Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Ivan Barbosa: Festival de Inverno está consolidado

Edição nº 1358 - 19 Abril 2013

O empresário Ivan Sebastião Barbosa Afonso, 64, diretor proprietário do Parque Náutico de Jaguara, recebeu o ET para uma entrevista. Na pauta, a 5ª edição do Festival de Inverno, que acontece no Parque, de 11 de maio a 22 de junho, com uma vasta programação a cada final de semana. Na opinião do empresário o Festival está consolidado. “O Festival de Inverno nesta quinta edição, consolidou-se. Há movimentos que não precisam de 20 anos para se consolidarem, tornarem-se primeiro adolescentes, depois maduros. O V Festival de Inverno me demonstra já essa maturidade, porque  vivemos um momento em que  universidades e cidades querem participar e a programação já está fechada. Não dá mais para entrar.  E por que querem entrar? Porque o Festival está tomando vulto, está se tornando importante”, disse Ivan na entrevista. Veja:

 

ET - Ivan, você passou a vida dividindo seu tempo profissional entre gabinetes políticos e salas de universidades; nos últimos anos, dentro da UFMG. Quem o aproximou mais da arte e da cultura? A Política ou a Educação?

Ivan - Nós somos resultados das nossas circunstâncias. Não sei o que é mais, o  que é menos, foram as circunstâncias. Por exemplo, Tancredo Neves me impressionou muito. Fui secretário de seu governo e Tancredo era fulgurante. Foi um homem capaz de receber o título honoris causa na Universidade de Coimbra e falar de improviso. Só uma pessoa extremamente culta faz isso, pois há gente que, nem com o texto escrito, dá conta de falar... Ele foi um homem que me impressionou na política, na oratória. A universidade, sobretudo, a faculdade de Direito de Belo Horizonte, na UFMG, foi e é também para mim um celeiro, um santuário de homens extremamente cultos em todos os sentidos. Os melhores homens de Minas, os grandes políticos mineiros passaram por essa universidade. Então, eu vivia as minhas circunstâncias efetivamente ligadas à cultura, à arte e tudo isso sempre me impressionou muito e a gente acaba tomando um rumo, fazendo uma opção de vida. Eu não fui padre, mas tenho um compromisso com a melhora das pessoas como ser humano. E o lugar de fazer isso, melhorar as pessoas, é através da educação, por isso eu me tornei professor. 

 

ET - Um professor, hoje, aposentado, mas que ainda busca aprender, deixou o estrado da sala de aula, mas não perdeu o hábito da leitura...

Ivan - Sim. Estudei muito filosofia e vivo estudando, sou um homem de livros e de trabalho. Não há outra coisa na minha vida. Televisão, futebol, praia não me comovem. Minha vida é trabalho e estudos, por entender que essas duas coisas aprimoram a nossa visão, nos dá tinos, exemplos, conhecimentos em todos os sentidos. E foi isso que me fez achar importante essas coisas como a arte, cultura, conhecimento. Eu comprei Jaguara, não porque eu tenho um paiol de dinheiro. Eu comprei Jaguara porque tenho 50 anos de biblioteca...

 

ET - Temos artistas nos vários campos da arte, pintura, teatro, música, dança, palavra... Pelo que vemos, você não se sobressai como pintor, como ator, músico, dançarino, mas com certeza é um artista da palavra. Quando vai passar para o papel suas histórias, cadê o lado escritor do Prof. Ivan Barbosa?

Ivan - Vou escrever quando eu não puder mais trabalhar, quando tiver que parar, e já estou refletindo sobre o que vou escrever, quando não puder mais ir para o serviço. Quero passar meus últimos dias escrevendo as coisas que vivi, e que são importantes para outros conhecerem, pelas experiências e as circunstâncias do aprendizado. Fico refletindo as lições das pessoas, Itamar Franco, Tancredo, pessoas que ensinaram muitas coisas. E analisando o Festival de Inverno, eu me lembrei de Itamar e digo: O Festival de Inverno nesta quinta edição, consolidou-se. Há movimentos que não precisam de 20 anos para se consolidarem, tornarem-se adolescentes primeiro, depois maduros. Este V Festival de Inverno me demonstra já sua maturidade, porque  vivemos um momento em que  universidades e cidades querem participar e a programação já está fechada. Não dá mais para participar. E por que querem entrar? Porque o Festival está tomando vulto, está se tornando importante. Outros festivais estão surgindo. Ótimo! Foi para isso que foi feito o Festival de Inverno. E o dia em que tudo isso estiver florido, não precisarei eu ficar como regador. O dia que houver centenas de festivais, estarei liberado de regá-lo. E aí irei escrever as coisas que vivi, contar coisas importantes, dar um testemunho da minha geração aos mais jovens, ao meu neto.

