Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Democracia Capenga

Edição nº 1123 - 12 Outubro 2008

Passadas as eleições municipais cria-se a expectativa em torno dos eleitos em Sacramento. O marasmo da transição permite avaliar com calma o resultado das urnas onde dois terços dos eleitores não votaram no prefeito eleito, somados os votos dos candidatos derrotados e as abstenções (em torno de 12%) . As regras são claras e as condições iguais para os participantes do processo eleitoral, tacitamente acordados neste princípio de ser eleito o candidato majoritário. A legitimidade do processo é inegável. O aprimoramento das instituições e a capacidade de melhorar o desempenho social se faz ao longo da História. Certamente teremos, no futuro eleições mais limpas (mesmo com a cidade coberta de papéis). As limitações aparentemente crônicas do sistema representativo deverão ser superadas. Sacramento especificamente poderia ocupar um patamar mais alto. Democracia não se restringe ao exercício do voto ou a fidelidade às regras estabelecidas na legislação eleitoral. O imobilismo e a inexistência da autocrítica leva-nos a admitir que está tudo bem. Não é verdade. A democracia como valor universal exige compromisso e busca. Exige sacrifício e abnegação. 

Até quando assistiremos a famigerada compra de votos, capaz de nivelar ao chão o eleitor corrompido e o candidato corruptor. Talvez o farisaísmo das críticas seja o responsável pela leviandade do comportamento, culturalmente tolerado socialmente. A exorbitância dos gastos de uma campanha eleitoral afasta bons candidatos do pleito e praticamente afasta a possibilidade de eleição dos desafortunados. Felizmente temos um lenitivo levando em conta a derrota de candidatos esbanjadores e caridosos no período eleitoral. 

Em Sacramento a Edilidade vai passar mais quatro anos sem a representatividade feminina. A mulher cônscia do seu valor está preparada politicamente para exercer o mandato em todas as esferas na trilogia dos poderes. A democracia, gênese da igualdade de condições teve um refluxo na nossa cidade. No passado, sob a égide do regime autoritário Sacramento elegeu Dora Cerchi em 1976. Manteve no legislativo a cadeira representativa da mulher. 

Não se trata de vantagem a ser alardeada pela posição cultural, econômica e social de nossa cidade. Melancolicamente a democracia racial não chegou ainda à ribanceira do Ribeirão Borá. O negro e outras etnias não prosperam nas opções restritas e isoladas nos partidos. O oportunismo e o relacionamento excludente dos partidos confere um verniz de igualdade capaz de enganar concepções mais críticas. 

A ausência dos fóruns de debates revela ainda o conservadorismo doméstico da política sacramentana. Revistas, jornais, rádios e entidades representativas limitaram-se a assistir o pleito sem envolvimento jornalístico necessário à realização do debate aberto e cidadão. 

Definitivamente a democracia não foi vencedora nas eleições municipais em Sacramento. A sociedade precisa avançar mais na busca de elementos capazes de fortalecer a participação popular, sobretudo, a democracia deve assegurar o emprego e a gestão normal dos recursos após as eleições. 

Não se trata de crítica a um grupo político. Trata-se do desencanto diante da falta de criatividade e inteligência na política. Trata-se de um pouco mais de coragem e de ousadia para coletivamente fazer Sacramento crescer política e culturalmente na direção do seu destino de cidade privilegiada.

 

C. A. Cerchi foi eleito vereador