Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

No salão, Lize de Block, apresentando à cidade, a ‘Dança de Roda’

Edição n° 1217 - 06 Agosto 2010

ET – A gente sempre começa conhecendo nosso entrevistado. Então, quem é Lize, onde nasceu, estudou, sua formação...

Lize – Sou de Holambra. Uma pequenina cidade no interior de São Paulo, perto de 

Campinas. Só fiquei fora quando fiz faculdade e quando fui visitar a terra natal de meus pais, que são holandeses. Fiz Fisioterapia, com formação superior pela Faculdade de  Piracicaba.  Até o ano passado ainda trabalhava, principalmente nas áreas da terapia manual, RPG e GDS (cadeias musculares). E foi justamente por ser uma fisioterapeuta, conhecendo o corpo e o movimento, que percebi o quanto  a dança é outra ferramenta  terapêutica . Sou casada com o holandês Patrick de Block, agrônomo da Terra Viva, que trabalha com batatas, no município. 

 

ET – E Sacramento, como entrou na história de vida da família 'de Block'? 

Lize - Meu marido havia sido transferido para  esta região fazia aproximadamente dois anos e como ele estava gostando muito, decidimos unir a família. Conheci algumas cidades, mas gostei mais de Sacramento  pois é uma cidade gentil, acolhedora   em sua forma social, muitas  comunidades,  trabalho voluntário,  que aprecio muito. E aqui cheguei no início deste ano, com nossos dois filhos adolescentes, para unirmos de novo a família.

 

ET – Vamos então falar de uma especialidade da Lize. A dança. Como foi seu primeiro contato com a dança?

Lize -  Conheci o  Ballet clássico quando era ainda criança, sabe aquela criança gordinha, no mundo da lua, no fundo da sala?? Era eu na aula de ballet!! Mas reconheço que, sem perceber, as aulas de ballet  me deram uma estrutura corporal. Fiz Jazz, alguns anos... Dança folclórica Holandesa por uns 5 anos.  Onde me encantei. Era adolescente, na época e todos meus amigos iam dançar. Era um esporte, sem perdedores.  Todos podiam e deveriam dançar com todos. Era divertido!  Somente mais tarde, percebi que aquela sensação de pertencer ao grupo, de dar as mãos, dançar juntos, de estar em roda era uma conquista maravilhosa.

 

ET – Estamos sabendo que você tem um projeto de introduzir em Sacramento a 'Dança Circular'. O que é esta dança, é a mesma 'Dança de Roda'?

Lize -  Sim, é a dança feita em roda. Este movimento está sendo despertado em várias partes do planeta. Pessoalmente entrei em contato com pessoas que trouxeram esta forma de dança de Findhorn, na Escócia, uma ecovila  que já existe faz aproximadamente 

50 anos.  Em 1976, 

convidaram  Bernard 

Wosien, um bailarino 

clássico, que conhecia 

muito de danças 

folclóricas para 

conhecer Fidhorn. 

Chegando, ele percebeu 

que ali era um local fértil para trazer as pessoas para a roda, com todos os seus simbolismos, movimentá-las de maneira consciente, trazendo a cultura dos povos, alegria,  uma meditação ativa, entre outros. Ele  também criou alguns passos para uma dança circular mais atual.

 

ET – A Dança Circular está, então, muito ligada ao folclore, aos usos e costumes dos povos, à sua cultura?

Lize - Sim, a Dança Circular é uma Dança Folclórica. Mas dança circular inclui muito mais tipos de danças que além de danças folclóricas. A partir do momento que temos a sensação que fazemos parte de algo... que transcendemos, que percebemos que nos conectamos com nós mesmos e com o outro, com uma cultura, com uma ancestralidade, com uma intenção, com amorosidade, com consciência. Não me refiro à dança de roda que prioriza a excelência, a estética, que individualiza.

 

ET – Como você encontrou as danças circulares?

Lize - Meu pai é professor de danças folclóricas holandesas, em Holambra. E foi convidado 

para o  EBDCS (Encontro brasileiros de danças circulares sagradas), em Embu (SP). 

Voltou encantado com o que viu e dançou! Dois anos mais tarde, fui também ao encontro e fiquei 'viciada' (risos).

 

ET - O que é o Encontro Brasileiro?

Lize - Já acontece há nove anos. São 'focalizadores', isto é, pessoas que focalizam, ensinam, dão atenção aos aspectos de relevância nas rodas de danças, e simpatizantes de quase todo o Brasil que trocam experiências e dançam durante cinco dias, no feriado de Corpus Christi. Foi lá que reencontrei aquela forma de dançar em roda, com todas as idades, dando as mãos. São danças de muitas culturas, gregas, russas, indianas, americanas, indígenas e claro, as brasileiras, que são lindas  e deliciosas de dançar. Entre muitas outras. Danças da colheita, danças de casamentos de vários países, danças modernas, danças com simbolismos. Não me sentia insegura com o erro, se não conhecia as danças. A maioria das danças é sem par. 

 

ET - Quais os benefícios das danças circulares?

Lize – Inicialmente, uma atividade física, de baixo impacto, que trabalha  quase  toda a musculatura, a coordenação motora, a consciência corporal  e de grupo. Além da socialização, alegria, concentração, dentre outros benefícios que as pessoas que participam podem perceber.

 

ET – No início de nossa entrevista, você disse que 'percebeu a dança como uma outra ferramenta terapêutica'. A dança pode curar?

Lize - Sim, na minha opinião, existem muitas  atividades corporais que atuam na cura e ou na manutenção de um corpo são. Corpo são, mente sã!  A  caminhada, a yoga, o esporte, hidroginástica, cavalo.  São escolhas, necessidades, prescrições para cada pessoa. Mas gosto tanto de dançar, me fez tão bem, conheço tantos benefícios que às vezes não consigo imaginar que alguém não goste de dançar.  Imagino que o mundo inteiro deveria dançar! (risos)

 

ET – Agradecemos pela entrevista.

Lize – Agradeço eu pela oportunidade. E gostaria de terminar, se me permitirem, com a oração de Santo Agostinho,

'Eu Louvo a Dança:

"Louvada seja a dança porque 

ela liberta o homem do peso das coisas materiais

e une os solitários para formar sociedade.

Louvada seja a dança

que tudo exige e fortalece a saúde, uma mente serena

e uma alma encantada.

A dança significa transformar o espaço, o tempo, e o homem,

que sempre corre perigo de se perder- ser ou somente cérebro,

ou só vontade ou só sentimento.

A dança porém exige o ser humano inteiro,

ancorado no seu centro, e que não conhece a vontade

de dominar gente e coisas, e que não sente a obsessão

de estar perdido no seu próprio ego.

A dança exige o homem livre e aberto, vibrando na harmonia de todas as forças.

Ó homem, ó mulher, aprenda a dançar senão os anjos do céu

não saberão o que fazer contigo."

Santo Agostinho (354-430)