 

ET – Também como um propagador cultural, que também não deixa de ser um artista, ao proporcionar, por exemplo, essa oportunidade a muitos outros artistas de se apresentarem...

Ivan – Sim, modéstia à parte, sim. O Festival está permitindo o crescimento de muitas pessoas, como do jovem violeiro Vinícius que ganhou um concurso em Jaguara e hoje está contratado com cachê. Isso é crescimento. Hoje, Vinícius é um artista que precisa buscar grandes lugares. O Festival permite isto. A gente vê que as pessoas estão satisfeitas e crescendo. E o mais importante é que esse crescimento pode repercutir em várias relações, inclusive na convivência humana. A pessoa fica melhor e é isto é o que o Festival procura: tornar as pessoas melhores. 

 

ET - O Festival de Inverno a cada ano traz muita arte e debates importantes, os quais, muitas vezes, têm uma presença mínima de pessoas. A que você atribui essa falta de público?

Ivan – Isso, realmente, nos traz muita tristeza, mas a resposta dessa presença pequena de público é a razão do festival. Se não tem público, é porque precisa do festival, por isso ele tem que existir. O dia em que houver uma multidão num evento cultural, ele não precisará mais existir. Precisamos do Festival de Jaguara, enquanto precisarmos capinar para levar alguém para ser melhorado. Mas o dia em que houver uma imensidão de pessoas, não será mais preciso realizar o festival, porque as pessoas passaram a se interessar pela arte, pela boa música, pelo teatro.  É nessa aridez que precisa de água e quando o povo tiver interesse pela arte e cultura, com certeza, teremos pessoas melhores. 

 

ET - Você diria que falta cultura à cultura?

Ivan – Sim, é a falta de cultura que faz as pessoas não terem  interesse. “Ir lá ver gente dançar balé? Declamar poema!!..” Só que elas não sabem que isso é extraordinário, que por traz disso há uma história. Agora, para achar isso extraordinário é preciso ter percepção, sensibilidade. Se a pessoa não tem sensibilidade, percepção das coisas, ela não dá valor a isso e nem ao seu próprio crescimento como pessoa que sabe das coisas, porque cultura é algo passado de geração a geração, e que muitas vezes está além dos livros. Tanto é que, o maior filósofo da Grécia, no tempo do helenismo,  Sócrates, escreveu:   “Sei que nada sei”. E isso serve para muitas pessoas hoje.  Pessoas que nada sabem, mas acham que tudo sabem e que não precisam aprender mais nada. O festival é um agente da melhora de cada um na percepção, na sensibilidade e esse agente cada vez se torna necessário. Às vezes, as pessoas lamentam, porque há mesas redondas importantíssimas e não têm público, mas eu lhes digo que o festival é necessário e o meu trabalho é necessário. 

 

ET – Recentemente, nosso ator sacramentano, Lima Duarte, em visita a amigos em Sacramento, dando uma palhinha ao ET, afirmou que um de seus projetos culturais não foi aceito pelas TVs, porque fala da banalização da cultura nas novelas, nos Big Brother da vida... Você compartilha a opinião dele?

Ivan – Claro, e vejo isto com muita tristeza, mas vejo que o que falta é educação do povo e para o povo. A televisão faz o que vende. Se amanhã o produto rentável for a arte, ela vai vender arte. As nossas televisões só trabalham em troca do dinheiro e não para fazer cultura ou caridade. Embora eles tenham uma responsabilidade social e cultural com a nação, eu pergunto: 'Cadê os grandes  cantores brasileiros, a boa música?'.  Ela vende a programação que dá lucro e o povo fica extasiado com o que vê e aplaude. E isso só acontece, porque falta uma educação apurada. 

 

ET - Na sua opinião, caberia aos governantes determinar uma grade de programação  mais educativa, formativa, como acontece nos Estados Unidos e  Europa, por exemplo?  

