Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1751 - 30 de Outubro de 2020

Morre o Capitão Zé do Carmo

Edição nº 1748 - 09 de Outubro de 2020

José do Carmo Martins, mais conhecido como Carmo do Cerea ou Tio Carmo, morreu aos 86 anos, na manhã dessa terça-feira 6, no Hospital da Escola (UFTM) em Uberaba, onde estava internado desde o dia 1º de outubro.  Há alguns anos, José do Carmo vinha apresentando problemas de saúde, até em decorrência da idade. Embora nos documentos registre 86 anos, a esposa Maria Benedita, de mais de 50 anos de união, afirma que ele teria mais de 90. 

 

“Ele tem de 90 anos pra mais. Antigamente os pais não registravam os filhos, era só quando iam casar. E assim aconteceu com ele, foi batizado e registrado já adulto, quando nos casamos, e ele não era novinho não”. Somando-se ainda as árduas lutas nas fazendas e outras lidas é natural que o corpo se curve.

De acordo com o filho, José Aparecido Martins, há pouco mais de um ano seu quadro clínico veio se agravando. “Cada dia aparecia uma doença nova, até que apareceu uma hérnia, uma úlcera no estômago e, por fim, uma trombose abdominal, ele sentia muitas dores. Cirurgia era arriscado, mas mesmo assim ficamos aguardando a vaga, o que era muito difícil pela idade. E ele foi seguindo o tratamento. Chegou-se até a suspeitar de um câncer, mas graças a Deus não era”, explica o filho. 

Para agravar o quadro, José do Carmo levou um tombo e sofreu uma fratura no fêmur. “Papai, apesar de doente, não parava, ele não conseguia ficar quieto. No domingo (27/9), por volta das 6h30 da manhã, ele levantou e levou um tombo. Mamãe e meu sobrinho, que fazia companhia para eles, estavam dormindo (...) Ele foi levado para a Santa Casa, onde permaneceu até a quinta feira, aguardando vaga para fazer a cirurgia na perna.  Marcaram a cirurgia para o sábado, mas como ele estava muito fraco, adiaram essa segunda-feira 5. Ele chegou a ser levado para o centro cirúrgico às 8h, mas como o coração estava muito fraco, voltou para o quarto. Fizeram os procedimentos e ele deu uma melhorada. Meu irmã foi para o Hospital da UFTM pra revezar e eu retornei para Sacramento, já à noite, quando foi 5h40 da manhã, meu irmão ligou...”

O Corpo de José do Carmo foi trasladado para Sacramento e velado na Capela de São Geraldo, cujo terreno, ao lado, foi doado pelos seus sogros, Colode e José Carreiro, e com isso ele foi à luta na preparação da área para construir um barracãozinho, que serviu de capela durante muitos anos.

 

O prefeito Wesley De Santi de Melo decretou luto oficial de três dias e seu corpo foi coberto pela bandeira do município e de várias outras entidades que estiveram presentes, Cerea, Guarda de São Bnedito, Congada e Moçambique, Associação das Folias de Reis e, fechando os tributos, a Companhia de Santos Reis Nova Estrela, que havia feito sua última cantoria em maio de 2019, reuniu-se para despedir-se de seu Capitão. Após as exéquias proferidas por padre Antonio Calos Santos, foi sepultado no Cemitério São Francisco de Assis.

 

José do Carmo: o marido, o pai, o avô, o companheiro

 

Filho de João Quintino Martins e Francisca Luiza de Jesus nasceu no povoado do Bananal, conforme o registro,  no dia 19 de março de 1934. E, desde cedo, conheceu a fé católica e a devoção aos Santos Reis por intermédio de sua mãe, que era rezadeira. Estudos na infância não houve. Na verdade José do Carmo aprendeu a ler e escrever na década de 1970, no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). 

Profissionalmente, fez de tudo um pouco, desde candeeiro (pessoa que vai à frente do carro-de-boi), às lides rurais, nas lavouras de café no Estado de São Paulo, dentre outras como ordenhador e servidor público a partir de 1981, trabalhando na limpeza até se aposentar. 

José do Carmo casou-se com Maria Benedita, mãe de dois filhos da primeira, e criou-os como seus:   António Inácio e José Eurípedes (in memorian ) e vieram mais quatro para completar a família: José Aparecido, Maria Aparecida Martins, Maria das Graças e Lázaro Aparecido. E a família cresceu ainda mais com os genros, noras, 18 netos e 13 bisnetos.  

Para o filho José Aparecido, José do Carmo foi exemplo de luta pela vida e deixa um legado muito grande. “Temos muitas e só coisas boas para lembrar dele. Além de pai, ele era amigo, companheiro, nos ensinou muito e nos deixa um grande exemplo de fé e esperança. Ele sempre tinha Deus e Nossa Senhora na frente, por mais difícil que fossem as coisa, nunca o vi reclamar”. 

