Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1751 - 30 de Outubro de 2020

Família dos Mansos realiza encontro no Ano Novo há 27 anos

Edição nº 1448 - 16 Janeiro 2015

A Família Rezende, mais conhecida como Família dos Mansos, por conta da peculiar calma ao falar, realizou, no último dia 31, o 27º Encontro da família, uma tradição que começou com os pais, Alcides Alves de Rezende e Maria de Paula de Rezende, ambos falecidos em 2000 e 2002, respectivamente.

O encontro nasceu quando os filhos começaram a se mudar da fazenda. “Papai encontrou essa forma para reunir a família toda, pelo menos uma fez por ano”, explica a filha, Ana Maria, lembrando que não era muito fácil. “Às vezes, ainda faltava algum”, diz. E não é por menos, são 17 filhos, todos nascidos no município de Tapira: José Francisco (Ronilda), Maria Abadia (Donizete), as gêmeas Maria Auxiliadora (Ivaldo) Maria Aparecida (Ronaldo), Maria Conceição (José Luiz), João (Ivone, de saudosa memória), Adelino (Vânia), Maria da Glória, Maria do Carmo, Gulhermina Maria (Luiz Alberto), Georgina Maria (Nilson), os gêmeos Vicente de Paulo (Ercimônia), Ana Maria (Áureo), Anita Maria (Walter), Alcides Jr. (Andreia), Rogério (Lidiane) e Sérgio (Beatriz).

E a família dos Mansos vem aumentando. Os 17 irmãos têm 46 filhos, que já renderam 21 netos.  Ou seja, reunindo os 17 filhos de Alcides e Maria de Paula, mais os genros, noras, seus filhos e netos, somam mais de 100 pessoas, todos na fazenda, que se transformou numa área de camping. Para abrigar todos, barracas são montadas no quintal, para  o encontro que só terminou mesmo no domingo, dia 4.  Destaque-se que o nome Maria em todas as filhas, deve-se à devoção dos pais a Nossa Senhora.

De acordo com Ana Maria, os 17 filhos residem hoje em Araxá, Uberaba e Sacramento. A fazenda que já passou por inventário, pertence hoje a sete irmãos, que têm como principal atividade a pecuária leiteira. O ET esteve na fazenda na manhã do dia 1º de janeiro e encontrou a animada turma para um bate-papo. Veja um pouco de sua história.

 

A casa ainda é de todos

 “Cada um tinha sua parte, mas como nem todos se interessam por fazenda, as terras foram vendidas na família e os irmãos continuam com as atividades, mas a casa é aberta a todos, que têm a obrigação de se reunir aqui pelo menos na virada do ano. Esperamos que esse vínculo nunca seja perdido. Isso começou com papai e mamãe, que faziam questão de ter todos os filhos reunidos na fazenda. E era emocionante! Nós rezávamos, agradecíamos pelo ano que passou, pedíamos bênçãos para o ano que começava, papai soltava foguetes e aí a festa começava. Era muito lindo. Eles se foram, mas nós continuamos a tradição de nos reunirmos nesse dia. O Natal, cada um passa onde quer, mas o Ano Novo é aqui”, afirma, emocionada Ana Maria, ao lembrar dos pais. 

 

Valorização da família

“Cada encontro é esperado com ansiedade por todos e nossa intenção é manter a união, os laços de afetividade, a valorização da família,  passando para nossos filhos e netos a importância desses laços, mostrando que a família é a base da sociedade organizada e que se conseguirmos nos amar, nos respeitar, ajudar um ao outro,  vamos conseguir colaborar com o progresso da sociedade”,  diz Ana Maria, explicando como organiza tudo, completada por um dos cunhados, Áureo, que ouvia a prosa: “Aqui, verdadeiramente, a família continua sendo a célula máter da sociedade”.

“- Já no mês de outubro já começamos a nos organizar, combinar o que  faremos. E aí começam os preparativos.  Na véspera, alguns chegam antes e já vão dando andamento, e  cada um que chega vai ajudando: um prepara a oração, outro a confraternização, os fogos, a ceia. Antes da meia noite, nos reunimos em torno da mesa e rezamos. Este ano, fizemos um coração representando o amor de Deus e nos propusemos a começar uma sementeira nova. Pedimos pelos nossos pais, agradecendo por tudo que nos ensinaram e  rezamos por todos nós, irmãos, cunhados, sobrinhos.  

