu. E foi com ele que nasceu a ideia da fábrica. Hoje fico imaginando, parece que tudo estava escrito pra ser assim...

 

ET - Vamos deixar pra falar do FU mais à frente. Aí você começou no banco...

JR - Comecei, mas não foi fácil, não. Uns 20 dias depois que havia chegado fui assaltado, juntamente com minha prima, com arma e tudo. Naquele dia, tive vontade de vir embora a pé. Eu não tinha nada, só um talãozinho de cheques daqueles datilografados e um relógio vagabundo, de camelô. Os assaltantes eram do bairro e minha prima falou que a gente morava ali perto, acho que eles ficaram com dó, devolveram tudo e ainda pediram desculpas (risos). Mas isso, depois de eu quase ter sujado a roupa toda... O pior foi a gozação depois... No outro dia fui almoçar na casa da Marli, irmã do Zé Walter, quando cheguei lá, o Marco Antonio marido dela, foi contar o acontecido para os convidados: “Gente, um mineiro foi assaltado na Liberdade e quando nós chegamos lá, cadê o mineiro, já tinha sumido... Aí as pessoas que estavam no local disseram: Ele fugiu, mas é fácil encontra-lo, é só seguir essa risca amarela. (risos). Depois sai da casa do meu primo e fui morar com 2 nordestinos e fiquei, acho uns seis meses lá. 

 

 

ET - E foi para onde? Já podia pagar um aluguel?

JR - Que nada. Estava sem lugar para ficar, mas mais uma vez veio a ajuda. Eu estava no metrô na Liberdade e encontrei o Antonio Carlos, subgerente da agência, que sempre me chamava de Mineiro. Eu fazia umas aulas de violão e ele também, a gente ia a festas do Banco juntos, tocávamos, cantávamos... E havia uma certa amizade entre nós.  Eu estava parado no metrô e ele perguntou pra onde eu estava indo.  Nem eu sabia. Eu expliquei que estava sem lugar para passar a noite e ele me levou pra sua casa. Nisso, o contador do banco, Cláudio Porto, ia se casar e me convidou pra ficar no apartamento dele, no Cambuci, um tempo. Como não tinha cama, comprei um cobertor, tipo manta, e dormia no chão puro. Me embrulhava naquela manta e dormia. Aconteceu até uma situação muito engraçada: O Cláudio saía pra namorar e eu ficava sozinho em casa. Um dia ele saiu e eu deitei na cama dele. Sabe quando a gente deita e desmaia? E eu ferrei no sono. De madrugada, eu acordo e lá está ele no chão dormindo embrulhado na manta (risos).  Depois, fui morar com o Alex, filho do Muleta, em uma república, próximo à praça da República, onde ele trabalhava, até voltar para Sacramento. . 

 

ET - Aí a vida acertou de vez?

JR - Acho que o que foi muito importante na minha vida foi a minha determinação e o quanto eu pensava positivo e acreditava em Deus. Eu falava que ia fazer e fazia. Eu, com o segundo ano de Colegial, falando do meu jeito caipira, com três meses de banco, fui chamado numa reunião de gerentes como exemplo de vendas, que era a minha área. Ganhava todos os prêmios de venda, comissões, o que melhorava muito meu salário. Tanto é que, só tinha cheque especial quem era chefe de sessão, eu fui o único funcionário, na época que, com três meses de banco, ganhei o cheque especial como prêmio. Acredito que cada um tem que usar as ferramentas que tem, é como aquele velho ditado: “Não tem cachorro caça com gato”. Eu não sabia falar bem, mas era simpático com as pessoas. Não cruzei os braços e fiquei num canto. Todos nós temos alguma coisa boa, algum talento, e todos temos condições de aprender e fazer. 

 

ET - E o seu dia a dia em São Paulo, além do trabalho. Havia diversão, naquele celeiro de opções que é a capital paulista ou fazia um pé de meia?

JR – Não dava para fazer pé de meia, não... Nossas diversões, eu, o Alexandre Batista e o Alex, era freqüentar aqueles cinemas pornôs daquela região (risos), filar boia na casa do Zé Walter, da Marli e do Carlinho Batista nos finais de semana e, uma vez por mês, irmos ao restaurante 'Grupo Sérgio', uma churrascaria. Naquela época não tinha comida a quilo, era tudo a 'La carte' e muito cara. Com isso naquele dia deixávamos para almoçar bem tarde, e comíamos até quase estourar! (risos).

 

ET - De bancário à decisão de montar uma fábrica de sacolas. Como nasceu essa ideia. Fale como tudo veio se arranjando e crescendo até chegar à inauguração desse belo prédio da Sak's, em 2006?

