Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

A Igreja Católica na história dos 200 anos

Edição nº 1741 - 24 de agosto de 2020

Sacramento - cidade filha da Santa Igreja

Pe Ricardo Alexandre Fidélis

 

Historicamente, não há como negar que Sacramento é uma cidade filha da Santa Igreja.

Fundada e abençoada pela Santa Igreja, constituiu-se e recebeu um nome sagrado.

Procurarei, nesse artigo, reavivar lembranças, no campo histórico, da importância da fé católica

na formação desta bela cidade que hoje conhecemos e que nos abriga. Naturalmente serão vagas as

informações, haja vista que são 200 anos de presença contínua nesta terra, atuando em todos os setores

da vida religiosa, social, educacional, e cultural. Não há como abordar tudo em rápidas palavras,

mas é possível assinalar a gênese e a participação profícua e contínua da Santa Igreja na história deste lugar.

Cidade fundada em 24 de agosto de 1820 por um sacerdote católico, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswik,

que, segundo os documentos originais, deu a ela uma destinação específica: “ser lugar do pasto espiritual

das almas que buscam os inefáveis sacramentos da Igreja”. Essa foi, essencialmente, a inspirada motivação da

fundação deste lugar: ser sede de evangelização através dos sacramentos da Igreja. Toda a área que compõe a

cidade e suas cercanias foi adquirida e doada ao Santíssimo Sacramento Apresentado pelo Patrocínio de Maria

pelos pais do fundador da cidade, Capitão Manuel Ferreira de Araújo e Souza e sua esposa Joaquina Rosa de Santana.

Ele, falecido em 15/03/1829, e ela, em 16/04/1843. Ambos foram sepultados no interior da Capela do Santíssimo

Sacramento, hoje Basílica do Santíssimo Sacramento Apresentado pelo Patrocínio de Maria. Quando essa cidade se

tornou Vila, pela força da Lei 1.637 de 13 de setembro de 1870, manteve o nome original: “Vila do Santíssimo Sacramento”.

O mesmo se deu por ocasião de sua emancipação como cidade, em 1876, quando foi oficialmente denominada

“Cidade do Santíssimo Sacramento”, nomenclatura que manteve até a reforma administrativa federal de 1911.

Os dados históricos denotam claramente que a cidade se formou e prosperou no “Patrimônio do Santíssimo Sacramento”,

parte em terras vendidas, mas, a maior parte ocupada por posseiros sob o consentimento/silêncio da Igreja,

pois era vontade do fundador que aqui se desenvolvesse uma comunidade sob o Patrocínio de Maria. Desde a condição

de Capela, posteriormente Igreja Matriz e hoje Basílica, nunca faltou nesse templo a formação evangelizadora e a presença

contínua de sacerdotes católicos à frente das mais diversas atividades sociais e educacionais. Desde o século XIX é notada e

anotada a instrução escolar ministrada por padres e pessoas ligadas à Igreja. Formação moral e intelectual de sucessivas gerações.

Diversos colégios são nomeados nas antigas atas da Câmara Municipal, como Colégio Santa Rosa de Lima, Colégio do Santíssimo

Sacramento, Colégio São Luiz Gonzaga, Colégio das Irmãs Franciscanas do Egito, todos sob a administração direta de comunidades

religiosas que por aqui passaram naquela fase inicial da história. Outros colégios também de formação católica se devem mencionar

como o Liceu Sacramentano, em sua primeira fase localizado na praça da Igreja Matriz; o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, sob a

orientação da professora Sinhana Borges, e o Colégio Miranda, sob a orientação do Professor Miranda. Desde aqueles tempos até a

atualidade vêm, os representantes da Igreja, atuando nos colégios e instituições de ensino, levando cultura, conhecimento e evangelização.

Na primeira Câmara de Vereadores, instalada em 1870, já figura o nome do Padre Domingos José de Almeida como ocupante de cadeira no

Legislativo Municipal. Posteriormente, o nome do Cônego Julião Nunes, pároco da cidade, que exerceu a função legislativa por longos anos.

