Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Lima Duarte fala sobre o Desemboque no Fantástico

Edição n° 1300 - 09 Março 2012

No novo quadro do programa Fantástico, da rede Globo, levado ao ar no último domingo, 4, o ator sacramentano, Lima Duarte (Ariclenes Venâncio Martins) falou de suas origens no Desemboque e criou toda uma linda história em torno de seus personagens. “A verdade é que eu nunca deixei de ser o Ariclenes Venâncio Martins, né, daí é que eu consegui ser o Lima Duarte, se eu esquecesse do Ariclenes não tinha Lima Duarte”, disse Lima Duarte, uma das maiores expressões da dramaturgia brasileira, protagonista de 80 novelas e 40 filmes. Veja a seguir a sua história.

 

 

O que vi da vida

Nasci no Desemboque, Nossa Senhora da Purificação do Desemboque e do sagrado Sacramento (Na verdade, o nome da Igreja no povoado é Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro – grifo nosso). E quando eu tinha 7 ou 8 anos, meu pai me levou pra estudar, a escola ficava há uns 20km. Sabe, aqueles meninos que vão andando naquelas estradas poeirentas... Meu pai foi um homem sábio, falou assim: Eu vou te dar um cavalinho pra você ir pra escola. E falei: 'Uai, bom, pai, dá sim'. 'Agora vamos lá escolher o lugar, você vai ficar assentado e o bichinho fica amarrado'. Falei: 'Ta bom, pai'. Então sentei assim na sala, na aula... Imagina aquela sala de aula, sentamos assim, aqui.. Ele falou: 'Deixa o cavalinho amarrado nessa mamica de cadela, uma árvore do cerrado. Cê senta aqui, é um olho na professora e outro no seu cavalinho...' E foi assim que me chegou o conhecimento, a cavalo.

 

Quando eu chegava em casa, a mãe que era muito pequena, o apelido dela era Pequena, ela dizia: 'Chega aqui'. E riscava a minha perna. Quando você toma banho e seca, assim ao sol, fica um risco, né. 'Ah, foi nadar no poço!' E eu apanhava, porque o sol me denunciou, então apanhava, mas ela era muito pequenininha e eu precisava segurar nela pra ela me batar. Então ela falava: 'Segura direito'. Falava: 'Se eu segurar direito, você bate direito'. (riso) E ela: 'Mas você precisa apanhar!' E nós terminávamos dançando... E tem legado maior pro ser humano do que quando a mãe quer te castigar, acaba dançando com você?

 

A Jornada

Foi aí que o meu pai, quando eu tinha 15 anos falou assim: 'Vá te embora! Você já está um homem desse tamanho e não vou sustentar.' Não porque ele fosse mal, é porque ele sabia que eu já estava pronto, que eu sabia que eu não podia tento vivido aqueles momentos de feijãozinho no fogo, de cavalinho amarrado, ter vivido plenamente isso. E tenha feito disso, vida. Eu não podia, realmente não podia continuar naquele socavão, e me pôs em cima dum caminhão de manga.

 

Dois dias e uma noite de viagem com a consciência de que vinha pra uma vida nova, pra um outro mundo, que eu não sabia o que me esperava, mas que eu ia enfrentar. Tanto que quando cheguei no Mercadão, em São Paulo, na João Teodoro, o lindíssimo Mercadão, o moço lá falou: 'Pronto, chegamos, acabou a viagem'. Pensei: 'Tenho que comer, a primeira coisa é que tenho que comer'. Falei pra ele: 'Quer que eu ajude a descarregar essas mangas?' Ele me deu uns cobres, e eu, opa!, a janta já tá aqui. Depois, veio um outro caminhão, de abacaxi. 'Quer que eu ajude?' 'Veio' mais uns cobrinhos, e eu dormi embaixo do caminhão. E dormi cinco noites só, pouco, muito atilado, muito esperto, disposto pra vida... 

 

Uma noite, chegou pra mim um menino, um moleque que nem eu, me olhou e falou assim: ' 'Vamo' nas mulher?'. Eu disse: Han?!! 'A coisa, propriamente dita, mulher!!' Falei: 'Nossa Senhora!!' Na casa era uma judia, as 'polaca', francesas... Eu tinha 15 anos e ela uns 40, ela se encantou comigo, devia ter sido uma maravilha na vida dela. Eu estava acostumado com sexo rural e, de repente, vem uma judia francesa falando arrevesado, com a pele branquinha. 'Nossa senhora!!' Aí fiquei morando com ela três anos, na zona.

 

Aí meu pai teve o primeiro radio, lá no Desemboque. Meu pai lavava as mãos pra ouvir o rádio, e colocava paletó pra ouvir o rádio, e punha bem baixinho pro povinho não ouvir. A casa era muito pobre, janela muito baixa e o povinho juntava tudo na janela pra ficar escutando meu pai ouvindo rádio. O teatro mais louco que eu já vi na vida.

 

Aí, então, eu me lembrei do meu pai ouvindo rádio e o povinho assistindo, eu falei: 'Eu quero trabalhar no rádio!' Eu tinha esperança que ele me ouvisse, ele tinha que me ouvir. Ele tinha mandado eu embora... Então, tá. Ele vai me ouvir. E eu fui lá na rádio - eu tinha 15 pra 16 anos, tenho isso na carteira profissional - pra fazer o teste de voz, e eu li lá:  “PRZ 2 de São Paulo, a mais poderosa emissora paulista”. (mostrando uma voz fina e sem timbre – grifo nosso) E o cara virou, Costa Lima: 'De onde é que sai a sua voz? Do sovaco?' Aí eu falei: 'Não, sai é daqui' (mostrando a boca). Aí o meu apelido ficou, 'Voz de Sovaco' (risos). 