JR - Na época, 1986, o Bradesco começou a enxugar o pessoal, demitindo funcionários, e eu fiquei preocupado, pensando: 'Vai sobrar pra mim'. Um dia, eu viria para Sacramento e passei na Praça da Sé pra comprar uma lembrancinha para minhas irmãs. Comprei duas bolsas. No apartamento, fiquei com elas nas mãos, olhando, analisando e pensei: 'Isso vende, tem mercado'. Fiquei com aquilo na cabeça e pensei: 'Preciso descobrir alguém que fabrica bolsas'. Como trabalhava no banco, pensei: 'Vou ver se algum cliente do banco fabrica bolsa'.  Comecei a folhear o cadastro de clientes, até que encontrei, 'Indústria de Bolsas Saigon', que era a fabrica do Fu. Nossa amizade é grande até hoje, mas começou por interesse da minha parte. Eu comecei a tratá-lo diferente. Ele chegava ao banco, eu já estava com as coisas dele nas mãos, se ele tinha algum problema, eu sempre dava um jeitinho.

 

ET - Como, você não era um simples funcionário?

JR – Sim, mas quando ele precisava de alguma coisa, como talão de cheques, por exemplo, eu misturava no meio de outros documentos e dava para o gerente assinar (risos) e sempre deu certo. É claro que nunca causei nenhum prejuízo ao banco. E por conta dessa amizade, ele começou a me convidar para as festas deles... E digo, até pouco tempo atrás, eu conhecia todos vietnamitas do Brasil. Como já éramos amigos,  aí perguntei se ele me ensinava como montar uma fábrica e ele se prontificou. Um dia, o Alexandre Batista, filho do Edmar e eu, saímos a pé da praça da República até o Cambuci, para conhecer a fábrica de um Vietnamita, amigo do Fu. Era uma fábrica familiar, coisa pequena, com cinco máquinas.  Aí, eu perguntei quanto gastaria pra uma fábrica daquele jeito. O valor, se fosse hoje, seria uns dez mil reais. Pensei: 'Não tem jeito'. Na volta, a pé do Cambuci à praça da República, o Alexandre voltou zoando, tirando sarro: “Vai Zé! Monta fábrica, Zé!!” (risos).  


ET – E desistiu da ideia?

JR – Não. Aguentei a gozação toda, mas fiquei com aquilo na cabeça. Nesse meio tempo, vim a Sacramento e chamei as meninas do Carlito, a Lucimeire e a Luciene pra montarmos uma fábrica. Expliquei como era e fizemos uns testes com alguns materiais e nós descobrimos que aquelas máquinas de costura antigas, de pedal, costuravam coisas pesadas, porque eram de ferro.  Eu saí em férias e vim decidido a testar com essas máquinas. Foi aí que começamos. Quando vi que as bolsas deram certo, pedi contas do banco e vim embora. O Fu fornecia o material e, como não tínhamos máquinas, levávamos o serviço para as costureiras da cidade. As meninas e o Jackson cortavam e as mulheres costuravam em casa e eu viajava comprando matéria prima e vendendo a produção. 

 

ET - E assim nasceu sua primeira empresa, a Emil, tendo como sócios dois irmãos e duas irmãs. Como foi o início?

JR - Aí, fiz um mostruário e saí vendendo na região, fazia os pedidos e ia entregar. Depois passei a ir mais longe, Belo Horizonte, Goiânia e outras cidades. Mas, pensa numa coisa difícil, bater numa porta pra vender um produto desconhecido. E a entrega, então! Eu viajava e muitas vezes só comia praticamente um salgado e só. Eu tinha o dinheiro da passagem, não tinha dinheiro pra comer direito. Mas alguma coisa vendia. As entregas eram uma dificuldade, fazíamos uns malotões e eu levava tudo de ônibus. Em Belo Horizonte, eu alugava uma carrocinha de transportar bagagem, e o cara ia à frente puxando e eu atrás empurrando até entregar tudo. Não foi fácil, não. E um dia que essa carroça quebrou bem no centro de BH? Foi muito engraçado! (risos). 

 

ET - Era fazer a entrega e retornar o mais rápido possível?

