Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

A Quaresma

Edição n° 1249 - 18 Março 2011

A Quaresma só pode ser entendida e vivida à luz do Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

Fundamentalmente o Tríduo Pascal é a comemoração da morte e da ressurreição de Cristo, a Cabeça, e dos cristãos, os seus membros. É a festa batismal da Igreja. No Cristo morto e ressuscitado ela celebra o novo nascimento dos que são batizados e renova a Aliança batismal dos que já foram batizados. Para esta festa batismal a Igreja se dispõe pela penitência: a primeira penitência catecumenal dos que vão ser batizados, a penitência de conversão dos pecadores e a penitência renovadora dos que desejam aprofundar sua vida batismal. Por isso, os dois grandes temas da Quaresma são o batismo e a penitência: a primeira e a segunda conversão. Para isso ela tem sua linguagem, seus exercícios de conversão, seus ritos. A Igreja se abre à pregação de Cristo; acompanha sua vida pública, para com ele subir a Jerusalém e com ele morrer e ressuscitar na Semana Santa e na Páscoa.

A Liturgia da Quarta-feira de Cinzas, que abre o Tempo da Quaresma, manda proclamar o Evangelho em que Nosso Senhor fala da esmola, da oração e do jejum, conforme Mateus 6,1-8.16-18. Este Evangelho apresenta, como que em síntese, o programa dos exercícios quaresmais de conversão.

Por que justamente oração, jejum e esmola? Oração, ainda se compreende. Mas jejum e esmola? A Igreja renovada do Vaticano II manteve esses exercícios que podem parecer anacrônicos. Jejum e esmola ainda têm sentido hoje? Jejum para quê? Esmola? Não seria melhor dedicar-nos à promoção social? Muitos talvez coloquem estas ou semelhantes questões.

Toda a nossa vida deveria ser uma oração, ou seja, uma comunicação com o divino em nós. A oração constitui uma abertura para Deus, para o próximo e para o mundo; um sim de acolhimento, de louvor, de conformidade. Na virtude teologal da fé, nós dizemos um sim ao Pai na obediência. Procuramos situar-nos sempre de novo dentro de nossa vocação e da nossa missão. O homem se pergunta pela sua vocação, o homem responde à sua vocação, o homem realiza em profundidade sua vocação de comunhão íntima de vida com Deus. É na oração que o homem melhor cultiva seu relacionamento de Filho com Deus, que se revela como Pai.

Se nós soubermos viver a autêntica comunhão com Deus na oração durante a Quaresma, conseguiremos viver durante o ano todo em oração, transformando também as outras dimensões da vida, como o relacionamento com o próximo e com o mundo, em oração de atitude ou verdadeira devoção.

No seu relacionamento com a natureza criada, o homem é chamado a ser livre, a ser senhor da criação. Acontece, porém, que muitas vezes se escraviza a ela. Por isso, a Igreja convida o homem a realizar um gesto de liberdade e de respeito em relação aos bens criados, através do rito do jejum.

O rito do jejum não vale pelo que é, mas pelo que significa. Na ação de comer e de beber é que o homem mais se apodera e se apropria das coisas. Ele mesmo consome a comida; ele a faz tornar-se parte de si mesmo. Não só dela se apodera, mas muitas vezes, apoderando-se dela, a ela se escraviza. Por isso, o alimento e a bebida tornam-se símbolo de tudo quanto envolve o homem.

Jejuar é abster-se de um pouco de comida ou de bebida. É estabelecer o correto relacionamento do homem com a natureza criada. A atitude de liberdade e de respeito diante do alimento torna-se símbolo de sua liberdade e respeito para com tudo quanto o envolve e o pode escravizar: bens materiais, qualidades, opiniões, ideias, apegos e assim por diante.

A esmola celebra o relacionamento do homem com o seu próximo, na virtude teologal da caridade.

O que significa a esmola? Dar esmola significa dar de graça, dar sem interesse de receber de volta, dar sem egoísmo, sem pedir recompensa, em atitude de compaixão. Nisto ele imita o próprio Deus no mistério da criação e a Jesus Cristo, no mistério da Redenção.

O homem recebeu tudo de seu Criador. Tudo quanto tem, possui porque recebeu. Ora, se Deus dá de graça e se o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, se Cristo se doou totalmente, dando sua vida, também ele será capaz de dar de graça.

Quando, pois, na Quaresma a Igreja convoca a todos os fiéis a darem esmola, ela comemora aquele que por excelência exerceu a esmola: Jesus Cristo. Convida o homem à atitude de abertura ao próximo, convida-o a dar de si mesmo, convida-o a servir ao próximo com generosidade e desprendimento. Ora, neste momento a esmola começa a significar toda esta atitude de doação gratuita. Não só de bens materiais, mas o tempo, o interesse, as qualidades, o serviço, o acolhimento, a aceitação. E todo este mistério de abertura e gratuidade em favor do próximo na imitação de Deus e de Cristo possui então uma linguagem ritual. Tem valor de símbolo. Pela celebração da esmola a Igreja comemora a generosidade de Cristo que deu sua vida pelos seus e torna presente Cristo, dando-se a seus irmãos em cada irmão, formando o seu corpo. Assim, quando a Igreja convida os fiéis a exercerem a esmola durante a Quaresma, sabe muito bem que não é pela esmola em si que ela vai resolver os problemas sociais e realizar a promoção humana, mas sabe também que é pelo que a esmola significa que ela vai realizar uma verdadeira promoção humana.

Por tudo isto a Quaresma é o tempo próprio da conversão, da volta para Deus e para o próximo: Tempo de Ressurreição!