Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Jovem cafeicultora é finalista em concurso internacional de café

Edição nº 1737 - 24 de julho de 2020

A jovem Bruna Carolina da Silva (foto), 22 anos, da Comunidade do Baú, em Fervedouro, Zona da Mata mineira, se  destacou pela produção de cafés especiais em município daquela região ao ser classificada  em segundo lugar no Prêmio a La Innovación Juvenil Rural de América Latina y el Caribe (Prêmio Juventude Rural Inovadora a América Latina e o Caribe), anunciado no último dia 10.

Bruna disputou a final do concurso, na categoria Geração de Renda, pela experiência inovadora e empreendedora com a produção de cafés especiais, batizado de “Café Especial da Bruna”. Um café é considerado especial quando tem um processo de produção diferenciado e atinge pontuação entre 80 e 100 pontos, na tabela de classificação sensorial da Specialty Coffee Association (SCA). 

O Café Especial da Bruna fez, na prática, jus ao nome. A produção, que teve início no ano passado, foi toda artesanal e contou somente com a mão de obra familiar, composta por ela, a mãe Sônia da Silva, o pai Célio José da Silva e a irmã mais nova, Maria Betânia. Em 2019, o produto obteve a nota de 82,25 pontos, conquistando o vice-campeonato do Concurso Municipal de Qualidade de Café, em Fervedouro. 

Além disso, toda a produção do Café Especial da Bruna seguiu um modo cuidadoso para agregar valor e qualidade ao produto, conforme explica. “Nosso processo foi desde a colheita seletiva dos grãos maduros, evitando ao máximo os grãos verdes, com peneira 16, deixando somente grão uniforme e sem defeitos. Depois, os grãos foram lavados e esparramados em um terreiro suspenso para secar. Após a secagem, ainda catamos manualmente os cafés verdes que restaram”. No final, segundo Bruna Carolina, o café foi torrado, moído e embalado em sacolas com válvula para manter a qualidade e sabor até chegar ao consumidor final.

O preço da saca do café especial foi de R$ 1 mil, mais que o dobro do pago pela saca do café convencional, também produzido na propriedade familiar, e que costuma alcançar em torno de R$ 400,00. 

O Premio a la Innovacíon Juvenil Rural de América Latina y el Caribe é uma iniciativa do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Expectativa 

Com o bom resultado no concurso, Bruna está animada e faz planos para o futuro. A expectativa agora é de que o desempenho na competição internacional agregue mais valor ao produto e potencialize a comercialização.  

O êxito da jovem rural foi comemorado pela Emater-MG, que presta a assistência técnica na propriedade que tem 17 hectares e foi também a responsável por incentivar a cafeicultora, da região produtora de cafés denominada Matas de Minas, a se inscrever para participar da competição virtual.

 

 

Veja a entrevista com o agrônomo Roberto Carlos Mendes Filho.

 

 

‘Vale a pena plantar café

 

ET – De um dos municípios que mais produzia café na região, de 80 mil sacas, hoje 54 mil, em detrimento de outras culturas, Sacramento inicia uma arrancada na direção do café, inaugurando uma nova fase. Já temos lavoura de 200 hectares plantada de café arábica. Como extensionista da Emater e responsável pela cultura, o Sr poderia fazer uma análise a respeito ?

 Roberto Carlos (foto) - Acredito que um dos fatores que reduziu a área plantada de cafe no passado é o investimento a longo prazo que cultura  propicia, quatro anos  para o obter o retorno financeiro, ao fato que culturas anuais e culturas olericolas o retorno se dá de três meses a um ano .

Está nova fase da cafeicultura em Sacramento e que poderemos aumentar a área plantada devido ao fato as áreas  nas regiões produtoras como Sul de Minas e Mogiana, com aptidão para a cultura estão todas ocupadas com cafés implantados. Daí se dá o fato desses produtores migrarem para o nosso município pois temos extensão de terras com condições para o cultivo.

