Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Nove ciclistas sacramentanos fazem o ‘Caminho da Fé’

Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Um grupo de ciclistas sacramentanos, quatro mulheres: Lorena, Cleide, Fabiana e Juliane e cinco homens, Gabriel, Wagner, Leandro, Robervani e Marcelo de Paula partiram de Águas da Prata (SP) pelo Caminho da Fé, uma maratona de 310 km de pedal atravessando a serra da Mantiqueira, por estradas de chão e vales, até chegar ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP).  

 

De acordo com Marcelo, que já fez o Caminho da Fé e serviu como guia do grupo, dá pra fazer o percurso em três dias, mas devido à participação de mulheres, houve a necessidade de paradas mais longas. “O ciclismo vem crescendo muito em Sacramento e como eu já participei dos pedais para a cidade de Romaria (Nossa Senhora d´Abadia) e o Caminho da Fé, com um grupo de amigos, em três dias, que é bastante puxado, este ano, um pequeno grupo de mulheres se juntou a nós, incluindo minha esposa. Apoiei a ideia e servi como guia. E chegamos muito bem, graças a Deus”. 

Para De Paula, fazer o Caminho da Fé envolve muito mais que o prazer de pedalar, é também uma jornada espiritual. “Envolve a fé, a devoção a Nossa Senhora Aparecida, a beleza das paisagens e desafios como os aclives da Serra da Canastra, estradas bem íngremes e vales. Mas o mais difícil são mesmo as subidas, que não são poucas. Só para se ter ideia, a última tem 16km, a Serra da Luminosa, contraforte da Mantiqueira. E onde tem subida, claro, tem descida e algumas bravas,  difíceis  que exige muito freio e muito cuidado, porque têm muito cascalho.  Por esse motivo, nós planejamos o percurso em cinco dias”, explica, destacando que Fabiana já havia feito o Caminho da Fé, em 2017. 

 

O essencial é uma boa bike 

Sobre a estrada, Marcelo diz que, embora o percurso seja feito todo ele em estrada de terra, há trânsito de veículos de moradores da região e, também de trilheiros e jeepeiros, mas grande parte mesmo são ciclistas e romeiros a pé, sempre incentivados por mensagens ao longo do percurso. “Há dezenas de placas com frases de incentivo pelo caminho; várias capelinhas nas fazendas, com mensagens de devotos que já passaram por ali”.  

A orientação que Marcelo repassa aos iniciantes, em primeiro lugar, recomenda uma MTB (mountain bike) especial. É essencial uma bike própria para cada tipo físico de pessoa, de acordo com sua ergonometria, e uso de todos os equipamentos de segurança. Além disso, um carro de apoio com acessórios para reparos como pneus e câmeras de ar, kits de reparos rápidos da bike, entre outros. Mas o maioria dos problemas são resolvidos pelos próprios ciclistas, o problema é se ela quebrar, aí se não achar recurso nas cidades, só resta abandonar a viagem, porque são peças de reposição”, explica, destacando antes o vestuário próprio,  

“- Em primeiro lugar, roupas próprias e adequadas de ciclismo com luvas, e não esquecer dos agasalhos, especialmente nesse percurso, porque faz muito frio. No ano passado, fomos em outubro, e como em Campos de Jordão estava chovendo, pegamos sete graus, por isso agora  nos prevenirmos”. 

 

Apoio logístico das prefeituras

A logística empregada pelas cidades próximas ao percurso, segundo Marcelo, é muito bem cuidada. “O Caminho da Fé, já é muito famoso, recebe um apoio logístico das prefeituras excelente, estradas bem conservadas, com sinalização muito bem feita, não tem como se perder, além de muitas pousadas, desde às mais simples até às mais sofisticadas, hotéis, com várias opções, mesmo porque todas essas cidades, que recebem muito bem os turistas, vivem desse turismo religioso”. 

Segundo o guia, anualmente, passam por ali milhares de romeiros. “Este ano, devido a pandemia, o caminho estava vazio, encontramos três grupos a pé, já grupos de ciclistas encontramos vários”, explica, destacando que a maioria dos romeiros optam por pousadas, com as reservas feitas com antecedência. 

 

Pe. Inácio de Medeiros recepciona romeiros

Chegando a Aparecida, os sacramentanos foram recepcionados pelo missionário redentorista, Pe José Inácio de Medeiros, após um contato de Lorena, que integrou o grupo. “Assim que chegamos, fomos recebido por ele na frente do Santuário e foi uma experiência maravilhosa. Logo após a bênção proferida por Pe Inácio e um papo gostoso com o sacerdote, que já foi pároco da Basílica do Santíssimo Sacramento, o grupo, cada um pegou a sua bike e foi até os pés da imagem de Nossa Senhora Aparecida, com pedidos de graças, agradecimentos por graças alcançadas, enfim, um momento íntimo de cada um para com Deus e a Virgem Maria”, explica, destacando que o maior exemplo de superação desse pedal foi o de Leandro, que não treinou, não se preparou para o pedal. 