JR - Sim, mas graças a Deus, vencemos. E havia umas coisas boas e até engraçadas, como uma vez, em Uberaba, na casa do Seu Lauce, sogro do Carlinhos Batista. Ele me chamava de 'Vaqueiro que não mente', porque no dia do noivado do Carlinho, quando ele perguntou ao Edmar quantos litros de leite ele tirava, ele chutou lá em cima. Aí ele me perguntou e eu falei a verdade. Um dia, nos encontramos na praça Rui Barbosa e ele me convidou pra almoçar na casa dele. Eu era muito acanhado, mas fui. A filha dele, a Cida sentou-se à mesa e eu estava com tanta vergonha dela, que nem me servia. No que ela levantou pra atender o telefone, eu aproveitei para me servir. Mas estava tão apavorado que me servi do prato dela (risos).  Quando o Seu Lauce viu, falou: “Essa aí é a comida da Cida”. Aí, sim, quase caí, nem comi direito de tanta vergonha. A fome desapareceu (mais risos).

 

ET – E a Sak's?

ET - Um ano e meio depois, o Jackson e eu abrimos a Sak´s. As meninas já não estavam mais na sociedade, mais precisamente, em agosto de 1988. A gente precisava de um carro para entregas e o primeiro veículo que adquirimos foi a Toyota, naquele mesmo ano, que comprei em Natal (RN). Ela é uma relíquia da empresa, dou mais valor nela que qualquer outro carro. Ela tem a mesma idade da fábrica, rodamos nela mais de 1 milhão de Km sem fundir o motor, não é qualquer um que dirige ela. Uma época, papai viajava comigo pra fazer entregas, mas o dinheiro era meio curto, aí pensei: 'Vou cobrar frete das entregas'. E assim foi. O pessoal chiava, reclamava, mas pagava: “A gente compra as bolsas e ainda tem que pagar frete, isso não é possível. Vou pagar, porque você é o entregador e não tem culpa” (risos). E com esse dinheiro do frete, hoje, seria uns R$ 700,00, aí sim, comemos e bebemos do bom e do melhor durante a viagem.

 

ET – Como você disse, foi um tempo de muito esforço, trabalho, dedicação e muitas dificuldades... E as crises? A pior delas foi a do Plano Collor, com o calote do sequestro das poupanças?

JR – Não. Não tinha dinheiro pra ficar retido, não (risos). Não sobrava nada.  Eu digo que sou como aqueles personagens de filmes de luta. O cara está nocauteado, a gente pensa: morreu! E, de repente, ele levanta dá uma respirada e vence a luta.  Eu já passei por muita coisa. Já perdi tudo, mas recomecei novamente. Mas a pior crise foi a primeira, a de 1995/1996, quando liberaram os importados e entrou a enxurrada de produtos da China no Brasil. Uma bolsa que eu vendia pras lojas por R$ 10,00, chegava ao Brasil  por R$ 3,00.  Era uma coisa absurda e, não só eu, mas muita gente. Ficamos totalmente fora do mercado. Acabou com a fábrica. Mas aí surgiu a ideia dos promocionais. E a primeira empresa a fazer esse novo serviço conosco, foi a Antenas Santa Rita.

 

ET - Das crises para o custo empresarial, a carga tributária altíssima do país. O que fazer para suplantar esse enorme peso, enquanto a reforma não é aprovada pelo Congresso. Vale até sonegar?

JR – Não, nem há como, porque trabalhamos só com grandes empresas. Mas quem tem oportunidade, praticamente, é obrigado... Eu nunca entendi essas coisas, não entendo de política, mas há coisas no Brasil que são feitas para dar errado. Por que não acreditamos muito no Brasil? Primeiro, foi o caso dos 'kits de primeiros socorros', em 1998. Na época, ganhei tanto dinheiro como nunca havia ganhado. As empresas da região faziam fila e às vezes não tínhamos para entregar. Só que, de uma hora para outra, acabou a história dos 'kits' e ficamos na mão com a mercadoria encalhada. O que ganhamos em dois meses, perdemos de um dia para o outro.  Depois foi o caso das 'sacolas ecológicas'. Começou aquele auê todo, a gente tinha a maior expectativa, mas novamente não foi adiante. Não tem incentivo nenhum para que chegue a um custo baixo ao consumidor, às vezes, a pessoa custa a ter o dinheiro para comprar o básico, como vai ter para comprar a sacola? Já começa errado! 

 

ET - São as contradições da política brasileira... Qual a sua sugestão?

JR – São muitas bandalheiras, muita bagunça, todo mundo faz como quer e não tem punição alguma, política deveria ser uma profissão e não exercida como na maioria das vezes, como um favor a sociedade. Quantas vezes a gente ouve político dizer: “Eu fiz... Fez o quê? Foi com dinheiro dele? Quem fez foi quem pagou, que seja centavos, mas que muitas vezes tirou da boca do filho para pagar o imposto que vai para as mãos de políticos...


ET - Com jornada de trabalho e tudo?