Maria Benedita lembra que Carmo era a paciência em pessoa. “Falava baixinho, era o 'pai da paciência', tinha muita sabedoria e era um homem de muita fé...”. José do Carmo, que teve problema com o álcool,  há muitos anos venceu a bebida e se tornou referência no  Cerea, frequentando as reuniões enquanto pôde, dando o  seu testemunho de vida e recuperação. 

 

José do Carmo era um guardião da história...

Sacramento e vários segmentos ficam órfãos. José do Carmo era o   guardião das histórias das Folias de Santos Reis, do Congado, do Moçambique, do Cerea, da Irmandade do Santíssimo, do seu bairro São Geraldo, onde era o 'Ti Carmo', respeitado e ouvido por todos. 

Na Folia de Santos Reis começou aos 10 anos de idade, participando da Embaixada dos Santos Reis, do capitão Agenor Rufino na região das Palmeiras e nunca mais parou. Depois de aprender com os capitães as passagens bíblicas, foi convidado para ser o capitão. Mesmo sem saber ler e escrever, aceitou o convite e passou a fazer os versos e entoar as rezas da folia com muita devoção.  Os instrumentos, caixa, pandeiro, cavaquinho e violão, aprendeu observando os demais foliões tocar.  

Já no Cerea,  passou a fazer parte da  Companhia de Santos Reis Nova Estrela (conhecida como a Folia do Cerea),  fundada pelo cereano Agustinho Rosa Brás, da qual,  há muitos anos era Capitão e a comandou até maio de 2019, quando houve a última cantoria.  José do Carmo, o grande guardião da tradição dos Santos Reis em Sacramento, além de Capitão, era membro ativo da Associação do Santuário de Santos Reis.  

No Congado e Moçambique, José do Carmo começou ainda criança, cantando pra Nossa Senhora do Rosário com o José Santana, um dos grandes congadeiros de Sacramento. Durante um tempo as festas acabaram e   foram resgatadas com Divino Inácio e Vó Tonha Rainha Antônia Maria de Jesus) e outros, dentre eles, lá estava José do Carmo, que se tornou o mais longevo capitão moçambiqueiro da cidade e que deixa um grande legado para a atual e as futuras gerações. 

No bairro São Geraldo, onde residiu por muitos e muitos anos, José do Carmo foi um líder nas rezas e nas melhorias do bairro, com o apoio e ajuda  das vicentinas da Conferência Santa Madre Cabrine, Blandina Maria Alves, Messias Guilhermina Gomes, Júlia Mateus Terra, Sônia Maria Borges, dentre outras, que, juntamente com os missionários redentoristas, Pe. Júlio Negrizzolo (1970/1972 e 1975/1978), Pe. Sebastião Reis (1981) e seminaristas, quando então o  bairro ganhou o nome de São Geraldo, melhorias nas residências e a construção do primeiro barracão que se tornou a Igrejinha de São Geraldo, que hoje é a imponente capela inaugurada.  

As terras onde está a capela pertenciam a Claudemira Vicência de Araújo (Colode) e José Francisco (José Carreiro), pais de Maria Benedita, esposa de José do Carmo e com isso ele foi à luta na preparação da área que ganhou o barracãozinho que serviu de capela durante muitos anos. Por ocasião da inauguração da Capela no ano passado, José do Carmo em entrevista ao ET, recordou: 

“Divino Inácio era meu braço direito no trabalho aqui. A gente tirava água da cisterna lá de casa, carregava até aqui pra fazer o adobe, pra levantar a capelinha. Era uma dificuldade. Foi quando as vicentinas começaram uma campanha para conseguir o material, tijolos, areia, cascalho. E assim nasceu o Salão Comunitário, que depois virou Capela...”, disse. 

Após a inauguração da bela capela disse ao ET com os olhos lacrimejando: “Graças a Deus, eu pude ver a nossa igrejinha pronta, fiquei satisfeito demais. É muita felicidade”.

Por tudo o que representa para Sacramento, José do Carmo foi um dos homenageados pela Câmara Municipal, na festa dos 300 anos de Zumbi, em 1995, por indicação do saudoso vereador Heliodoro Garcia de Rezende e, em 2011, recebeu a maior honraria do Município, a Comenda de Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento em 1º/9/2011 (decreto nº 213), outorgada pelo prefeito Wesley De Santi de Melo. 

 

Este é um pequeno resumo da vida e atuação de José do Carmo, cuja história daria um livro... 

