Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Brava luta, Marilea!

Edição nº 1463 - 01 Maio 2015

Sempre me emociono ao copidescar qualquer obituário. A difícil tarefa do repórter nesses momentos pega as famílias fragilizadas, condoídas pela perda de seus entes queridos. Nosso primeiro sentimento é de fazer unidade à família, evitando frases que não levam consolo algum. 

Rubem Alves lembra em crônica o péssimo hábito que temos ao dizer nessas ocasiões, em sinal de consolo: “É, descansou, tão novo, né?”; ou, “Não diga! Bom sujeito, descansou’’, dando a impressão de que viver é sempre uma coisa cansativa. 

Trabalhando no obituário da Profa. Marilea Maluf Ribeiro esta semana, ouvi testemunhos de grandes amigos que passaram por sua vida. Nenhum justificou sua morte como algo dolorido. Lembraram de coisas amenas, passagens mostrando sua competência como educadora e profissional. 

Sempre entendi a transvivenciação como um portal que se abre para o infinito. E o infinito é Deus. Quer coisa mais bonita e mais cheia de consolo?  E todos falaram dela como se estivesse viva, lembranças bonitas, expressão de amizades ternas e inesquecíveis. Recolhi alguns excertos.  

O ex-prefeito José Alberto escreve nesta edição um testemunho de amigo e de homem público que enxergou na Profa. Marilea um dom missionário para lidar com a educação e enfrentar os revezes da vida. Não me esqueço de uma de suas frases: 'Para se viver bem é preciso saber engolir lágrimas e vaidades”. 

Sua cunhada Hebe  lembrou, chorou, sorriu como se falasse de um anjo. ‘‘Ela foi um rastro de amor’’. 

“Sempre tive um carinho muito grande por Marilea. Mulher muito inteligente, escrevia muito bem, muito  elegante, prendada, tinha muito bom gosto, uma pessoa muito fina e boníssima...’’ lembrou a Profa. Aparecida Miranda.

Da. Agnes de Carvalho Loyola tem uma história de vida no Grupo Escolar Dr. Afonso Pena Jr. Exímia professora. Quando lhe perguntei sobre Marilea chegou a se emocionar... ‘‘Ontem, passando em frente ao Afonso Pena, senti uma grande nostalgia, aliada a uma tristeza e a uma saudade muito grande daquele tempo em que ali estávamos trabalhando. Marilea, muito ordeira, educada e prendada, com uma organização a toda prova, construindo na escola um dos mais completos arquivos da história de Sacramento...”

Da. Zezé Magnabosco também lembra “a professora exemplar, enérgica, sim, mas muito educada, cuidadosa, uma amiga que gostava de saber de nossos afazeres diários’’. 

Eram os anos 50 quando iniciei minha vida escolar no Grupão. Era um timaço de educadores. No 1º ano, Da. Zélia Amaral; no 2º, Marilea Maluf; no 3º, Adail e Abadia Marques e, no 4º ano Da. Ágnes Loyola. De Da Marilea recordo a professora extremamente exigente com tudo, a começar da roupa que usávamos. “Pobreza não é sinal de sujeira, muito menos de miséria”, justificava com uma peculiar pedagogia que ensinava e instruía. Ao mesmo tempo em que nos ensinava através de uma 'educação bancária', como denomina Paulo Freire, era dialógica nas ações cotidianas, no que chamamos hoje de 'temas transversais', nos educando também para a vida. 

Mas era brava! Isso também dou testemunho. Nunca levei um coque, mas castigos eram frequentes... Eu me lembro, naquele 2º ano primário, eu sempre na fila dos atrasados, o 'ponto'- como chamávamos os títulos dos assuntos de cada unidade - era, 'As Invenções'. Quem inventou o avião, a lâmpada elétrica, o telégrafo, a bicicleta, o escambal... Você tinha que decorar que Santos Dumont, Tomás Edson inventaram todas essas geringonças, mas não discutia as razões. 

Pois bem, claro que eu não decorava. Decorava poesia, porque achava bonitos todos aqueles textos rimados, líricos, românticos... Mas saber que Copérnico descobriu que a Terra girava em torno do sol... e que Galileu engoliu a verdade para não ser queimado pela inquisição, que importância tinha. 

E na hora da prova oral, diária naquele tempo, Da. Marilea, com sua peculiar calma, sorteou o número, 38, Walmor, o último da chamada, e lascou: “Quem inventou a máquina a vapor?”. Caraca, eu sabia o Santos Dumont, o Tomas Edson, o Morse... Mas a máquina a vapor!! O que que a máquina a vapor tem a ver com Minas Gerais, com Sacramento??!!! 

- De castigo depois da aula!

E veio o próximo, número, 2, Adário Abrate: 'Quem inventou o telefone?”... Gago que era, Darin soltou esta: “Ih, ih, ih, fo, fo, fo, fo... foi... u... u... u... Num sei, fessora!” 

Uma semana, Darinho e eu ficamos de castigo após as aulas decorando, com Seu Agostinho, o 'ponto' as invenções.  Nunca mais me esqueci que Thomas Newcomen inventou a Máquina a Vapor! 

E pela vida a fora, em minhas observações pedagógicas sempre lidando com a educação, ainda não sei quem tem razão, se 'as palmadas', Paulo Freire ou a Xuxa. 

Um grande abraço, Da Marilea!           (WJS)