Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Comerciante morre durante assalto em mercearia

Edição nº 1451 - 06 Fevereiro 2015

O empresário Paulo César Martins Lobato (Lambreta), 62, morreu na noite da quarta-feira 4, barbaramente assassinado com um tiro na garganta desferido por assaltantes que invadiram o seu estabelecimento, a Mercearia Lobato, tradicional ponto de comércio na rua Tiradentes, no bairro do Rosário, por volta das 20h. Paulo que foi atingido na cervical do lado direito para o esquerdo, foi socorrido por populares e chegou com vida na Santa Casa, porém não resistiu aos ferimentos, vindo a óbito. 

Uma testemunha, BCS, 31, chegava  na mercearia, no momento do fato e declarou à PM, que eram dois indivíduos, ambos de bermudas, um branco e outro mais escuro, mas devido ao seu estado emocional não soube dar mais detalhes naquele momento.  A câmera de filmagem da mercearia não gravou a ação. O filho, Paulo César Toscano Lobato, não soube informar valores que foram levados. O delegado regional, Cezar Felipe Colombari da Silva, acompanhado do assistente de necropsia, Hudson Fiuza; o perito Leandro Pereira Jordão e a auxiliar Joelma Rosa fizeram os trabalhos periciais de praxe, e encaminharam o corpo para o IML de Araxá. O corpo de Lambreta chegou ao velório por volta das 3h da madrugada e foi velado por familiares, autoridades e um grande número de amigos até o momento de seu sepultamento, às 14h, no Cemitério S. Francisco de Assis. O pároco da Igreja de Na. Sra. da Abadia procedeu a bênção do corpo.

Alternadamente, Lambreta ou o filho, Paulo César,  fechava o estabelecimento por volta das 21h e sempre  havia um amigo ou conhecido por ali papeando. Aquela fatídica quarta-feira era plantão do pai e, no momento da ação, infelizmente, estava sozinho na mercearia quando os autores o abordaram. 

A ação se desenrolou sem nenhuma testemunha. Não há certeza ainda sobre o local exato onde Lambreta foi atirado, se estava no caixa ou entre as gôndolas de mercadoria. Os vizinhos, inclusive um comerciante do outro lado da rua, foram alertados pelo estampido de um único tiro e o barulho dos carrinhos de compras que estavam na porta, que caíram no momento da fuga dos assaltantes. 

“- Eu escutei o barulho, saí para olhar e vi o B correndo e gritando: “Chama a polícia que eles atiraram no homem aqui”. Ele estava apavorado e quase foi atropelado. O Paulo caiu no passeio ensanguentado e nós o colocamos num carro de um homem que parou”, afirma ao ET o comerciante vizinho.

Narra também uma vizinha que ouviu o estampido de um tiro e o barulho de carrinhos de compra. 

“- Quando abri a porta e saí, o Paulo estava na porta e em seguida caiu”. 

Uma outra testemunha chegava à Mercearia no momento em que o fato aconteceu. Ela foi alertada pelo barulho dos carrinhos caindo ao chão e viu duas  pessoas saírem correndo e virarem a esquina na direção do Almoxarifado da PMS, informação que foi confirmada pela filha Renata. “Ele me disse que os homens saíram correndo e ele olhou para dentro da  mercearia e viu meu pai com a mão no rosto”.

O ET tentou conversar com B, que trabalha em um bar próximo, mas devido ao seu estado emocional, disse que não tinha condições de prestar declarações. 

 

Um exemplo de cidadão

Paulo Cesar Martins Lobato, mais conhecido por Lambreta, deixa a esposa de 39 anos de casamento, Dalila Ferreira Toscano, os filhos Renata Maria e Paulo Cesar (nome da esposa) e uma netinha que, amparados pela fé em Deus e o apoio dos amigos, buscam forças para superar esses momentos de dor. 

Filho de Mário Martins Lobato e Natalícia Maria de castro, Paulo cresceu no bairro do Rosário com os irmãos Rubensmar (Tatu), José Carlos (Cacau), Thaísa e Mário Lúcio (falecido). Durante 25 anos trabalhou como caminhoneiro e há 21 anos era comerciante, tendo comprado a Mercearia Toscano, do sogro, Eduardo Toscano, e lá trabalhava com o filho, Paulo Cesar Toscano Lobato.

Lambreta era um grande homem, pessoa querida por todos, amigos, vizinhos, moradores do bairro e clientes. “Papai era muito querido. Dona Oralda Manzan, falando no velório, lembrou com carinho fatos de papai com seu marido, Antônio Carlos Manzan, ainda quando papai era criança”, conta, ressaltando também a fé do pai.

