Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Igrejas do Desemboque, um patrimônio de 277 anos, vão ser restauradas

Edição nº 1735 - 10 de Julho de 2020

O povoamento da região atualmente denominada Triângulo Mineiro se deu a partir da povoação do Desemboque, importante centro colonial, hoje distrito de Sacramento. Toda essa região, habitada inicialmente pelas tribos indígenas caiapós e araxás e pelos negros agrupados nos diversos quilombos, permaneceu praticamente inexplorada até as primeiras décadas do século XVIII quando originou-se e floresceu a civilização mineradora. O historiador Antônio Borges Sampaio, em 'Uberaba, história, fatos e homens' fixa a data a data de fundação do Desemboque em 1743. Já Waldemar de Almeida Barbosa, em seu 'Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais', faz constar outra data, 1759.

O antigo arraial das Abelhas, atual Desemboque, cujo topônimo vem do verbo desembocar, devido a duas rotas de bandeirantes, uma de São Paulo, outra de Minas que ali desembocavam, teve seu desenvolvimento impulsionado pela sua situação geográfica. O arraial passou a abrigar toda a sorte de aventureiros que, fugindo aos registros oficiais dos caminhos, usavam a povoação como entroncamento nas rotas de contrabando e comércio para São Paulo e Goiás. Ali foram construídas duas igrejas, a Matriz de Nossa Senhora do Desterro e a Igreja dos Negros de Nossa Senhora do Rosário, que iniciam em breve a sua restauração, com projeto do arquiteto Clayton Carili.

 

Igreja de Na. Sra. do Desterro


Informe  Histórico

São poucos os elementos documentais referentes às obras da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro desconhecendo-se os possíveis autores do projeto, assim como os autores da ornamentação interna.

Pelas características arquitetônicas que o templo apresenta, pode-se concluir que sua construção tenha-se iniciado em meados do século XVIII, tendo o altar-mor inscrição datada de 1762, passando por sucessivas reformas por todos os séculos XIX e XX.

A primeira notícia documental, até agora encontrada, faz referência a uma dessa reformas iniciada em 1851, quando é nomeada uma comissão responsável pelo andamento das obras, formada pelo vigário Conego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswick, por José Maria Cassimiro de Araújo e José Manoel da Silva e Oliveira. Essas obras se prolongam até 1861, devendo já estarem concluídas, pois nesse ano encontra-se uma contribuição de 400 mil réis do governo provincial, sendo a última encontrada no códice, neste sentido.

 

Análise Arquitetônica

A Igreja obedece a planta simples constituída de nave, capela-mor e sacristia lateral única, à esquerda. Apresenta sistemas construtivos diferenciados para nave, capela-mor e sacristia, que parecem ser de origem posterior. Largas paredes, em pedra para o frontispício, taipa para as laterais da nave e capela-mor e estrutura autônoma de madeira com vedação em adobe para a sacristia. Detalhe curioso é o pequeno vão existente entre o corpo da nave e o da sacristia, deixando bem marcada esta diferenciação. 

A ausência de torres é compensada pela existência de sineira isolada, numa curiosa solução, também estruturada em madeira e vedada em adobe. A fachada, de linhas simples, parece ter sofrido intervenções posteriores, pela estranheza da composição do frontispício, que apresenta frontão semi-curvilíneo recoberto de telhas com óculo circular central interrompido na parte inferior por cimalha de massa; cunhais também em massa, porta principal e duas janelas à altura do coro com verga em arco abatido. 

A cobertura é em duas águas e as beiradas laterais da nave e sacristia em cachorros e da capela-mor em beira e bica.

Internamente, possui lajeado de pedras no piso átrio, batistério, presbitério além de soleira junto ao interessante cancelo da nave, que vai fechando em direção ao arco cruzeiro de forma trapezoidal.

Tabuado largo nos pisos da nave, capela-mor, coro e cimento sobre pedra na sacristia. Ausência de forro na nave e substituição do Taboado original da capela-mor por friso. Presença de púlpito na ilharga da nave, pia batismal em pedra sabão e balaustradas de madeira recortada.

 

Análise Artística

Em seu interior existem cinco retábulos, um púlpito, arco cruzeiro, pia batismal e balaustradas. 

O retábulo do altar-mor foi feito em um estágio e cobertura. Esta possui forma trapezoidal tendo ao centro, sobre o vidro, uma tarja folheada com a inscrição 1762 e nas laterais, sobre a cornija estão quatro colunas de fuste estriado e capitéis trabalhados. 

O terço inferior, de dimensão desproporcional, foi trabalhado em estrias verticais contínuas. Sob as colunas estão mísulas que saem em relevo com alças e, entre as mesmas colunas, estão colocados nichos inteiriços com dossel, cortinado e peanha bojuda. 

Abaixo de cada nicho lateral abre-se uma porta e, ao centro, encontra-se a mesa recortada com decoração simétrica no frontal, tendo sobre ela o sacrário e por trás o nicho que se abre até a cobertura. Esse nicho central possui rendilhado nas bordas e trono de quatro degraus. A concepção desse retábulo é personalíssima e característica desta região onde os modelos estilísticos eram tomados apenas como ponto de partida. A falta de recursos econômicos e de mão de obra especializada fez surgir uma marca própria.

Os retábulos laterais e colaterais seguem essa mesma linha, não possuindo nichos laterais ou colunas, mas contendo, em compensação, uma pintura com motivos florais e vazados, mais característica do estilo erudito.

O púlpito é simples, em caixa retangular com grande escada. O arco-cruzeiro, em massa, apresenta frisamento em madeira apenas no arco. A pia batismal é torneada em pedra-sabão e as balaustradas são em madeira, com balaústres recortados e vazados.

