Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1783- 18 de junho de 2021

Moradores do Desemboque são contra o fechamento da Escola

Edição nº 1389 - 22 Novembro 2013

Nem tudo foi festa no Desemboque. A presença  de pessoas de fora deu oportunidade para os moradores mostrarem a sua insatisfação com o fechamento da E.M. Cel. José Afonso de Almeida, a mais antiga escola da zona rural. O assunto veio a tona na noite da sexta-feira, com pronunciamentos do professor  e ex-vereador Carlos Alberto Cerchi e do vereador Pedro Teodoro Rodrigues de Rezende,  ambos arrancando aplausos da comunidade. 

Em entrevista a Abneristóteles, do jornal Cidade de Sacramento, o Prof. Bertor, como membro do Conselho Municipal de Educação, se declarou contrário ao fechamento da escola. “Eu me posicionei contrário, por entender que a escola numa comunidade rural é uma força viva. No ponto vista pedagógico, educativo e até mesmo para as comunidades é importante ter a escola na localidade. Agora, quem deveria ter a palavra final é a comunidade. E como se trata de um ato administrativo do prefeito, que independe de aprovação da Câmara, a comunidade deve se manifestar de forma clara”, afirmou.

O ex-prefeito José Alberto, um dos maiores apoiadores da campanha do prefeito Bruno Cordeiro Scalon, em entrevista ao ET, afirmou que, quando prefeito, manteve a escola com oito alunos. “A inspetora estadual chegou me dizendo que não podia e eu lhe disse: Se a senhora quiser me denuncie. Sou professor e faço questão de continuar”, lembrou, questionando a pedagogia da nucleação.

“Fosse eu prefeito, jamais colocaria crianças de sete ou dez anos em ônibus para viajar diariamente quase 100 quilômetros, eu traria os professores até elas, como sempre foi feito. Pegar criança às 5h00 da madrugada, pra levar para outro lugar, além do cansaço que provoca, tem a questão da insegurança nessas estradas... Este é meu pensamento, se fosse eu,  não tiraria, mas não sou prefeito. Eu sou contra, como sou contra a lei que proíbe o trabalho de menor. Os meninos que trabalharam todos deram gente”.

Já o vice-prefeito, Prof. Geraldo Majela Carvalho, criticou o fato de a mídia usar o termo 'fechamento' das escolas do Desemboque e da Sete Voltas. “É mais uma vez um termo maldoso”, criticou, justificando o fechamento de uma escola que tem 12 alunos, por conta de suas condições e da viabilidade educacional. “Com a nucleação os alunos irão para uma escola muito mais preparada e equipada”, defendeu. 

 

Prefeito diz que cumpre a legislação

O prefeito Bruno Scalon Cordeiro, no seu discurso aos moradores do povoado do Desemboque, justificou o fechamento da EM Cel. José Afonso, explicando as atribuições de um gestor. De acordo com o prefeito, ele está fechando a escola do povoado por conta de exigência da lei, mas não convenceu os pais dos alunos.

“- A dona de casa é gestora, o prefeito é gestor da cidade, e nós gestores, às vezes, nos deparamos com situações que esbarramos, em cumprimento de legislação. E nós temos que ser os primeiros a cumprir uma legislação”, afirmou, lembrando que também é professor.

 

Concluiu, fazendo um pedido à padroeira do povoado. “... que Maria, que reina neste local, possa abrandar os corações daqueles que caminham no sentido contrário, mas que possa realmente abrir os corações daqueles que querem verdadeiramente e amam essa cidade”. 

 

Pais temem por filhos em longas viagens diárias

O ET que passou todo o domingo no povoado teve a oportunidade de conversar com vários moradores, pais de alunos e constatou que a insatisfação é geral. Todos confirmam a informação da PMS, dada ao jornal, que a secretaria Joana da Graça Faria esteve no local para abordar e dar explicações sobre o assunto, mas em nenhum momento falou que iria fechar a escola. 

“- Quando a secretária esteve aqui ela falou, explicou... Perguntamos se ia fechar e ela disse que iria ver, mas nós não concordamos. Não houve uma consulta da comunidade. Vamos nos reunir aqui na comunidade e se for preciso vamos procurar o Promotor, porque pode ser  que chegue o começo do ano que vem e eles digam que a escola não vai funcionar”, afirmou uma das mães, ressaltando:

“- A Escola é a única coisa que temos aqui e ela sempre funcionou. Hoje  até melhorou, porque antigamente era só uma professora, hoje  são duas. E eu pergunto: como vou mandar duas crianças, uma de cinco e outra de sete  anos todos os  dias pra rodar quase 100 km pra estudar, sendo que tem  escola na porta? Queremos a escola aqui na comunidade.  Vamos atrás do  Promotor para que a Foto: Imagem ET/ wjsescola permaneça funcionando aqui”.

