Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1751 - 30 de Outubro de 2020

Maura Almeida e as Fagulhas de História do Triângulo Mineiro

Edição nº 1751 - 30 de Outubro de 2020

Na edição nº 281, de 17 de março de 1985, o ET publicou uma entrevista com a escritora sacramentana, Maura Afonso Almeida Rodrigues, para falar sobre o livro, ‘Fagulhas de História do Triângulo Mineiro’ lançando na ocasião.  

O livro é um registro de muitas histórias ocorridas desde o início do povoamento de toda esta região, com destaque para Sacramento, de onde, em recentes publicações, na coluna, ‘Os prefeitos do bicentenário’, resumimos o trabalho administrativo daqueles bravos homens.

Veja a entrevista que fizemos com a escritora no lançamento do livro. 

 

 

 É um trabalho minucioso. Paciência e pesquisa são fundamentais. Mas nada disso falta à Sacramentana Maura Afonso Almeida Rodrigues, 52 anos, uma vicentina que educou sete filhos alheios e que desde criança cultiva uma curiosidade muito grande com fotos e documentos antigos, de parentes e amigos, sobre a desconhecida história de Sacramento.

O trabalho verdadeiro e a decisão de deixar suas pesquisas num livro, nasceu quando fez a árvore genealógica da sua família, onde encontrou raízes antiquíssimas e a certeza de que no fundo as famílias de Sacramento sempre se encontram.

Recentemente, em Sacramento, fomos encontrá-la hóspede do irmão Antônio Afonso de Almeida, à volta de suas pesquisas e relíquias preciosas: uma infinidade de fotos e documentos que cultiva com um carinho imenso, recompondo minuciosamente os laços familiares de várias gerações. Foi quando nasceu esta entrevista.

 

ET – Há sempre um grande objetivo por trás de um projeto...

Maura – E o meu, em primeiro lugar, é divulgar o que nós temos de história e que está como que, sepultado. Muitos dizem que Sacramento não tem sua história, ou que não a conhecem. Pois eu digo que tem e muita. O que estamos precisando é de uma união maior de todos que se propuseram a fazer essa história, mas que acabam engavetando.

 

ET – Como é essa história de, no fundo, as famílias sempre se encontram?

Maura – É claro que isso não é uma regra. Houve com o passar dos anos muitas migrações para Sacramento, mas as famílias tradicionais do município tiveram troncos comuns. Minha família, por exemplo, somos os Afonso de Almeida e viemos dos Afonso da Silva. Os Fernandes de Oliveira também são Fernandes de Almeida hoje. Temos Araújo, Cunha e muitas outras. O fundador de Sacramento, Cgo. Hermógennes Cassimiro de Araújo é nosso parente.

 

ET- Quando começou a genealogia?

Maura -  A linhagem de nossa família inicia com a união do capitão bandeirante José de Almeida Ramos e a índia Rita Maria de Jesus. Esta foi a primeira família que deu origem aos Afonso, Gonçalves, Almeidas, Fernandes, Araújo... Tia Otanira Afonso, falecida recentemente, e Tia Enelzira Afonso Vieira são os últimos descendentes na linhagem direta desse capitão com a índia.

 

 

ET – Falando em falha, a senhora dá uma outra versão do início do povoado do Desemboque.

Maura – O que se ensina é que o Desemboque surgiu a partir de Bandeiras vindas de São Paulo. Mas, na verdade, o povoado nasceu a partir de 1733, quando o Governador das Minas Gerais autorizou a construção ou abertura de uma estrada que deveria partir do centro das Minas Gerais e atravessar em linha reta todo o sertão da Farinha Podre, rumo à Goiás. Com receio dos índios Araxás, a comissão modificou o traçado original, desviando na direção de Sta. Fé Paulista, até se acomodar nas barrancas do aurífero rio das Abelhas, hoje Rio Araguari.

 

ET – Há muitas histórias interessantes que virão à tona junto à história principal do crescimento e desenvolvimento da cidade.

Maura – E são fatos interessantíssimos mesmo. Como o de Tia Almerinda, criada com os filhos de Joaquim Afonso de Almeida – Kinka Afonso – que foi encontrada num buraco de tatu. Sua mãe deu-a à luz no meio do mandiocal, e a colocou num desses buracos de tatu e cobriu com terra. Mas os seus gritinhos sufocantes foram ouvidos pela vovó que desenterrando-a tomou-a nos braços para sempre. Foi irmã de leite de Antenor Afonso. Era a preta Almerinda Afonso de Almeida (Nega da Vicência).

 

ET – Vejo que há uma satisfação e um amor muito grande na reconstituição desses fatos, Da. Maura.

Maura – Amar e viver são enormes grandezas que têm a mesma definição. A coragem de recomeçar todos os dias desde as tribos mais primitivas, a cultura vem sendo cuidadosamente ensinada à cada geração seguinte. São ideias, sentimentos, ações, técnicas... Há sinais e símbolos importantes na cultura, mas a linguagem escrita, de todos os retratos, é o mais eloquente. É revelação viva da alma. E para continuar vivo o passado aqui está o presente, este meu trabalho.