Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Carnaval: celebrar a alegria de viver

Edição nº 1664 - 1 de Março de 2019

Depois de tanta notícia ruim que graça o país e o Estado, aos poucos, a cidade vai retomando o ritmo frenético do carnaval que chegou em dias idos a trazer à cidade 7 mil turistas. Exagero ou não, não, é fake News (que um amigo, teima em dizer 'fuck you', sem precisar justificar) mas, em bom português, não é falso dizer que Sacramento já realizou os melhores carnavais da região com até cinco escolas de samba desfilando na avenida. 

Mas os tempos são de vacas magras. 

E nada como uma boa reflexão sobre o Carnaval, nas palavras do teólogo Leonardo Boff que, gentilmente, nos brinda com suas crônica: “Prezados amigos/as, aqui vai uma reflexão sobre o carnaval no meio da desolação de tantos brasileiros. 

Grande abraço e boa festa ou bom descanso. Lboff”

 

 

O Brasil está vivendo uma das fases mais tristes e até macabras de sua história. Foi desmascarada a lógica da corrupção, presente em toda a nossa história, como parte de um Estado patrimonialista (colonialista, escravagista, elitista e anti-popular) e sequestrado durante séculos pelas oligarquias do ser, do ter, do saber, do dominar e do manipular a opinião pública. Por todo esse tempo, grassou a corrupção e não apenas, como se atribuiu, nos últimos anos, quase que exclusivamente ao PT (é verdade, que suas  cúpulas foram contaminadas),  feito bode expiatório como forma de ocultar a corrupção dos privilegiados de sempre.

Dentro deste quadro sinistro se festeja o carnaval. Não poderia deixar de ser, pois é um dos pontos altos da vida de milhões de brasileiros. A festa faz esquecer as decepções e dá espaço às muitas raivas afogadas na garganta. A festa, por um momento, suspende o terrível cotidiano e o tempo tedioso dos relógios. É como se, por um lapso de tempo, participássemos da eternidade, pois na festa se suspende o tempo dos relógios.

Pertence à festa o excesso, a ruptura das normas convencionais e das formalidades sociais. Lógico, tudo o que é sadio pode ficar doentio, como o caráter orgiástico de algumas expressões carnavalescas. Mas não é esta a característica do carnaval.

A festa é um fenômeno da riqueza. Aqui riqueza não significa possuir dinheiro. A riqueza da festa é a riqueza da razão cordial, da alegria, de mostrar um sonho de fraternidade ilimitada, gente da favela com gente da cidade organizada, todos fantasiados: crianças, jovens, adultos, homens e mulheres e idosos dançando, cantando, comendo e bebendo juntos. A festa é a exaltação de que podemos ser alegres e felizes mesmo dentro de desgraças coletivas.

Se bem refletirmos, a alegria do carnaval é uma expressão de amor que é mais que empatia. Quem não ama nada ou ninguém, não pode se alegrar, mesmo que o suspire de forma angustiada. Um téologo da Igreja Ortodoxa, do século V da era cristã, São João Crisóstomo (de quem o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns era um grande entusiasta e leitor) escreveu bem: “ubi caritas gaudet, ibi est festivitas”; “onde o  amor se alegra, aí se encontra festividade”.

Agora um pouco de reflexão: o tema da festa comparece como um fenômeno que tem desafiado grandes nomes do pensamento como R. Caillois,  J. Pieper, H. Cox, J. Motmann e o próprio  F. Nietzsche. É que a festa revela o que há ainda de infantil e mítico em nós no meio da maturidade e da predominância da fria razão instrumental-analítica que rege nossas sociedades.

A festa reconcilia todas as coisas e nos devolve a saudade do paraíso das delícias, que nunca se perdeu totalmente. Platão sentenciava com razão: “os deuses fizeram as festas para que pudessem respirar um pouco”. A festa não é só um dia que os homens fizeram, mas também, “um dia que o Senhor fez” como diz o Salmo 117,24. Efetivamente, se a vida é uma caminhada onerosa, precisamos, às vezes, de parar para respirar e, renovados, seguir adiante com alegria no coração.

Donde brota a alegria da festa? Foi Nietszche quem encontrou sua melhor formulação: “para alegrar-se de alguma coisa, precisa-se dizer a todas as coisas: “sejam bem-vindas”. Portanto, para podermos festejar de verdade precisamos afirmar positividade de todas as coisas. Continua Nietzsche: “Se pudermos dizer sim a um único momento então teremos dito sim, não só a nós mesmos, mas à totalidade da existência” (Der Wille zur Macht, livro IV: Zucht und Züchtigung n.102).

         Esse sim subjaz às nossas decisões cotidianas, em nosso trabalho, na preocupação pela família, pelo emprego ameaçado pelas novas leis regressivas do atual governo, na convivência com amigos e colegas. A festa é o tempo forte no qual o sentido secreto da vida é vivido mesmo inconscientemente. Da festa saímos mais fortes para enfrentar as exigências da vida, para a maioria, sempre lutada e levada na marra.

Temos boas razões para festejar nesse carnaval de 2019. Esqueçamos, por um momento, as agruras de um governo ainda sem rumo e com ministros que nos envergonham e com políticos que representam mais os grupos que os elegeram que os reais interesses do povo. Apesar disso tudo, a alegria há de predominar.

 

Leonardo Boff é filosofo, teólogo e escritor e escreveu :Virtudes por um outro mundo possível, 3 vol. Vozes 2012.