Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Faltou diálogo

Edição nº 1452 - 13 Fevereiro 2015

Enquanto o prefeito Bruno Scalon Cordeiro afirmou em revista fartamente ilustrada, em dezembro último, que Sacramento tem o melhor carnaval do interior de Minas e um dos mais aguardados da região, o vereador José Maria Sobrinho deitou a lenha. Colocou até asas de Anjo no Diabo, pra dizer que seu estrago é menor do que a gentalha que Sacramento acolhe nos quatro dias de folia. E olha que o Diabo costuma fazer uns estragos do capeta!!

Falando em Diabo, com todo respeito em caixa alta, porque não quero desavenças com o caramunhão, sou do tempo em que 'Carnaval era mesmo coisa do Diabo', dizia minha professora de catecismo, bem orientada pelas lideranças eclesiásticas. O bom Pe. Saul, excluído do rol das personagens religiosas homenageadas recentemente, mais aberto, pregava o bom comportamento, mas condenava as máscaras. 

E aqui me vem a lembrança de uma história dos bancos escolares. Às vésperas da grande festa popular, que naquela época se restringia aos bailes nos clubes da cidade, numa descarada exclusão social, com brancos num clube e negros noutro, nas escolas vivíamos momentos de pura alegria. 

Era final dos anos 50, no Grupão Afonso Pena Jr, a Profª. Mariléa Maluf, com todo seu dinamismo, ensaiando os primeiros passos de uma pedagogia sem exclusão, organizava festinhas em sala de aula. Eufórico com, talvez, minha primeira aparição pública festiva, caí na besteira de pedir a meu pai que comprasse uma máscara de carnaval. 

E lá chego eu no Carnaval da Da. Mariléa com uma máscara do Diabo, o dito cujo mencionado pelo Zé, na Câmara... Já na entrada da escola, o Alexandre Scalon, hoje grande médico em Araxá, colega de classe, me arranca a máscara da cara, arrebentando o frágil elástico. Eu, devidamente amparado pelo sentimento diabólico da reação, dei-lhe uma bolacha e o pátio acabou virando um inferno...

O Darinho, do Tomás Abrate, por não decorar o 'ponto'  sobre as invenções, e eu, por conta da ofensa aos bons e tradicionais costumes religiosos, e por defender a imagem do Diabo, ficamos de castigo uma semana depois da aula, das 4h às 5h da tarde, na companhia do Seu Agostinho.

Então, capeta também à parte, essa história do carnaval de rua em Sacramento, do princípio ao fim, foi toda conduzida com precipitação, e o pior, com participação apenas dos senhores da Casa Grande. O pessoal da senzala, os verdadeiros protagonistas que dançam e batucam ficaram de fora.  

O líder do prefeito, vereador Rafael Scalon, que se confessou amante do Carnaval, afirmou na Câmara que o prefeito Bruno ouviu um a um os secretários, os quais foram unânimes em confirmar a decisão do prefeito. Ora, secretário também faz parte da Casa Grande. Os presidentes das escolas de samba, os carnavalescos, os mestres de bateria e até a classe empresarial, representada pela ACE – Associação Comercial e Empresarial, que se beneficia diretamente do Carnaval, que movimenta milhares de reais durante a semana, esse pessoal ficou de fora da discussão.

Faltou diálogo. Faltou visão, faltou dar ouvido ao ouvidor (desculpe o trocadilho) Devós, que vem alertando pelo ET, a situação crítica das finanças da Prefeitura. Era hora do Sr. Secretário (ou secretária, não sei, já passou tanta gente pela pasta...) de Cultura mostrar, lá no início de 2014, essa perspectiva negativa e discutir um modo diferente para realizar o carnaval este ano, buscando alternativas. 

Como secretário de governo do então prefeito, José Alberto Bernardes Borges, no início dos anos 70, realizamos carnavais memoráveis, com o mínimo de participação dos cofres da Prefeitura, mesmo porque se governava no limite dos gastos. Mas havia diálogo com os presidentes das escolas, com o povo, uma bela parceria com o Sacramento Clube. Me lembro de Bertim Vieira, secretário do SC, que chegou a colocar mais de 20 blocos na rua, cada folião pagando sua fantasia. 

No início de janeiro, quando vi o funcionário Pedrinho Marques retirando a iluminação da avenida, que também serviria para o Carnaval, não acreditei. Surpreso, perguntei: “E o Carnaval?” – “Não sei, recebemos ordens e estamos cumprindo”, respondeu. Que decisão mais tresloucada e precipitada, pensei eu cá com meus botões. 

Pra quem gasta R$ 1 milhão, gastar R$ 50 mil com um som e um serviço de reforço de segurança, custa muito pouco quando se dá alegria ao povo. Os banheiros que fiquem por conta dos comerciantes que exploram o comércio ao longo da avenida. Afinal, o xixi vem, principalmente, do excesso da cerveja!!! Em tempo de crise criam-se alternativas com parcerias. Pelo lucro que recebem da festa, eles não se oporiam. Faltou diálogo!!

E, por favor, não culpem os bandidos, muito menos o pobre do Diabo, pela falta de ideias do pessoal da Casa Grande. Deixar bandido acabar com carnaval, chegamos ao fundo do inferno! (WJS)