Outro morador observa: “O prefeito não prometeu isso quando era candidato. Veio aqui, falou do outro, prometeu muita coisa, mas não falou que iria fechar a escola e agora vem com isso... A escola sempre funcionou aqui e queremos que ela continue a funcionar”, afirmou, completado por outro morador, mostrando a preocupação com a estrada: “São muitas carretas de madeira, muito movimento. E a gente que mora aqui sabe que carreteiro não tem dó de perueiro, botam a carreta no meio da estrada e os outros que se virem. Os motoristas têm que disputar espaço com eles na estrada.  Se chove, a estrada vira um quiabo. Os filhos saem, a gente não fica sossegado enquanto não chegam. Os que estudam à noite, a gente não dorme enquanto não chegam, porque sabemos dos riscos”. 

Um ex-motorista de kombi escolar, que trabalhou 16 anos transportando alunos na região, afirma que o trajeto ida e volta, Desemboque – Jaguarinha, passando pelas fazendas do entorno para pegar os alunos, vai dar uns 200 quilômetros. “Se puser na ponta do lápis, cada entrada de fazenda em fazenda até chegar à escola de Jaguarinha, ida e volta, serão aproximadamente 200 quilômetros. Se eles estudarem no Quenta Sol, mais ou menos uns 150 quilômetros”, afirmou. 

Para o motorista, os alunos de cinco a dez anos vão passar mais tempo dentro da perua do que na escola. “É um absurdo o que esse prefeito está propondo” – denunciou, especificando: “A Kombi ou Van tem que sair daqui por volta das 5h30 prá chegar lá às 8h00 e, para o retorno vai chegar no povoado por volta das 3 horas da tarde. Agora, vejam uma criança de cinco anos fazer um trajeto desses todo dia, ela não vai querer estudar... Se para os mocinhos já é puxado, imaginem para uma criança”. 

Para outro morador há solução para aumentar o número de alunos na escola. “Tragam os alunos dos Pinheiros pra cá, em vez de levar para o Quenta Sol. E eles vão ganhar com  isso,  porque Pinheiros é bem mais perto do Desemboque que o Quenta Sol ou a Jaguarinha. Todo mundo sabe disso,  o prefeito  e a secretária também sabem, então tragam as crianças dos Pinheiros para cá”, sugere e outro pai emenda: “Eu não sei o que é pedagogia, mas não deve ser uma coisa boa, não, pois que pedagogia é essa que tira uma criança da escola a 100 metros de sua casa pra levar pr'uma distância dessa?...”.

Outra preocupação dos pais é com a notícia de que o prefeito Bruno vai levar todos os alunos do ensino médio para estudar na cidade a partir do ano letivo de 2014. “Minha filha chegou em casa com essa notícia e já pediu pra alugarmos uma casa na cidade,  ela diz que não vai viajar, quer ficar na cidade. Se não temos condições, ela vai ficar sem estudar. Onde se viu uma coisa dessas? Sai daqui com outros jovens, viajam 25 km pra estudar no Quenta Sol e agora vão ter de ir pra cidade? Não vai, não. Os estudantes estão revoltados e já sabemos de vários que vão deixar de estudar se isso acontecer”, lamentaram.

Um dos entrevistados não mora no Desemboque, mas  nasceu  lá e depois de  concluir as séries iniciais na comunidade, veio para a cidade para seguir os estudos, porque não havia mais estudos na região. “Eu fui para Sacramento e nunca mais voltei para morar aqui. Eu volto sempre, porque aqui estão minhas origens, minha família e conhecidos, mas conheço muita gente que perdeu totalmente o vínculo com o Desemboque e o lugar vai acabando, vai esvaziando”, diz.

 

Alerta também para os problemas vivenciados na zona urbana. “E o pior é que muitos que foram para a cidade, não estudaram  e se perderam na vida urbana. É claro que problemas existem em todo lugar, mas na cidade os estímulos são muito maiores e eles se perderam, tenho exemplo disso na minha família. Eu estudei, formei, mas muitos não deram em nada, isso naquele tempo, há quase 20 anos. Hoje a preocupação é maior. Se os estudantes ficam aqui, todo mundo conhece, olha, zela, fala, lá na cidade, não”.