Todos ficamos muito  emocionados, adultos,  jovens e  crianças. Depois da oração, fazemos o foguetório e aí trocamos abraços, beijos,  risos, lágrimas. É quase uma hora de abraço, até passar por todos (risos). Depois é só festa, com muita  música para todas as idades. Criamos os espaços para os jovens, as crianças, os adultos, cada um se respeitando. Quem bebe, bebe; quem não bebe, respeita. Nesses dias, conversamos muito,  damos boas risadas, matamos a saudade... Durante  o dia, fazemos jogos, futebol casados contra solteiros; queimada para as mulheres e a criançada e,  um bom churrasco com acompanhamento à vontade”, relata a simpática Ana Maria, justificando algumas ausências. 

“- Infelizmente, nem tudo acontece como queremos,  às vezes, algum imprevisto atrapalha  a vinda de alguém. Este ano, as gêmeas Maria Auxiliadora e Maria Aparecida e Guilhermina Maria não puderam vir por problemas de doença, mas tiveram de nós todos as orações. A fé é a  força para nos ajudar a vencer todos os males, mas como  a festa vai até domingo, elas ainda devem vir”. 

 

Um bom caldo na ressaca

E para agüentar o pique da festança que seguiu até o domingo, nada melhor que um bom caldo pela manhã, que foi o que o ET testemunhou por volta das 11h da manhã do dia 1º. Surgiam filhos de todos os lados, o pessoal se levantando e rebatendo  os efeitos da noite anterior com um caldo de  galinha caipira...  Enquanto isso, o fogo na churrasqueira já começava a arder.   Mas, justiça seja feita,   nem todos se levantaram às 11h. Nessa hora Vicente, José, Rogério e João já findavam a ordenha e despachavam o caminhão tanque de leite. “Dia sim, dia não, o caminhão pega o leite e hoje era dia, mas a ordenha tem de ser feita diariamente, com festa ou sem festa, duas vezes”, revelam. 

 

Campanha da formiguinha

Na despedida, seguindo também a tradição dos pais, ninguém sai de mãos vazias, carregados de doce, mas, principalmente, de amor. “Todos ajudam na preparação da festa, sempre com boa fartura e, na hora de regressarmos, toda a sobra é dividida. Ninguém sai sem levar um pote de doce de leite e  já pensando no próximo encontro. O importante disso é o que aprendemos e herdamos de nosso pais. Eles se amavam e nos amaram muito;  nos ensinaram a amar uns aos outros e, através dessa força, nos ensinaram a superar as dificuldades que a gente enfrenta no dia a dia, na profissão, no convívio familiar. E, quando falo do amor, não estou falando da nossa concepção, mas do amor que representa a síntese das leis divinas, das leis da vida  que o papai e a mamãe nos ensinaram convivendo, dando o exemplo do respeito, da responsabilidade,  da ajuda, da alegria, porque eles eram muito alegres e é isso que nos dá força a cada ano. Contamos  os dias para a chegada do Ano Novo”. 

 

O porquê do apelido Manso

Um momento de riso para todos, foi a pergunta do ET: “Por que o apelido de Manso?” “E precisa perguntar?”, responderam, com boas risadas. E José, o primogênito da família, com toda a calma o mundo explicou: “Pra falar a verdade, não sei porque esse apelido, porque não somos muito mansos, não. Cutuca pra ver!!. (risos). Os de fora nos apelidaram de Mansos, acho que é pelo modo da fala... O apelido chegou quando nos mudamos para Sacramento. Mas na  família tem gente que fala mais manso ainda...”, afirma e uma sobrinha completa: “E tem outra coisa, o normal de tirar leite é de madrugada. Aqui não, aqui começam às nove horas, aí em vez de tirarem o leite da manhã e da tarde, aqui é da tarde e da noite...”, disse, arrancando boas gargalhadas de todos e Rogério completa: “Eu digo que o  Fala Mansa copiou esse nome foi da nossa família...”.