“- Ele estava, inclusive, acima do peso, há quase cinco meses não pedalava e estava se recuperando da Covid, que contraiu meses antes e foi uma superação muito grande. No caminho, ele sentia muita falta de ar, sequela da Covid, mas ele falava: 'Eu tenho que agradecer a Nossa Senhora Aparecida pela vida, e ela vai me levar lá'. E levou mesmo. A fé dele foi muito grande. O Leandro, para nós é um caso à parte, porque foi uma grande superação”. 

 

Foi uma experiência fantástica

Falando sobre o ânimo da turma, Marcelo ressalta que fazia apenas cinco meses que havia feito o caminho e se surpreendeu. “A expectativa de todo mundo era muito boa desde a saída de Sacramento e, depois de Águas da Prata, muito entusiasmo e animação e foi uma experiência muito fantástica para todos, cada um superando seus limites”. 

Embora o grupo tenha feito um planejamento de cada parada em Ouro Fino, Tocos do Mogi, Paraisópolis, Campos de Jordão e, finalmente Aparecida, houve alteração. 

“No primeiro dia, pedalamos 75km, até Ouro Fino (MG); no segundo dia, iríamos rodar 50 km, mas pedalamos mais 25 km e paramos em Estiva (MG); no terceiro dia, em vez de parar em Paraísópolis (MG), decidimos pedalar até o Km 65  km e dormir aos pés da Serra da Luminosa, que fica em Brazópolis (MG), cuja subida é a mais difícil, são 16 km. No quarto dia, chegamos a Campos de Jordão (SP) que fica a pouco mais de 60 km de Aparecida e, no domingo, às 12h, chegamos ao Santuário Nacional de Na. Sra. Aparecida. 

Fazendo uma avaliação, Marcelo diz que foi uma peregrinação altamente positiva. “Eu pensava que o pessoal fosse cansar muito, mas eles superaram nossas expectativas. Estou muito satisfeito, muito agradecido a Deus e a Nossa Senhora Aparecida por essa vitória. E já estamos marcando o próximo Caminho da Fé para 2022, e já no próximo dia 14 de maio iremos a Romaria, agradecer a Nossa Senhora d'Abadia”.

 

O caminho da fé

De acordo com o site https://caminhodafe.com.br/ptbr/o-caminho-da-fe/, O Caminho da Fé no Brasil, foi  inspirado no milenar Caminho de Santiago de Compostela (Espanha).  A ideia da sua criação ocorreu após um dos organizadores, Almiro Grings,  percorrer por duas vezes o Caminho de Santiago.  Imbuído do propósito de criar algo semelhante no Brasil,  para dar estrutura às pessoas que sempre fizeram peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, oferecendo-lhes os necessários pontos de apoio e infraestrutura. Grings encontrou apoio com os amigos, Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro, além de contar com a ajuda de  outros amigos voluntários, dentre os quais, Aparecida de Lourdes Dezena Cabrelon.  

Com um mapa nas mãos, o grupo partiu de Águas da Prata (SP) e foi traçando um caminho que chegasse até Aparecida, privilegiando a rota mais lógica e que atendesse ao perfil do peregrino, e sem interferência política.  O apoio do poder público, através das prefeituras e das igrejas, que foram contempladas no roteiro que traçaram, foi logo reconhecido a partir de um contato do grupo com prefeitos e párocos das cidades, apontando os benefícios advindos do Turismo Religioso, com pousadas   trilha que Logo o grupo deu início aos primeiros contatos com prefeituras e paróquias das cidades por onde passaria a trilha e o primeiro   Caminho da Fé foi inaugurado em 11/02/2003 na cidade de Águas da Prata/SP. 

No mesmo ano, em 15 de agosto, foi criada a Associação dos Amigos do Caminho da Fé com sede na cidade de Águas da Prata/SP, composta por um Conselho Deliberativo representado pelos prefeitos integrantes e uma Diretoria Executiva que desde então subsidia todo o funcionamento da rota.

Mas o caminho não parou aí. Ao longo dos anos, outros ramais foram sendo criados. Um dos  mais longo, parte da vizinha cidade de Franca, com 624 km,  passando  por nove cidades paulistas e mineiras, por estradas vicinais, trilhas, bosques e asfalto e pela Serra da Mantiqueira. Seguindo sempre as setas amarelas, o peregrino vai reforçando sua fé, saúde física e psicológica e integração do homem com a natureza, privilegiada com paisagens deslumbrantes, enfim, superando as dificuldades do Caminho, que é a síntese da própria vida.

Em 19 de marco deste ano, Dia de São José, padroeiro de São José do Rio Preto (SP), foi inaugurado o Ramal São José que, de acordo com a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, é o percurso mais longo, 894 km. O ramal São José, tem como  ponto de saída a Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, na cidade de São José do Rio Preto (SP) e o   trajeto total passa por 37 municípios.