Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Desemboque completa 250 anos

Edição n° 1300 - 09 Março 2012

No altar da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro, no povoado do Desemboque, há uma inscrição datando o ano de 1762 como marco inicial daquele arraial, criado oficialmente, no dia 02 de março de 1766. 

A data de 1762 pode não ser oficial, mas é um registro interessante e importante, que deve ser respeitado, e lembrando pelas autoridades responsáveis e, também pelas escolas no registro histórico que fazem ao mostrar a origem de Sacramento e desta vasta região do Triângulo Mineiro e sul de Goiás.

O povoado que chegou a ter 1.300 habitantes e mais de 100 casas, hoje tem duas igrejas seculares e poucas casas.

Resgatar o dia 2 de março como a data oficial do Desemboque. No altar da Igreja Matriz, a data de 1762 foi registrada, assim em 2012 devemos relembrar os 250 anos passados e as dificuldades de todos que colonizaram a região, deixando as marcas de sua cultura e fé.

O professor de História, Alessandro Abdala, no site www.alessandroabdala.com, escreve, “criado oficialmente em 02 de março de 1766. O Julgado do Desemboque (local onde havia um juiz e a burocracia administrativa) compreendia todo o Sertão da Farinha Podre, que hoje corresponde ao Triângulo Mineiro e sul de Goiás. Uma vasta região administrada e comandada pela sede no Desemboque, onde era grande o movimento. 

Segundo fontes documentais, em 1783 o Desemboque contava com cerca de 600 habitantes; em 1842, seriam 1.300 espalhados por quase cem casas em um arraial que possuía comerciantes, artesãos, boticários, jornaleiros, ferreiros, carpinteiros, tabeliães, oficiais, enfim toda uma sociedade ampla e estruturada vivendo primeiro em função do ouro, mais tarde por conta própria, traçando seu próprio destino”registra.

Informa Abdala, citando como fonte o historiador Antônio Borges Sampaio, “de 1743 a 1781 saíram das minas do Desemboque mais de 100 arroubas de ouro. Impossível saber quanto mais seria proveniente do roubo e contrabando. Porém, a partir de 1871 o ouro começou a escassear, tornando-se cada vez mais esquivo e fugitivo, conseqüentemente Desemboque perdia seu atrativo, obrigando sua população a procurar novas riquezas, lançando suas sementes nas terras férteis d'oeste. 

O povo desertava, organizavam-se bandeiras que partiam do Desemboque rumo aos ermos desconhecidos do Sertão da Farinha Podre. Buscando ouro eles encontravam rios, campos, terras fertilíssimas banhadas por águas puras e cristalinas, matas virgens de madeiras exuberantes, lagos piscosos como nunca antes puderam ver... muitos ficavam por estes caminhos, fundando pequenos povoados que viriam a originar cidades como Sacramento e Uberaba. 

Por todos os sertões acima e abaixo do Rio Grande, espalharam-se os aventureiros, tendo como ponto de referência e apoio, o arraial do Desemboque. Povoaram aqueles ermos e mais do que isso, gravaram no caráter dos moradores os fortes traços do costume, das tradições e da cultura mineira. 

E assim foi se despovoando o Desemboque, os garimpos, exaustos, não alimentavam mais a ambição dos aventureiros, estes, na alucinação das catas, na demência das procuras, na esperança do enriquecimento fácil, não se agarravam a terra, lá se iam para outros sertões, para outras bandas, desbravar outros lugares... 

E o Desemboque foi morrendo, agonizando pouco a pouco, quase que imperceptivelmente, de modo que num dia cinzento de um outono qualquer alguém percebeu que não havia mais nada, não mais o brilho áureo do cobiçado metal, não mais a turba aventureira dos primeiros tempos, nem a efervescência irrequieta dos forasteiros, não mais o cartório, nem a cadeia, nem a farmácia, nem os sacerdotes, nem as meretrizes, nem mesmo a rua da Várzea, ladeada pelos casarões centenários, outrora tão movimentada, existia mais. 