Depoimentos reconhecem grandeza de Zé do Carmo
* Maria das Dores Fontoura Silva, moradora no São Geraldo há 42 anos, sempre conviveu com José do Carmo e sabe da sua luta pelo bem todos ali. Como responsável pela Capela, afirma que decidiu por conta própria que o velório seria na capela. “Falei para a família que não precisaria falar com ninguém que eu dava a permissão. Isso era a única coisa que eu poderia fazer por ele, porque ele faz parte da história desta capela. Nós mais velhos aqui todos sabemos do seu trabalho e ele deixa um exemplo muito grande para nossa comunidade. Se nós que ficamos, tivermos ao menos um dedo do exemplo que ele nos deixa, vamos poder viver bem. Vai deixar muita saudade e vai fazer falta, porque ele era um tipo de pessoa, que quando chegava pra chamar a atenção de qualquer um, a gente sabia que estávamos errados. Ele chegava, conversava serenamente, baixinho, fosse criança, adolescente, idoso e todo mundo o ouvia caladinho. Era muito respeitado”. 
* Delcides Tiago Filho (Cid) - “Tio Carmo deixa-nos um grande legado. Ele nos deixa muitas coisas boas, que nos ensinou com a sua simplicidade, o seu amor e a sua fé. Ele dizia que tinha poucos estudos, quem dera que todos tivéssemos o conhecimento e a sua sabedoria Que tivéssemos o amor e a capacidade de ensinar e servir que ele tinha. Nunca ouvi dizer que ele tivesse maltratado alguém”, afirmou, enaltecendo seu papel de líder na comunidade e enumerando os vários cargos que ocupou em entidades como nas Congadas, Folias de Reis, Cerea, Irmãos do Santíssimo...
* Para  José de Freitas, integrante da Folia do Cerea, a morte de José do Carmo é uma grande perda, porque não se encontram mais capitães. “Perdemos nosso grande Capitão. Por falta de integrantes, a folia do Cerea deu uma parada... Nossa última cantoria foi no Encontro de Folias de Reis em maio de 2019. Carmo que já andava meio adoentado teve de parar e nunca mais cantamos. Agora temos que ver como vai ficar, porque não temos um Capitão. Mas hoje aqui vamos cantar pra ele”. 
João Pereira dos Reis, garante que não vai deixar acabar. “Aprendemos muito com o Sr. Carmo, que era  o vice-presidente da Associação. Uma grande perda porque era muito presente, muito participativo, muito devoto. E nós que ficamos, por ele e para as futuras gerações, temos que continuar mantendo a devoção, formar novos capitães. Não podemos deixar acabar nenhuma folia de Reis de Sacramento”. João Pereira finaliza ressaltando que a folia de Reis teve três grandes perdas este ano: Polaco, Waltercides e  agora José do Carmo”.
* Padre Antônio Carlos Santos, pároco da Matriz de Nossa Senhora da Abadia, ao proferir as exéquias - “Para nós que estamos aqui, um exemplo de uma pessoa que viveu de forma correta e justa é o sr. José do Carmo. Mesmo diante dos percalços e das dificuldades que ele tinha, a sede de Deus e de servir, de modo muito particular, o fez o homem justo e um homem de fé, que procurava sempre voltar as coisas para Deus. E não dizemos isto, porque estamos diante do seu cadáver, mas pelas virtudes cultivadas na sua vida. Na minha experiência de convivência com ele, pude perceber, que era um homem de fé e que mesmo diante de suas limitações financeiras estava sempre pronto a ajudar a igreja e a comunidade. Que fique esse legado, esse testemunho do sr. Carmo para a vida de cada um de nós, particularmente de sua família”. 
* Alice Maria de Jesus Inácio Silva, coordenadora da Irmandade do Santíssimo Sacramento - “Convivi pouco com sr. José do Carmo, mas ele deixa um legado muito grande, porque está na Irmandade há muitos anos e participava muito bem. Saía lá do São Geraldo e vinha para as celebrações e reuniões, era muito presente.  Ele tinha muito amor pelo Cristo Sacramentado, aliás, tudo que ele fazia era com muito amor, muita dedicação. Era um testemunho de vida muito grande para todos nós. Por onde ele passou deixou exemplos. Se cada um seguisse, pelo menos um desses exemplo, viveríamos num mundo muito melhor. Mas com a idade, os problemas de saúde, teve que se afastar e chegou a sua hora. Agradecemos a Deus pelo tempo que viveu entre nós, mas temos a certeza de que ele já está ao lado do Pai e da Mãezinha, como ele chamava Nossa Senhora”.
* Padre Ricardo Alexandre Fidelis - “Não cheguei a conviver com ele, mas ouvi falar muito dele e falar muito bem e nós como comunidade nos unimos em oração, agradecendo a Deus pelo dom da vida do Sr. José do Carmo, pelos anos de vivencia da fé, de compromisso cristão e dedicação  na vida da comunidade. E vamos celebrar missas em sua memória, não só no sétimo dia, mas ao longo dos próximos dias, inclusive no domingo, às 7h da manhã, que ele participou durante muitos anos com o Coral do Cerea. Esta será a nossa forma de homenageá-lo e pedir a graça de Deus, a misericórdia divina em seu favor”.