JR - Claro. Político teria que cumprir horário integral e ganhar bem, mas não poderia roubar. Vereador, prefeito, governador, presidente poderiam ganhar muito mais, mas não poderiam roubar, levar vantagens. Há muita coisa incoerente no Brasil. Quanto ganha um técnico de futebol? Não pretendo ser, mas se fosse político, uma coisa que eu não faria, seria coligações. Se eleito fosse, não teria rabo preso com ninguém e aí colocaria uma equipe de funcionários capazes, gente para trabalhar, como numa empresa. Da forma como fazem, as coligações, os governantes ficam impossibilitados de ter decisões próprias. Mas, vamos deixar pra lá esse negócio de política...

 

ET - A Sak's é exemplo de empresa que investe no social e no meio ambiente, através de vários projetos. O que o levou a implementar esse diferencial na empresa?

JR - Eu fui muito ajudado, já tive quem me ajudasse quando eu mais precisava. É uma forma de retribuir um pouco do que recebi. Não é que eu seja 'o bonzinho' da história. Mas trouxe isso de berço. Mamãe acolhia maleiros, que hoje a gente chama de andarilhos, sempre que batiam à nossa porta. Uma vez, num dia muito frio, mamãe tirou o Jackson e eu da nossa cama, levou para o quarto dela, e deu a nossa cama para dois andarilhos dormir, que nunca tinha visto. Ela não pensou que poderiam ter uma doença, que poderiam não ser boa gente. Ela não olhou nada disso. Quando meu pai levantou, às cinco horas da manhã pra tirar leite, eles estavam lá de fora, fizeram uma fogueira e estavam esquentando fogo. Não tinham costume de dormir em camas.  Mamãe sempre foi uma pessoa caridosa. Sempre repartia o pouco que tínhamos com quem precisasse. Aprendi isso com ela e não faço isso para aparecer, para me vangloriar. É uma forma de retribuir um pouco do que recebi. Se não fossem as pessoas terem me ajudado, talvez eu não estivesse aqui hoje.

 

ET – Hoje, a Sak´s atua com vários projetos, pretende lançar mais algum?

JR - Uma coisa que tenho vontade de fazer e ainda não fiz, porque a burocracia me desanimou, é algum projeto para cuidar de idosos. Todo mundo cuida de criança, mas de idosos, você não vê?  Cheguei até a arrumar um local, mas não deu certo. Mas, isso não está descartado, um dia ainda vou fazer. Mas, enquanto isso, vamos continuar o trabalho que fazemos com os internos do Lar São Vicente. Sempre organizado e executado pelos meninos Heróis do Futuro. A meu ver, idoso não pode ser, por exemplo, como animais, quando ficam velhos a gente descarta. Idoso é gente que precisa de proteção. 

 

ET - O que, em sua opinião, o governo municipal poderia fazer pelas pequenas e médias empresas da cidade?

JR - Lá vamos nós falar de política novamente (risos). Mas eu respondo. Briguei com todos os prefeitos anteriores, nesses anos todos, porque todos, até hoje, prometeram e não cumpriram. Do atual prefeito, ainda no início de seu governo, não posso falar, vamos ver se vai cumprir.  Prometem reformas, ampliações, mão de obra, mas ficam só nas promessas. É tudo muito enrolado. A prefeitura deveria investir mais em qualificação de mão de obra, deveria ter atenção com as empresas, ter alguém para pelo menos fazer, uma visita. Muitas vezes eles nem sabem o que as empresas produzem. Já aconteceu de terminar um mandato e a gente não saber quem está à frente da Secretaria de Indústria e Comércio. São secretários que nunca visitam as empresas, pelo menos a minha, isso sempre foi assim.

 

ET - Como vocês fazem para contratar novos funcionários?

JR - Nós formamos a nossa mão de obra, foi a solução que encontramos. Temos a escolinha, que funcionava lá no Sine, deixando claro que é uma parceria onde a Prefeitura cede apenas o espaço, instrutores e tudo o mais fica por nossa conta. O aproveitamento da Escolinha para emprego na Sak's, por exemplo, é 100%. Todo o pessoal é treinado por nós e contratado pela empresa. O que percebo, é que não valorizam as empresas que estão na cidade.  Para eles, o importante é divulgar: “Fulano vai trazer a empresa tal para a cidade”. O negócio deles é trazer, mas trazer como, se a cidade não tem mão de obra formada?  Na minha opinião, antes de trazer empresas é preciso valorizar as que estão na cidade e, também, formar mão de obra. Sem essas condições isso não vai mudar nunca. Isso sempre foi assim, olha meu depoimento no ET de 05/10/1986, quando estávamos começando: “- Na estafante tarefa de cumprir toda a burocrática imposição da Lei, Renato e Lucimary foram também reivindicar à Prefeitura, os favores dos incentivos fiscais. No ofício endereçado ao prefeito Luiz Magnabosco, informaram que a pequena empresa absorvia uma mão de obra de quatro funcionários e algumas costureiras, com capacidade de produção de mil peças por mês e que gostariam de conhecer  o que a Prefeitura poderia propiciar-lhes em termos de incentivos”. 