Facilmente o Desemboque passaria por um sonho, uma estória antiga, mal contada, dessas que ninguém acredita, não fosse a presença concreta das duas igrejas com sua brancura amarelecida pelo inexorável passar dos anos, remanescentes inabaláveis, solitárias no alto da colina a comprovar o passado fantástico (...)”.

 

(Fonte: culturaeturismosacramento.blogspot.com/; www.alessandroabdala.com)

 

SACRAMENTO, 

200 anos sob o signo da cruz

 

Amir Salomão Jacób


Estamos dentro de uma data memorável: 200 anos da passagem da bandeira que deixou o Desemboque em 1812, sob o comando do sertanista Major Eustáquio, acompanhado do vigário daquela localidade, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswik. Todos os historiadores do final do século XIX, de modo notável Borges Sampaio e Hildebrando Pontes, afirmam que, em meados daquele ano, provavelmente junho, esses homens deixaram o Desemboque rumando-se a oeste indo fundar a povoação de Santo Antonio e São Sebastião de Uberaba.

Nessa empreitada, mais ou menos no meio do caminho, encontraram um lugar de terras muito férteis e com grande quantidade de água. Encontraram também alguns faiscadores que labutavam nas águas do Ribeirão Borá, à cata de ouro ou pedras preciosas. Esses aventureiros eram de todos eles conhecidos, advindos também da povoação de Desemboque onde o ouro escasseava. Com a ajuda desses homens Cônego Hermógenes levantou um cruzeiro, no mesmo lugar onde hoje se encontra a Igreja Matriz de Sacramento, e rezou a primeira missa do lugar.

Em torno do cruzeiro foi-se formando uma pequena povoação que, os documentos da época ainda existentes, chamavam de “Arraial do Santíssimo Sacramento”. Nesse mesmo local Cônego Hermógenes voltou diversas vezes em desobriga sempre rezando a missa, fazendo batizados e administrando os sacramentos da Igreja. Em 1820 ele, após conseguir as terras para formação de um patrimônio, fundou a cidade de Sacramento.

O velho cruzeiro foi mantido na praça de capelinha e ali varou anos, sendo somente retirado em 1926 pelo Agente Executivo Cel. Franklin Vieira para construir o jardim municipal. Nos escritos do grande sacramentano, Dr. Clemente Vieira de Araújo, prefeito de Sacramento entre 1954 a 1957, encontramos de seu próprio punho toda essa história e inclusive a retirada do cruzeiro em 1926. Nesses escritos ele aponta o local para onde o velho cruzeiro foi removido (só que infelizmente por mais que procuro entender sua caligrafia nessa parte do apontamento, não consigo entendê-la). O jornal “A Semana”, edição 35 de 02/08/1926 também noticiou esse fato (retirada do cruzeiro) e publicou uma belíssima poesia, escrita em forma de cruz, composta por Vicente Sebastião de Araújo, dedicada “ao velho cruzeiro da Matriz”.

Em sendo assim essa é a mais auspiciosa data que temos a comemorar: 200 anos da primeira manifestação cristã nestas terras que margeiam o Ribeirão Borá. Duzentos anos em que a brancura de uma hóstia consagrada foi elevada diante dos homens do Borá para ser adorada, por conter nela o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Senhor Jesus Cristo. Foi esse o dia do batismo das terras do Borá.

Conclamo assim a população à essa comemoração. Conclamo às escolas municipais e estaduais a incentivarem seus alunos à pesquisa da história local. Conclamo a Paróquia do Santíssimo Sacramento a vanguardear as comemorações religiosas. Conclamo os Poderes Públicos de Sacramento também a proceder as comemorações. Somos, em toda vastidão do Triângulo Mineiro, depois do Desemboque, a comunidade mais pejada de história, de tradições e de bênçãos divinas.