Desta cidade saíram muitos sacerdotes para o serviço da Igreja no Brasil e no mundo. Dois deles merecem especial destaque: Padre Vítor

Coelho de Almeida e Padre Antônio Borges de Souza. Padre Vítor, hoje conhecido como “Apóstolo de Aparecida”, tem seu processo de

canonização em curso em Roma. Sua beatificação e posterior canonização elevará grandemente o nome de Sacramento diante do mundo

inteiro. No mesmo caminho da santificação pelo reconhecimento da Igreja, está o Servo de Deus Padre Antônio Borges, sepultado em

Trindade, Goiás. Foi ele que, em 1959, deu início à construção do Seminário do Santíssimo Redentor em Sacramento, acolhendo aqui,

por décadas, jovens de todo o Brasil vocacionados à evangelização, hoje transformado no Centro de Assistência Social (CAS) Pe Antônio

Borges de Souza, que, desde 2012, atende 130 crianças e suas famílias através de uma formação integral, sob o patrocínio da Congregação

do Santíssimo Redentor e administração das irmãs redentoristas, Mensageiras do Amor Divino. É importante lembrar que a Igreja de Cristo

não se limita ao clero e aos templos. Ela se constitui na comunhão de todos, na reunião, no serviço prestado ao Reino de Deus, fundamentado

no amor ao próximo. As ações de amor à humanidade, de generosidade, desprendimento e caridade cristã praticadas pela Igreja de Sacramento

são dignas de louvor e gratidão, em virtude do bem, da formação moral, do socorro e do consolo que produzem em benefício dos menos favorecidos.

Registrem-se aqui, com deferência, o trabalho secular e incansável dos Irmãos Vicentinos pelos pobres, o abrigo benfazejo oferecido pelo Lar

dos Idosos, o acolhimento e a formação indispensáveis a tantas crianças e jovens presentes na Casa Rosa da Mata, a participação efetiva da

Igreja na história da Santa Casa desde a sua fundação. No ensejo, cabe render homenagem de gratidão e apreço às Irmãs de São José de Cluny,

que dedicaram suas vidas e seu valioso trabalho à sublime virtude da caridade, da reconstrução material e moral na Santa Casa e no trabalho

junto à CIJU. As festas e celebrações promovidas e patrocinadas pela nossa Igreja em Sacramento merecem igualmente menção e reconhecimento

como fatores de propagação da fé e da cultura da cidade. Tanto as celebrações históricas e tradicionais, que preservam a belíssima liturgia da Igreja,

quanto as mais recentes, como a Procissão Fluvial e Procissão das Velas, projetam o nome de Sacramento e dão testemunho de devoção e zelo contínuo

de sua gente pelas suas raízes. A antiga e primitiva capela, hoje a imponente Basílica do Santíssimo Sacramento Apresentado pelo Patrocínio de Maria

abriga entre suas paredes três documentos pontifícios a saber: Concessão do Papa Pio IX em 1848 dando a então Capela primitiva a Indulgência da

Porciúncula, concessão do Papa Francisco elevando-a à condição de Basílica e ainda do mesmo pontífice o decreto que determinou a Coroação

Pontifícia da imagem de Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento.

O que poderia resultar da história tão bela desta cidade, fundada e abençoada pelos desígnios de Deus? Justamente o Pasto Espiritual preconizado

por seu fundador! Um lugar em que as ovelhas engrandecem, reverenciam e rendem graças a seu Pastor, um lugar que possui uma Mãe presente e terna,

guardiã e protetora desse rebanho. Sacramento tornou-se uma grande família, onde vemos a solidariedade, a compaixão e o amor sobrepujar os seus

momentos tristes e difíceis. Um lugar em que a paz do Senhor e o amparo de Maria nunca faltam. Um lugar dedicado na sua origem à presença de Jesus

na Eucaristia e ao patrocínio de Nossa Senhora.

 

Padre Ricardo Alexandre Fidelis, Pároco e Reitor da Paróquia Basílica do Santíssimo Sacramento Apresentado pelo Patrocínio de Maria