Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Saudades de Tutim

Edição nº 1421 - 04 Julho 2014

Matuzalém Ferreira (foto), mais conhecido por Tutim, 81, morreu no dia 22 de junho, na Santa casa De Sacramento. Tuttin que sofria de efizema pulmonar, foi internado na quarta-feira, 18, com sintomas de pneumonia e veio a óbito  no domingo, por volta das 12h30. 

Após ser velado por familiares e amigos, foi sepultado  às 10h da manhã da segunda-feira, 23, depois das exéquias proferidas pelo pároco, Pe. Sérgio Márcio de Oliveira. Tutim deixa a esposa de 59 anos de união, Valdezina (Fiúca), os filhos Sônia (Reginaldo), Sângela (Nati, falecida), Sandra (Armando), Ivanir (Solange) e Ma-tuzalém Jr (Ângela), dez netos e cinco bisnetos. 

Além da família, Tutim deixa  um grande legado, pois foi um dos guardiães da história de boiadeiros, do XIII de Maio, do Congado, além de exímio mestre de pedreiro. Uma de suas primeiras atividades, a partir dos 15 anos, foi tocar boiada com o Zé Dias, em viagens de 20 a 30 dias, tocando até 1.200 reses para Barretos, Catanduva e Presidente Prudente.  

Depois de um acidente em Medeiros, decidiu parar, mudar de profissão, indo trabalhar como pedreiro, profissão a que se dedicou por muitos anos e com gáudio olhava os prédios  que ajudou a construir na cidade: o Sacramento Clube, ampliação da Igreja Matriz, o antigo prédio da  Telefônica de Sacramento, onde é hoje a Caixa Econômica e muitas residências.

Tutim fez a diferença também na cultura da cidade,  herança  vinda  do pai José Ferreira, o Santana, general do Congado. Com a morte do pai, Tutim perdeu a graça com o Congado e foi dedicar-se ao futebol,  tornando-se  um dos  fundadores do XIII de Maio Futebol Clube, com José Francisco Pereira (Curtume), Azor Guimarães, Desidério,  Cabeleira (Antonio Pereira), Benedito e outros.

“- A gente resolveu criar o XIII de Maio, porque treinávamos  no campo dos Marianos, mas proibiram os treinos. Aí fomos para a Máquina do Adé, que hoje é dos Loyolas, lá no João XXIII. Eles cercaram o lugar e, também, proibiram os treinos. Ficamos sem   um lugar pra treinar e aí fundamos o XIII de Maio. Primeiro, ganhamos  um terreno  onde é hoje o CRES,  a  Creche Alexandre Simpson. Como precisavam do terreno, fizemos uma troca e o prefeito da época, Dr. Clemente, nos deu o lugar onde é hoje a Igreja de Nossa Senhora D´Abadia,  que também pegaram de volta. Aí, o  prefeito José Sebastião arrumou  pra nós comprarmos o terreno onde é o campo atual”, recorda, afirmando que daquele patrimônio foi doado.

“-  Nada ali foi doado. O que nos foi dado nós perdemos e compramos, então, as terras, que eram do Zé Bertulino. Dividimos a dívida e cada diretor ficou responsável por uma duplicata, que  era muito dinheiro pra nós. Até o Dr. Juca ficou com uma parte. Lembro que vendi um rádio e tirei dinheiro do bolso pra pagar minha parte”, recordou numa entrevista no ano passado, por ocasião de seu aniversário de 80 anos, frisando que o XIII de Maio começou com o futebol. 

De acordo com Tutin, o carnaval com o Cordão da Conceição, começou bem antes do Clube XIII de Maio. “O  carnaval foi iniciativa de minha madrinha, Conceição. Aliás, não tinha nem clube, nem nome tinha de XIII de Maio, era o “Cordão da Conceição”, que saia do Terreirão, no alto da Estação e descia para o centro da cidade. Depois que ela foi pra São Paulo, acabou”, recordou, registrando parte importante da história do clube. 

Segundo ainda Tutim, havia uma ligação de família entre os componentes do cordão. “O pessoal era todo ali de cima, do alto Chafariz, próximo mesmo onde é hoje o campo. E foi quando os integrantes do Cordão da Conceição decidiram reiniciar o carnaval com o nome de XIII de Maio e onde, mais tarde nasceu o clube”, conta, ressaltando que nunca desfilou no Carnaval, mas já tocou muito nos antigos carnavais da cidade, na Banda do Carabina.

Pelo seu legado,  Tutim partiu com a  certeza do dever cumprido e sue nome ficará para sempre nos anais da história da cidade.

 

O boiadeiro que foi para o sul 

O céu apresentava uma coloração cinzenta do amanhecer, e, no alto do morro do Zagaia, ainda havia relampejos do dia, quando ele chegou. O rosto era metade imóvel, petrificado... a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio sorriso. O rosto ainda sem barbas devido a pouca idade. Nos lábios o cigarro estava no fim e não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos.  O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava com o chapéu opaco. O terno estava em uma das mãos. Havia uma ingenuidade combinada com franqueza que era cortante. A camisa e a calça em suave harmonia. Tinha as barras das calças salpicados de barro. O sapato estava enlameado. Andara. Parou diante do poste e observou. O Zagaia parecia um enorme animal que emitia entre sussurros e choro de criança, um ruído peculiar. Um silvo de três toques. Coruja? Caga-sebo? 

Não...era a boiada, saindo da porteira do cercadinho subindo para a baixada. E foi neste dia que ele voltou. Matusalém, o menino Tutim. Havia ido levar a boiada para o estado de São Paulo e realizar o sonho de montar em boi bravo em Barretos. O boiadeiro que foi para o sul. Mas as fortes presenças da espiritualidade dos ternos de Moçambique o buscaram. Era comum em sua família. Voltara para, juntamente com o “Vô Santana”, liderar as manifestações dos ternos de Moçambique pela cidade. Afilhado de fogueira do mestre calceteiro, Temistocles Rufino. Juntamente com o amigo “Mandino” liderou gerações de Moçambiqueiro na coroação da rainha “Xinga”, era proibido... Mas faziam assim mesmo... Escondido. Mas o boiadeiro voltara do sul por motivos mais nobres. Juntamente com os mesmos amigos dos ternos eles fundaram também um clube. Viera para comprar as bases sólidas de uma edificação que estava nas suas idealizações e muito pouco em suas mãos. Mas eles, vitoriosos, compraram o terreno que hoje leva o nome de XIII de Maio Futebol Clube.

O boiadeiro voltara do sul, de Barretos, largara as boiadas. Os protuberantes ossos da face e a voz grossa e firme estavam de volta. Foi assim que Matuzalém Ferreira voltou das comitivas, do sonho de ser montador em rodeios. 

A tarde caía, caindo, o céu estava azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara. E lá estava o rapaz, de novo olhando para as entranhas do Zagaia. O monstro com seus pares de olhos, enegrecidos pela fumaça da cerâmica Batista, o cheiro de almeirão bravo do Borá invadindo suas narinas e sufocando; o boiadeiro que foi para o sul resolveu voltar...

(*)Julio César Pereira é Sociólogo, escritor entre outros de “Sobre Melros pássaros-pretos e borboletas”.