Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº1733 - 26 de Junho de 2020

Longe dos olhos, perto do coração

Edição nº 1731 - 12 de Junho de 2020

Transvivenciou o amigo querido, Ariston, o Beduíno Nuporanga. Nossa amizade durante muitos anos foi imensamente fraterna, até que um dia ele saiu de vez da convivência ao deixar sua cidade natal para ocupar o primeiro escalão da governança da vizinha Conquista. Para quem pensava que o tempo e a distância fizessem valer o adágio, “Longe dos olhos, longe do coração”, para nós, o vínculo indissolúvel que criamos com o jornal O Estado do Triângulo desde 1968 e, antes dele, com 'A Marcha do Estudante', periódico mimiografado editado pela União Estudantil Sacramentana (UES), naqueles bons tempos em que a militância política da juventude secundarista era de verdade muito mais aguerrida, nos fizeram contrariar o velho ditado para, 'Longe dos olhos, perto do coração'. Razão para estampamos na capa do ET a justa homenagem a sua pessoa como 'presidente de honra' de nosso hebdomadário.

 

A última vez que o vi, se não me falha a já frágil memória, foi há alguns anos, convalescendo-se em sua casa por conta de um problema de saúde. Me perguntou com sua voz debilitada, uníssona, se poderia ser portador de sua coleção encadernada do 'Tribuna de Conquista', tabloide que fundou logo que chegou àquela cidade, à então prefeita, Vera Guardieiro. Respondi: 'Morra primeiro, depois falamos de sua herança'. Sorrimos juntos e ali nos despedimos para muitos outros encontros, não mais pessoais, sempre por telefone. Assíduo leitor do ET, não perdoava atrasos na entrega dos Correios. Preocupado, ligava para saber o motivo. 'São os Correios, nosso pasquim continua firme, sempre à cata da verdade factual, no dizer de Hannah Arendt', respondia eu. “Mas o que é a verdade?', contra argumentava, citando Cristo.  Uma filha casava, um neto nascia, uma notícia mais trágica, sua veia jornalística aflorava com uma pequena nota. Grande e inesquecível companheiro. 

 

Ariston foi um grande jornalista, de verve fácil, eloquente, crítico, cheio de um humor causticante, que atazanava a vida de homens públicos e da machista e conservadora sociedade dos anos 60, 70. Com seu codinome, Beduíno Nuporanga, deixou crônicas memoráveis “às suas senhoras”, como aquela 'Na Zona de Segurança Nacional', sob a edição do Ato Institucional nº 5: 

 

“Sei, não minhas senhoras!... A gente não é nádegas de índio das rebarbas do Amazonas, mas já vem sendo comentado em condições idênticas (...) Se a gente não plantar as botas até lá pelos anos 70, ainda vai ver muita coisa aqui na 'terrinha', inclusive quando for enquadrada na zona de segurança nacional, o que deve acontecer antes da saída do 'Seu' Artur da Costa e Silva, tendo em vista ser berço de grandes potências hidrelétricas, como Jaguara, Estreito e Peixotos, mais visadas do que deputado subversivo...”.

 

Mais comedido (depois da edição do AI-5 no finalzinho de 1968, quando Médici instauraria a partir de 69 um dos mais sangrentos períodos da ditadura) assim como todos nós, o jornalista passa a assinar a coluna 'Objetiva', com notícias e fatos da sociedade. Volta e meia retomava o Bedu.

 

O jornalismo para Ariston foi sempre um hobby, um apaixonante hobby, jamais ganhou algum dinheiro com ele. Naqueles insipientes anos do ET, jovens e idealistas, buscávamos 'a direção escondida de todas as coisas', 'a construção de um mundo melhor', temas explorados na peça, 'Alienados', que escrevi no final dos anos 70 para as alunas do Magistério. Foi censurada. Mesmo assim apresentamos. Eram os “anos rebeldes” para uns e “anos de chumbo' para outros. Gritávamos todos, “A UNE somos nós! A UNE é nossa voz!!”. Ariston esteve várias vezes na PF para prestar esclarecimentos; eu fui preso pela PM; o redator chefe, Alberto de Souza Vieira (Bertim) quase engoliu uma edição inteira do ET. Vale um parêntese: Bertim foi outro monstro sagrado que está para sempre na história do ET.

 

Em crônica escrita pelos 40 anos do jornal, referindo-se a Ariston, o colega elogiou: “Ariston foi autor de uma das mais criativas colunas que este jornal já teve, assinada com o pseudônimo, Beduíno Nuporanga”. Nesse texto Bertim lembra também um fatídico sábado em que estava no escritório de seu pai, o inesquecível Alberto Vieira, separando os jornais para remessa, quando entra o então prefeito da época e desabafa em cima do jovem foca: “Se você voltar a publicar matéria com esse mesmo tom, vou te fazer comer uma edição inteira do jornal. E sem tempero!!!”. Prossegue o então Redator Chefe, informando que Ariston, já em Conquista, o socorreu para evitar futuras indigestões. 

 

Entre tantas reminiscências, noutra entrevista memorável que fiz com Bertim, após os trágicos acontecimentos de 1976, ele lembra de um começo “tragicômico” quando o deixei, em 1975, como editor responsável pelo ET por conta de uma temporada na Europa.  “A primeira edição que fiz sem você, tirei o nome do Ariston do Expediente do jornal (Ariston tinha se mudado para Conquista – grifo meu) e botei o meu como Diretor Presidente. O nosso talentoso 'Beduíno' soltou cobras e lagartos... com a maior razão, mas depois voltou a ser uma força novamente, perdoando o 'foca' que o ofendia”. Daí eu digo: 'Ele deveria ter sido 'Personalidade do Ano'. “Dá década”, responde Bertin. Bons e inesquecíveis tempos.

 

O rico legado de Ariston dão livros cheios de histórias. Começa com o Estado do Triângulo e termina com o Tribuna de Conquista. Nesses veículos deixou estampada a luz que iluminou sua saga jornalística, de vasculhar, entrevistar, remover, contar as conversas, confabular e despejar em linhas, como dizia, “mal traçadas” seu carinho e amor por ambas as cidades. 

 

Lamento a transvivenciação do amigo querido. A morte é sempre dolorosa, um transe para os que ficam. Relutamos em deixar a vida, a luta, aqueles que amamos, a peregrinação de caminhantes eternos sem termos ainda nos cansado. Nos consola São Paulo, para quem “o morrer é lucro”. Acho que ele quis dizer que alcançar a plenitude do amor de Deus é maravilhoso.

 

PS - Amigão, aproveita e cria aí no céu um tabloide, ‘Notícias do Paraíso’. Não, melhor, ‘Tribuna do Paraíso’. Não faltarão escribas. Pega logo o Beirão (Nirlando), que chegou aí um pouquinho antes de você. 

(WJS)