Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Morre Antônia, a rainha do Congado

Edição nº 1175 - 16 Outubro 2009

Antônia se foi deixando um grande legado não só ao Congado e ao Moçambique, mas à cidade. Foram mais de 50 anos de reinado, desde que herdou a coroa de Joana do Brinco de Ouro da Princesa, a Tia Joana. Antônia era a rainha e, como tal, fazia jus a toda reverência e como rainha foi levada por seus súditos, a pé, do bairro São Geraldo até o cemitério, onde foi sepultada junto ao marido, o rei do Congado, conhecido como Divino Inácio, falecido há 18 anos. 

Como rainha teve no cortejo os seu filhos, pessoas simples, que a amavam, que buscavam nela os conselhos e orientações para a preservação de suas tradições. Seus filhos ali, caminhando em silêncio, alternando-se nas alças do caixão, eram as maiores autoridades, caminhando no ritmo do som do tambor. Apenas um, anunciando a partida da rainha pelas ruas por onde passavam. “Estamos de luto, estamos enterrando a nossa rainha”. Pessoas saiam às portas... Afinal, poucos têm o privilégio de ter a sua partida anunciada. Só mesmo os nobres, os grandes reis e rainhas... 

As bandeiras verde e branca, a estampa dos santos protetores cobriam a urna. Elas voltaram para casa, serão usadas nas celebrações dos congadeiros, que agora têm o compromisso de manter vivo para sempre o seu legado.

No cemitério, um novo e último contemplar no semblante daquela que os guiou nas rezas, na arte das danças afro, nos ensinamentos do dia a dia... E ao som de vozes embargadas da emoção, todos os presentes viram fechar a lápide, enquanto entoavam um cântico a Maria “com minha mãe estarei, / na santa glória um dia / junto a Virgem Maria/ no céu triunfarei...” 

Antônia Maria de Jesus, 88, Rainha, mãe, conselheira, história viva da comunidade, era natural da vizinha cidade de Tapira, mas nunca foi reconhecida pela Câmara como cidadã sacramentana. Não recebeu a Medalha do Mérito Legislativo, nem a Comenda de Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento. 

Viúva de Valdivino Inácio dos Santos e mãe de quatro filhos, Terezinha (falecida), Sebastião, José Inácio e Firmino, deixa ainda 17 netos, 40 bisnetos e 6 tetranetos. Uma de suas netas, Lucimar, vai herdar sua coroa.

 

“Perdemos o esteio da Congada e um pouco da nossa história”

Para Delcides Tiago, Cid, presidente do Terno de Congada São Benedito, a comunidade perdeu um esteio e um pouco de sua história. “É como uma construção bem antiga e alguém tira um tijolo, aí o restante começa a se desmoronar. Perdemos hoje o esteio mais forte, não só da Congada, porque ela representava o esteio de toda a cultura afro de Sacramento, toda a cultura afro mais forte em Sacramento começou com eles, ela e o rei Divino. Agora, cabe a nós escorar esse monumento, continuar o trabalho que eles deixaram, passar para as outras gerações aquilo que eles nos ensinaram. Nossos filhos precisam saber não só o que é a Congada, o Moçambique, mas também o amor próprio, a auto estima. Ela nos ensinou a ter auto estima, ensinou a todos nós a valorizar as nossas raízes e isso tem que continuar”. 


“Ela era rainha do Congado, mas Nossa Senhora é rainha do céu e da terra, vai interceder por nós”

José do Carmo Martins, 76, o capitão de Moçambique mais idoso da cidade, pessoa de longa convivência com Antônia aconselha: “Não podemos baquear, não, temos que pôr nas mãos de Deus, pois esse dia chega pra todos nós. Ela era rainha do Congado, mas Nossa Senhora que é rainha do céu e da terra, vai interceder a Deus por nós e juntos vamos vencer a nossa caminhada. Juntos somos forte e com Deus venceremos. Não podemos dizer que a perdemos, porque ela nos deixou muita coisa, a bandeira que ela carregou é muito maior do que essa que ela está deixando. Está tudo organizado, agora temos que cuidar.”


“Temos o consolo de que ela deixou muita coisa nessa cidade”

O filho Sebastião Inácio dos Santos, 67, rei do Congado, desde que o rei Divino Inácio, morreu há 18 anos. Nesses anos todos acompanhou e ocupou lugar de honra ao lado da mãe-rainha nos festejos. Agora, reconhece que ficou duplamente órfão. “Nós estamos abatidos, sentidos porque era a nossa mãe. Mas ela lutou muito junto com papai pra deixar pra cidade o Congado e o Moçambique. Isso foi a vida dela. Todos nós sentimos a perda, mas temos consolo de que ela deixou muita coisa nessa cidade. Ela com papai e outros foram os fundadores da Congada e nunca deixou de fazer a festa, nem que fosse só aqui no bairro, pra nós mesmos, todo ano tinha a festa. Ela lutou muito pra essa festa chegar ao que é hoje. E nós temos que cuidar do que ela deixou”. 

 

De acordo com Sebastião, a neta Lucimar dos Reis será coroada rainha do Congado. “Lucimar é filha da Terezinha, que faleceu há sete anos. E, na festa do ano passado, mamãe anunciou que ela seria a sucessora e assim vai ser”, explica.