 

O rapaz do som, que tinha aberto o microfone, virou e falou assim: 'Vem cá, você não quer trabalhar aqui?' Falei: 'Eu quero trabalhar, preciso sair da zona, eu moro na zona'. 'Vem cá amanhã, às 5 da manhã, que eu te ensino'. Eu nem fui pra casa. Ele não sabe disso até hoje, mas eu fiquei rodando por ali até às 5 horas da manhã. Aí, fui lá e ele me ensinou a abrir o microfone, apertar aquelas coisas. Fiquei bom, virei sonoplasta... 

Quando veio a televisão em 1950, eu já era um grande rádio-ator, porque a 'voz de sovaco' aprendeu a falar mais ou menos direito e ficou uma voz diferente. Era o tempo das grandes vozes do rádio-teatro. Naquele tempo eram todas vozes graves, e tinham alguns vícios, "Meu Amor", “Está Morto”. Era assim. (imitando, voz bem postada e grave – grifo nosso).

 

Lima Duarte

Quando eu comecei a trabalhar, o Oduvaldo Vianna me deu um pequeno trabalho no rádio. 'Agora – me perguntou – como é seu nome?'. Eu disse: 'Ariclenes Venâncio Martins'. 'Num 'vamo' colocar esse nome, não, é muito comprido. Vai arranjar outro'. Eu falei: 'Supõe, Luiz Alberto...' 'Nome de viado, não. Arranja outro”, respondeu. Aí eu perguntei à minha mãe: 'Mãe, vou trabalhar no rádio, mas tenho que arranjar outro nome...'. 'Por que? O seu é tão lindo!!' Mãe é mãe, né... 'Num serve, mãe, é muito comprido'. Aí ela falou: 'Põe o nome do meu guia de luz. Você vai ser muito feliz. Ele se chama Lima Duarte'. E eu sou obrigado a acreditar em milagres. 


O Bem Amado

Quando comecei aqui na Globo, o Dias (Gomes, autor de O Bem Amado )falou assim: 'Não tem um personagem episódico, três ou quatro capítulos. Porque tinha aquele negócio de mata, não mata. E ele pediu: 'Manda 'vim' um cangaceiro terrível, que vai matar... só quatro capítulos... Se o cara não mata, manda embora'. Era o Zeca Diabo. Eu falei: 'Mas o que é isso? Um cangaceiro que não mata?' 'É, não mata, é um Diabo que não mata', respondeu.

 

Então comecei a pensar...

Fui num tintureiro velho, na Estação da Luz, lá em SP, cheguei e falei: 'Vem cá, não tem alguma roupa aí que algum paraíba desses tenha deixado ou não tenha dinheiro pra vim buscar?' 'Ihhh,  tem um monte'. 'Quer me vender?' Ele me vendou, eu 'puis'. Upa!! Fui num churrasco em Sorocaba, um sujeito abriu um porta-mala e lá estava um chapéu. Falei: 'Opa!!' Mandei o chapéu do cara. Então, o terno de matador, chapéu de matador, bigode e olhar de matador. 

 

Cheguei num bar e a minha primeira fala era: “O senhor, me dê uma cachacinha, se me faça um favor”. E disse. (Repete a frase com a voz bem fina – grifo nosso). O pessoal falou: 'Quê isso, quê isso? Isso é viado'. Mais que isso, daí o povo pega o fio da miada, desfiou o nó... É viado, não é homem, tem a voz fina, não é matador, é uma vítima de uma estrutura social viciada. Não puderam tirar o personagem da novela, choveu telefonema. O último capítulo, era um revolver apontado na minha cabeça. E terminava o capítulo. 'Se matar ele, não ligo mais na rede' – disseram muitos. E o Zeca teve que ficar até o fim. E matou o Odorico Paraguaçu.

 

O tempo

Eu ando pensando muito no meu pai. Outro dia eu disse a minha filha: 'Eu tô me lembrando tanto do meu pai, acho que eu vou morrer logo. Ela num dormiu a noite inteira. Porque acho que vou mesmo, tenho 82 anos. Então, já vi tanta coisa, já vivi tanto, já foi tão bonito tudo o que eu vi e vivi. Foi tudo tão mágico comigo. Outro dia eu disse a uma amiga minha... Mas quem viveu os eventos que eu vivi, os eventos tão brasileiros, tão humanos, não pode se interessar por mais nada. O que vai me interessar, a internet e todas as suas histórias? É claro que houve uma grande revolução, mas eu também, outro dia li sobre a internet e eu vi uma coisa bem interessante. Você vai para lá e você quer Einstein e em poucos momentos você domina tudo, TUDO! Sai, você não sabe nada, quando você topa com a realidade, não sabe nada.

 

O artista 

Os personagens que eu fiz foram um só, EU. O resto é 'eu mesmo' (risos). É um tio, um avô, um primo, um amigo da rua, uma prostituta... Estão todos dentro de mim, todos na minha lembrança, aí eu vou dar um jeito para que eles fiquem do jeito que eu acho que eles devam ficar. Eu sei que essa coisa de interpretar envolve... É tão difícil né, é tão difícil fazer bem feito. É conhecer tanto a vida, conhecer tanto o ser humano... A verdade é que eu nunca deixei de ser o Ariclenes Venâncio Martins, né. Daí é que eu consegui ser o Lima Duarte. Se eu esquecesse do Ariclenes não tinha Lima Duarte.