“- Papai foi romeiro de Nossa Senhora D´Abadia muitos anos, ia à missa todos os domingos. Ele lia a bíblia e rezava todos os dias antes de ir para o trabalho e, na hora de dormir, ele rezava o terço. Papai  carregava no bolso uma estampinha de nossa senhora. Tinha muita fé em Deus”, explica e completa: “Papai não tinha vícios, era homem muito alegre, muito família, muito carinhoso”. 

De acordo com Renata, todo os dias havia alguém batendo papo com Paulo  na mercearia à noite. “O Marco Antonio,  Miguel, o Adriano pintor, o Adriano pedreiro sempre estavam lá e aquele dia não foi ninguém. Papai tinha mania de conferir várias vezes se tudo estava fechado na hora de ir embora. Às vezes ele fechava e abria as portas pra conferir alguma coisa”, afirma e acrescenta uma cena que aconteceu no momento, presenciada por alguém que passava.  “Uma moça me falou que passava e viu meu pai com as mãos no rosto, dois rapazes correndo pra um lado e outro correndo pra outro lado, que foi o rapaz que estava chegando lá”. 

Para a família receber a notícia é indescritível e eles não fazem ideia do que de fato ocorreu. “ A gente tinha medo. Mamãe pedia pra ele vir para casa mais cedo, pra não ficar lá sozinho”.  E o que chama a atenção de Renata foram alguns acontecimentos nos últimos dias. “Hoje, fico pensando que esses dias ele estava diferente. Ele sempre dormia depois do almoço e na terça-feira, dormiu, levantou saiu  e voltou e  me disse: 'Vou te falar o número da minha senha do cartão de minha aposentadoria'. E eu questionei por quê e  ele disse: 'Por nada'. Ainda comentei com minha mãe. E ele  foi cortar o cabelo e teria dito para a cabeleireiro, algo mais ou menos assim: 'Estou com missão cumprida...', relata emocionada, e finaliza:

 

“- Papai era 1.000%, para nós uma pessoa sem defeitos, guerreiro, trabalhador, honesto, alegre, era o nosso tudo e agora fica o vazio e um monte de perguntas sem respostas”, conclui, destacando agradecimentos todos que compartilharam da dor da família.

 