 

Igreja de Na. Sra. do Rosário

 

Informe Histórico

Embora não fossem localizados elementos documentais referentes à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, presume-se, pela análise da decoração interna e da estrutura arquitetônica que a compõe, que sua construção seja do final do século XVIII ou início do século XIX.

 

Análise Arquitetônica

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é de grande simplicidade arquitetônica. A planta é composta de nave, capela-mor e sacristia lateral única, à direita. 

A estrutura, autônoma de madeira e vedação em adobe, apresenta no corpo da nave, embasamento de pedra até o nível do coro; cobertura em duas águas e beiradas em cachorros. A fachada, bastante singela, apresenta porta principal e duas janelas, de parapeito entalado, com verga alteada e pequeno óculo circular na empena, sendo o enquadramento dos vãos em madeira.

Internamente, a ausência de forro em todos os ambientes, com presença de púlpito e coro. Os pisos originais da nave e capela-mor foram substituídos por cimento. Curiosamente, em lugar do arco cruzeiro existe apenas um grande vão, com verga reta, que sugere intervenção posterior.

A Igreja fica situada em uma esplanada, seu entorno é um gramado natural e do local, percebe-se ampla e belíssima paisagem que a envolve.

O maior valor do monumento está em integrar o conjunto paisagístico e arquitetônico do pequeno arraial remanescente do período colonial e minerador.

 

Análise Artística

A ornamentação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário é das mais simples, consistindo apenas no retábulo do altar-mor e no púlpito do lado do Evangelho. O retábulo é dividido em três estágios: o inferior possui mesa lisa, ressaltando contra fundo também liso, ambos pintados de tinta branca brilhante, sendo criado o contraste através da colocação das tábuas em sentido vertical no fundo e horizontal no frontal da mesa. 

O estágio mediano é também composto de fundo liso, vazado ao centro para o nicho que possui trono com quatro degraus, rendilhados e simétricos nas bordas e arco pleno de cobertura invadindo estágio superior.

Nas laterais, existem quatro colunas, entre elas estão aplicados dois nichos inteiriços com base alongada e coroamento. Finalmente, o terceiro estágio, pintado em azul forte possui uma tarja sobre o arco do nicho, lembrando vagamente a forma representativa de um coração e que possui quarto volutas em torno divididas simetricamente.

A data inserida na tarja, 1974, deve corresponder a uma reforma dessa época (provavelmente pintura), pois apesar da dificuldade de datação, pelo caráter popular da obra, podemos situá-la em fins do século XVIII, ou princípio do século XIX, dado a pequenos elementos e a forma de situá-los: os nichos entre laterais entre as colunas, a marcação do terço inferior das colunas e o rendilhado do nicho.

O púlpito consiste de uma caixa retangular com frisos simples e uma grande escada no sentido da capela-mor, com corrimão e arranque trabalhado de forma acanhada.

(Fonte: Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico – IEPHA – Fundação)

 

Quem é o arquiteto Clayton Carili

 

‘‘O projeto de Conservação e Restauração da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, duas igrejas de importância regional para o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, localizada no Distrito do Desemboque no Município de Sacramento, foi concluído e está sendo enviado para análise e aprovação para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais –IEPHA/MG, com sede em Belo Horizonte, visto que os bens culturais são tombados a nível e Estadual.

A equipe que desenvolveu o projeto de Conservação é coordenada pelo arquiteto Clayton França Carili, Mestre em Arquitetura e Urbanismo, especialista em Revitalização Urbana e Arquitetônica e professor universitário, proprietário do Escritório Época, Arquitetura, Restauro, Decoração e Paisagismo que há mais de 20 anos vem desenvolvendo projetos e obras de conservação e restauração na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba e Goiás, destacando 

o Projeto de Conservação e Restauração ferroviária em Araguari, prédios da Estação da Goiás e do Armazém de Cargas, Casa da Cultura, Câmara Municipal, Residência do Sr. João Nascimento de Godoy, Bens da Praça da Matriz, Conjunto Arquitetônico do Colégio Sagrado Coração de Jesus;  

Acompanhamento de obras de conservação e Restauro em Uberlândia( Museu Municipal, Casa de Cultura, Igreja do Rosário) , Projeto e Obras de Conservação da Igreja de São João Batista em Catalão/Goiás e em outros municípios como Carmo do Paranaíba e Monte Carmelo.

De acordo com o arquiteto, “as duas igrejas do Desemboque são verdadeiras joias da arquitetura mineira de nossa região sendo que a igreja de Nossa Senhora do Desterro possui características do barroco mineiro”.  Reconhecendo que o desenvolvimento do projeto de conservação das duas igrejas é uma vitória para o município, pois é o primeiro passo em busca da conservação e restauro dos bens culturais, resumiu o trabalho que foi enviado ao Iepha.

“O projeto foi composto de três etapas: 

 Levantamento arquitetônico, histórico e das patologias existentes;

  Anteprojeto com a proposta de conservação ao máximo dos elementos da igreja e retomada de alguns poucos elementos que forma descaracterizados e que devem ser retomados a configuração anterior e o uso, apesar de não ser o principal objetivo das intervenções de conservação e de restauro, garantem a vitalidade e a conservação dos bens culturais;

Projeto executivo com todas as medidas de conservação e restauro, memorial dos serviços a serem executados”.

Segundo ainda Carili, a próxima fase, após a aprovação, é a captação de recursos para desenvolver o projeto.      

“A expectativa é a aprovação do projeto possibilitando assim que o município possa posteriormente captar verbas e buscar recursos para realização das obras de conservação e restauro preservando assim os bens culturais e garantindo viva a história e memoria da formação da nossa região”.

 

 Além do projeto de restauro, foi desenvolvido também o projeto elétrico com a orientação do arquiteto pelo engenheiro elétrico Roberto Rama.