 

A opção da família por Sacramento há 40 anos

A Familia dos Mansos, curiosamente não é sacramentana. Todos nasceram na vizinha cidade de Tapira, onde os pais, Alcides Resende e  Maria de Paula eram  fazendeiros até se  mudarem para Sacramento, em 1975, após terem a fazenda desapropriada para a antiga empresa Valep, hoje,  Complexo de Mineração da Vale Fertilizante. Com o dinheiro da venda, na época Cr$ 1,3 milhões (cruzeiros), Alcides comprou as terras da família no município de Sacramento, conforme relata o filho José. 

“A pesquisa do solo na região da Tapira, para iniciarem a extração do minério, levou uns três anos, mas em 1975 estourou. Aliás, não foi bem uma desapropriação, foi uma compra, um dinheirão na época e aí papai saiu pra procurar terras para comprar. O Sérgio era bebê, quando mudamos pra cá, e eu tinha 25 anos. Papai comprou estas terras do Orígenes Martins Borges, filho do Eleosipo Borges  - conhecido como Leosipe Coelho - por Cr 1,1 milhão (cruzeiro), no dinheiro”, explica. 

De acordo com José, na fazenda, a família cuidava de tudo um pouco, café, lavoura branca (cereais) e gado. Com o falecimento dos pais, veio a  partilha que foi muito tranqüila. “Não houve problema. Ninguém endoidou pra receber seu quinhão, foi , tudo na hora certa. Quem vendeu,  empregou o dinheiro  e as vendas foram dentro da família, sem atropelamento e acabou ficando tudo num bloco só”, explica.

 Os irmãos proprietários da fazenda ainda mantêm a unidade familiar, isto é, tiram o leite no antigo curral de pedras  e o tanque de resfriamento do leite é para todos. Ana Maria explica que antes a família possuía casa em Araxá, para os filhos estudarem. Com a mudança para Sacramento, mudou também o local dos estudos.   “Papai pensava em tudo. Eles sempre moravam na fazenda e nós os filhos saíamos para estudar. Quando mudamos pra cá, papai vendeu a casa em Araxá e comprou aqui na cidade.  Os filhos mais novos estudamos em Sacramento. E o   interessante é que  sempre os mais velhos cuidavam dos mais novos na cidade...”. 


Folias de Reis, outra herança dos pais

Há quatro anos, a família realiza uma festa em louvor aos Santos Reis, herança do pai que foi cantador de folia com parentes e membros da família Carvalho, parentes do Dr. Juca, todos residentes em Tapira. Depois, Alcides continuou folião em Sacramento, até ficar doente. Ele faleceu devendo um voto, a realização de uma Festa de Reis na fazenda. Nós cumprimos o seu voto há quatro anos e não paramos mais. Anualmente, no mês de agosto, realizamos a Festa de Reis dos Mansos, até quando dermos conta.

 Nenhum dos filhos herdou o dom de tocador e cantor do velho pai, mas para também perpetuar essa tradição, um neto canta e toca muito bem, acompanhando a Folia de S. Sebastião, na Tapira. “Uma folia quase centenária”, explica José, com os netos apresentando uma foto dos foliões quando Alcides ainda era jovem: Antonio Ribeiro de Carvalho (sobrinho do Dr. Juca), José de Paula (tio), Onofre Resende (primo), Francisco Carvalho, Alcides Alves Rezende (pai), Alvercino Alves de Rezende (tio), Francisco Rezende, o caixeiro Edson Carvalho, o sanfoneiro Armando Carvalho, Sebastião Carvalho e Olavo Carvalho (alferes com a bandeira). “Eles eram todos  compadres do papai e da mamãe”, revela José. 

Outra relíquia da família é um livro de contabilidade do pai, carinhosamente guardado. “Todos os acontecimentos eram registrados nesse livro, mantimentos trocados, dinheiro emprestado. Ele trocava o feijão por arroz, sal, café e  anotava quantos litros de feijão ele dava e quantos litros recebia dos mantimentos de que precisava. Quando os filhos nasciam ele anotava também, o dia, o mês e o ano. Ele era muito organizado e hoje temos isso como relíquia, guardamos para que os netos, bisnetos vejam”, explicam os filhos. 

A família dos Mansos é de fato um exemplo de família nos dias de hoje. Parabéns.