Crime abalou a cidade

O crime chocou a cidade, sobretudo o bairro do Rosário, onde nasceu, cresceu e sempre viveu. Imediatamente após o crime, as imediações da mercearia foi tomada de pessoas em busca de informações com um sentimento de revolta e indignação tomando a todos. O lamento era um só: “Quanta violência, meu Deus! O homem estava trabalhando...”.
Padre Eduardo Ferreira, que proferiu as exéquias no velório Maurício Bonatti, no seu programa na rádio Sacramento disse que  o tiro não foi só em Paulo Cesar. “Foi um tiro em todos nós. Não podemos aceitar isso como coisa comum. A morte, antecipada como foi, sem a menor chance de defesa da vítima, não é coisa comum", afirmou e clamou por justiça e melhores leis, que punam os culpados e proteja os cidadãos.
Igualmente, Pe. Sérgio Márcio de Oliveira lamentou a morte e lembrou que a sociedade vive refém do medo.  “Um sentimento de tristeza, um sentimento de desamparo. Por que, meu Deus? Minutos antes, estávamos ali há poucos metros na igreja de Nossa Senhora do Rosário, participando da missa. Essa é uma situação que choca a todos. Paulo Cesar sempre estava participando conosco na matriz. No domingo participou da  missa de inauguração da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E todos nos perguntamos,  por quê?  O que está acontecendo com a nossa sociedade, com a nossa cidade?”, perguntou o sacerdote.
Para o pároco, são perguntas que,  infelizmente,  não tem respostas. “Um pai de família, trabalhador... Como buscar uma solução, porque acredito que uma das grandes motivações para essa violência é a impunidade. A pessoa já vai para o crime pensando que pode ficar solto. Se for menor, não pode ser preso. Se é réu primário fica por isso mesmo. Hoje, prende-se cedo e solta à tarde... Precisamos de leis mais severas no Brasil, porque sabendo que será punido, eles vão pensar duas vezes. Precisamos de justiça, o sistema prisional e as nossas leis precisam ser reavaliadas. Nossas polícias precisam ser melhor equipadas e remuneradas”, afirmou.
 Na hora do sepultamento, já no cemitério, com o prenúncio de uma forte chuva que caiu justo na hora em que o féretro chegava ao túmulo, Pe. Sérgio lembrou: “Os antigos diziam que quando chove na hora do sepultamento,  a pessoa vai para o céu...”.
 Os depoimentos dos  empresários Leonardo França Amui e Augusto Silva resumem bem o sentimento da classe. Leonardo, cujo estabelecimento está a poucos metros da Mercearia Lobato, no momento não estava no seu comércio. Muito abalado, falou ao ET. “Vim correndo assim que soube. Uma perda muito grande de um amigo, colega de profissão e cliente dele. Como ficava aberto até mais tarde,  precisávamos de uma coisa aqui, a gente  corria lá. Infelizmente, estamos chegando a uma situação insustentável, uma  inversão de valores tremenda, tem que acabar com essa impunidade. Poderia ser qualquer um de nós que tem comércio ou qualquer outra pessoa. Não temos mais segurança, não temos sossego. Vivemos com medo”.
O empresário Augusto Silva postou o seu sentimento de indignação.  “Começando mais um dia de trabalho com sentimento de tristeza e revolta muito grandes, principalmente por pensar que poderia ter acontecido com qualquer um de nós comerciantes, que ficamos até mais tarde do horário comercial trabalhando. Até quando vamos ficar a mercê dos bandidos? Até quando vamos assistir bandido condenado a 100 anos de prisão sair da cadeia após três anos, devido a progressão penal? Até quando vamos ver 'adultos' de 16 anos ficar impunes por crimes brutais? Até quando vamos ver um preso custar mais caro para o estado que um aluno matriculado estudando? Até quando vamos ter que fugir de bandido? Até quando?”
PC trabalha para localizar os autores
O delegado Cezar (foto), lamentando a morte trágica de mais um sacramentano, disse ao ET que a polícia continua empenhada na investigação do crime. “Não há nada de concreto, estamos empenhados na investigação e pedimos às pessoas que, porventura, tenham visto alguma coisa ou possuam circuito de segurança que procurem a polícia, colaborem na apuração desse fato”, conclama.
A respeito de várias especulações sobre a reação ou não de Lambreta no momento do crime, o delegado respondeu que não tinha como afirmar. “Não sabemos se houve luta corporal; no local foi coletado sangue, não sabemos se é só da vítima ou de mais alguém e, infelizmente não há testemunhas. Uma coisa que temos é uma pessoa que teria visto os autores já na saída”, respondeu, alertando à população para jamais reagir a um assalto. 
“- A vítima tem que entender que o bandido  quando está armado numa situação dessa, ele está com tanto ou mais medo do que a vítima e diante de qualquer reação ou movimento brusco, ele manifesta também uma reação de defesa, o bandido encara como uma situação de risco. Mas isso não quer dizer  que Paulo tenha reagido, isso só  a perícia para  comprovar”, afirma.
 Constatada a morte do empresário, o médico liberou o corpo à família que, após preparado pela funerária, foi trasladado para o Velório Municipal, mas tão logo o delegado Cezar chegou à cidade, determinou o seu encaminhamento ao IML de Araxá, justificando a decisão. 
“- Todo crime violento enseja a necessidade do exame médico legal e da perícia. Se eu libero um corpo sem passar por esses exames, amanhã os autores são presos e vão a julgamento... E que prova teremos? Eles podem ser absolvidos por falta da materialidade do crime. Por isso, com dor no coração, tiramos o corpo que já estava sendo velado, como sabedor do direito de que essa falha poderia complicar lá na frente. Entre as questões  legal  e a sentimental, eu tenho que optar pela primeira. Não é uma atitude antipática, pelo contrário, esse laudo é a prova da materialidade do crime e tem que ser feito”, justifica.
No sentido de acalmar a população, finaliza confirmando o empenho para a captura dos autores.  “Sabemos que é um momento de solidariedade, mas também de revolta e de indignação e compartilho este mesmo sentimento com todos, porque sou um sacramentano. Infelizmente, as leis são falhas, a justiça não pode agir com rigor e temos que agir conforme a lei, mas no que depender dessa unidade de Sacramento,  tudo será feito para prender esses autores e dar um pouco de alívio à família e uma resposta à sociedade”. 
O delegado Rafael Jorge dará continuidade às investigações  com a sua equipe. “Vamos fazer de tudo para encontrar estes autores e já estamos trabalhando  em cima de alguns suspeitos”.