 

ET - Da produção cafeeira de 2019.

RC- Hoje temos 55 produtores de café no município. A produção da safra passada foi em torno de 54.000 sacas beneficiadas de café, de 60 kg.

 

ET – De um município que já teve o café como sua cultura de maior expressão, por que diminuiu?

RC - Na verdade, a área de café de Sacramento não diminuiu. Como se trata de uma cultura perene os investimentos iniciais são grandes com retorno financeiro somente após quatro anos de implantação, em detrimento das culturas anuais que são de retorno rápido.ET - O município reúne condições climáticas, fertilidade do solo, altitude para o plantio de café?

RC - Sim, o clima, o solo e a topografia são propícios para o cultivo, visto que cafés arábicas de qualidade produzem em altitudes superiores a  900 metros, que é o caso aqui de Sacramento.

 

ET - Qual a importância do produto no comércio local e regional?

RC - O café é muito importante para a economia local, no sentido de que é uma atividade social bastante interessante, pois exige uma grande mão de obra, gerando com isso muitos empregos, desde a confecção de mudas até seu beneficiamento.

 

ET - Perspectivas do café para o município de Sacramento. O Sr enxerga um futuro promissor?

RC - Como as regiões produtoras do Sul de Minas e região da Alta Mogiana (que compreende essa região Norte do Estado de São Paulo, próximo à Franca)  já estão quase totalmente ocupadas com lavouras de café, em áreas com altitudes superiores a 900 metros, há uma grande tendência de produtores migrarem para esta nossa região que tem clima, solo e altitude semelhantes. Com certeza, a produção hoje, em torno de  55.000 sacas podendo dobrar essa produção em  um prazo de 5 anos. 

 

ET - No ponto de vista de investimento, vale a pena plantar café?

RC - Vale a pena plantar café, sim. Mas não mais da maneira convencional. Hoje, não tratamos mais o produto como uma commodity, mas, sim, como cafés especiais. Ou seja, colheita seletiva de grãos cereja, secagem em terreiros suspensos, secagem de cafés despolpados e desmucilados. Separação de defeitos do café, percentual umidade ideal de secagem. O tratamento especial no beneficiamento dos grãos, ponto de torra e até mesmo a granulometria da moagem torna o café especial. E é isso que o consumidor especial está procurando.

 

ET – Como tem sido a política agrícola do governo no apoio e incentivo aos pequenos e grandes produtores em relação ao café? 

RC - Hoje temos, através do 'Plano Safra' do governo federal, recursos de investimento para financiamentos da implantação da lavoura com juros de 4 a 6% ao ano com carência de 3 anos e prazo até dez anos de amortização. O que torna interessante o plantio.

 

ET - Está bom o preço? Vale a pena investir?

RC - Sim. Hoje o preço do café comum está em torno de R$ 500,00 a saca de 60 Kg. E, produzindo cafés especiais, hoje com uma grande demanda por parte de cafeterias, que estão buscando esses tipos de café de qualidade, como disse, vale, sim, a pena investir, pois o produtor pode até dobrar ou triplicar o valor pela saca obtida. 

 

ET - Qual o papel e o apoio que a Emater presta para os produtores de café do município?

RC - A EMATER está à disposição para atender aos produtores. Inclusive, com um programa de certificação em boas práticas na produção de cafés, o Programa Certifica Minas Café, o que auxilia muito ao produtor que tem interesse em produzir cafés especiais.

ET - Finalizando, poderia explicar o programa de certificação em boas práticas na produção de café.

 

 

RC -  É um conjunto de normas a serem cumpridas buscando equilíbrio entre os fatores sociais, ambientais e econômicos. Após a propriedade cumprir estes requisitos ela é indicada para uma auditoria e após aprovação o produtor recebe o selo em boas práticas na produção cafeeira. A certificação é um pré requisito para quem busca a exportação e uma grande ferramenta de gestão da propriedade.