Ivan - O país precisa disso. Na minha opinião,  o poder público, os governantes têm que ser intervencionistas e não liberais na cultura. O governo tem que ser intervencionista na arte  como é  na educação, saúde. Eles têm que intervir nas concessões que fazem. Onde já se viu, por exemplo, a Globo, uma emissora que atinge 80% dos brasileiros, poder escolher o que quiser. Uma TV como esta muda uma nação se quiser, escraviza pessoas se quiser, faz colonialismo se desejar. O governo teria que intervir, determinar, estabelecer critérios de programação. Mas eu pergunto: Nós temos governo para fazer isso? Para proibir, por exemplo, o cartel de multinacionais que ditam os preços dos agrotóxicos na agricultura do país?

 

ET – Você não acha que essa intervenção seria uma forma de cercear a criatividade do artista, do produtor cultural? Não seria uma ditadura da arte?

Ivan - Quando falo em governo intervencionista, não estou falando de ditadura, mas um governo que fizesse nas grandes razões nacionais, uma intervenção e a cultura é uma das grandes razões nacionais.  O que temos visto nas novelas? Vulgaridades e o povo babando, se deliciando com o que vê. Que povo a nação está formando? Tem cabimento o programa Big Brother? O que aquele programa ensina?  E não temos governo pra intervir. A TV quando passa alguma coisa que presta é altas horas, horário a que ninguém assiste. Agora, por trás dessa intervenção há muitas outras coisas em jogo...

 

ET – Embota a juventude hoje tenha seus próprios conceitos de cultura como a grafitagem, a dança de rua, raps, etc, houve um tempo em que ela se auto denominou de alienada, como os hippies nos anos 60. Estaríamos revivendo essa alienação hoje?

Ivan – Não creio. Vivi na universidade muitos anos e vivi com muitos jovens de diferentes épocas e a juventude contemporânea é diferente daquelas e os tempos são outros. Eu entendo que as pessoas, independente da condição em que vivam, estão sempre em processo de melhora. As gerações anteriores foram mais políticas, mais engajadas culturalmente, do que as gerações atuais, que não têm o charme de lutar contra uma ditadura, por exemplo,  de lutar por alguma causa, até porque algumas questões foram resolvidas a partir do momento em que as gerações anteriores foram ás ruas lutar por elas. Elas tinham motivação e provocavam mudanças. 

 

ET – A gente diz sempre um bordão, “a juventude é o futuro do país”. E com isso sempre botamos fé nela, na construção de um mundo melhor. Você é otimista nesse sentido?

Ivan – Eu vejo que a juventude hoje é tão boa quanto as anteriores, ela está diferente, mas buscando alguma coisa, buscando se encontrar. Eu acredito piamente numa melhora em breve. Para mim, o século XXI vai começar agora. Desculpem-me, ele poderia ter começado o dia em que Obama, um negro, ganhou a eleição americana, mas não começou. Mas ele pode começar agora com Francisco. Ele é um homem diferente. O Papa é uma força de expressão mundial inquestionável. Todas as religiões estão viradas para o Vaticano à espera de mudanças    e, se no Vaticano houver, como esperamos, um pastor do novo tempo, as mudanças vão acontecer.  E é preciso mudar, porque hoje vivemos um momento de nada, de inversão de valores, de decadência em vários sentidos...

 

ET - Com isso você estaria dizendo que no mundo hoje faltam ídolos, exemplos, jovens que possam ser um referencial? Você, por exemplo, citou há pouco a lisura, a ética e integridade de Tancredo, Itamar... 

Ivan – O povo, as nações crescem em função de condutores. Foi assim com César, com Gandhi, com Mandela e, também, de certa forma,  com Lula. Todos nós precisamos nos espelhar, sobretudo os jovens, em formação. Estes ícones escasseiam-se. Hoje, quem são os Beatles, o Roberto Carlos, o Glauber? Onde está o movimento de 68, em Paris? O momento, portanto, é de pobreza. Mas é no final da pobreza que se inicia o alvorecer. Se realmente estivermos no começo de um novo tempo tudo isto irá melhorar. Eu creio e espero a melhora. E faço a minha parte. No mínimo, sonho...


ET -  Para finalizar, o que você espera do V Festival de Inverno do Parque Náutico de Jaguara?

Ivan - Espero o mesmo nível de densidade cultural e um crescimento de público. Estamos trabalhando para isso. O poder público da região está mais entusiasmado  com o festival, os prefeitos estão sensibilizados e acredito que será possível termos mais gente usufruindo, prestigiando,  participando, mas sobretudo, queremos manter o aspecto cultural, que o festival seja denso na sua transmissão de conhecimentos, arte, cultura e debates.

 

ET – Agradecemos o papo. E conte com o ET para os projetos culturais do Parque Náutico.