 

ET – A reportagem prossegue narrando o desabafo do jovem empresário diante da falta de apoio:  

JR - “É a velha história, santo da terra não faz milagre. Parece que não acreditaram na gente. Soube depois que o Sr. Walter Fonseca esteve lá em Franca, visitando as instalações de uma indústria que também pretende se instalar em Sacramento e que solicita os mesmos incentivos. Nós já estamos funcionando há mais de um mês e até agora não recebemos visita nenhuma. Na época, eu me lembro, perguntaram se precisávamos de terreno. Na fase em que estamos, só se for para vender – desabafou”.

 

ET - E agora, 2013, completando 25 anos de empresa. Quando questionado sobre como alcançou este sucesso, você sempre demonstra sua gratidão a Deus, aos seus funcionários... Mas há alguém especial com quem dividiria essa vitória?

JR - É uma pergunta difícil de responder, porque houve, na verdade, a colaboração de todo mundo, há muita gente envolvida. Cada um com a sua parcela ajudou e ajuda a Sak´s a crescer. Tenho hoje, por exemplo, alguns funcionários em vários setores, que são pessoas da minha total confiança, o braço direito, como costumamos dizer. É muita gente e fica difícil citar nomes, porque todos têm a sua parcela de contribuição, todos são importantes. Obrigado a todos!! 

 

ET - Dizem que a arte de vencer aprende-se com as derrotas. Alguma coisa se fosse pra recomeçar, faria diferente?

JR – Sim. Muitas coisas, como aprendi muito com os erros e se fosse para recomeçar hoje, muita coisa eu faria diferente, mas não me arrependo. A vida é assim, erramos e aprendemos todos os dias. 


ET. Que futuro você vê para a Sak´s nos próximos 25 anos?

JR – Que a empresa seja útil à sociedade não por mais 25 anos, mas por muito mais!!!

 

ET - Voltando as suas origens, você tem também propriedades rurais, como esta, onde estamos conversando. Isso é hobby, lazer ou você quer se diversificar? 

JR - No começo era hobby, mas se você não trabalhar como uma empresa, ela começa a levar seu dinheiro. Hoje, estou reestruturando e, além de já trabalhar na produção de leite e café, estamos montando um haras para criar cavalos manga-larga marchador. O objetivo é que as propriedades se tornem auto-sustentáveis. Da mesma forma que trabalhamos na Sak´s, temos que trabalhar aqui. Não dá pra tirar de um lugar pra investir noutro, aliás, pode até investir, desde que haja retorno.  E, também, pelo fato de eu me identificar muito, por conta de minha origem, com o meio rural, não deixa de ser um hobby também! Gosto de vir, andar a cavalo, acompanhar de perto as tarefas, o desenvolvimento dos animais. Isso é saudável, faz parte da minha vida. 

 

ET – Antes de encerrar, vamos voltar à 7° série e a história do colega que afirmou que você seria faxineiro dele. Pode terminar aquela história?

JR – Ah, claro. Acho que, em 2005, quando estávamos em obra para a construção do atual prédio da Sak's, já em estado bem adiantado, fui fazer uma visita de rotina à obra, que tinha como encarregado o Pedrão pedreiro. Ao chegar, esse ex-colega de escola, lá estava trabalhando de servente de pedreiro. Cumprimentei todos, ele também, claro, e fui embora. Um dia o Pedrão me procurou e disse: '- Zé Renato, o J. me procurou e pediu para ver com você, se terminando a obra tinha como arrumar um emprego para ele, na fábrica, cuidar do jardim, qualquer serviço?..' Assim que terminou de fazer o pedido para o Pedrão, ele mesmo disse: 'Nossa, Pedrão, e eu que falei pro “home”, quando a gente estudava junto, que ele ia ser meu faxineiro!!' Mas quando aconteceu essa história na 7° série, eu nem levei a mal, inclusive nem lembrava mais desse assunto. Só lembrei quando o Pedrão me falou. Acabou que terminamos a obra, ele seguiu outros rumos, e acabou nem trabalhando na Sak's.


ET - Sucesso pra vocês e obrigado. Vamos ver se faremos outra entrevista daqui a 25 anos.

JR - Sim, claro! Nos 50 anos! (risos)