Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1783- 18 de junho de 2021

João Oswaldo lidera campanha contra o plantio de cana-de-açúcar


O pecuarista, ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sacramento, João Osvaldo Manzan, está liderando a campanha, "Não plante cana em Sacramento". Justificando o abaixo-assinado, Manzan enumera três prejuízos: 1- a cana quando entra em determinada região ela implanta a monocultura, causando o desaparecimento do plantio de culturas de grãos e outras, afetando também a pecuária de leite e de corte; 2- a poluição será generalizada, com terra e ar sofrendo conseqüências irreparáveis; 3- o município sofrerá um atentado na sua qualidade de vida, que é a maior riqueza que possuímos.

Na reunião, muitos dos produtores presentes confirmavam as vantagens financeiras no momento, mas não deixavam de questionar: "Sabemos da possível vantagem econômica que cada proprietário poderá usufruir, mas será que vale a pena abrir mão do nosso futuro e do futuro de nossos descendentes?", ponderou Manzan. Outros argumentavam o fato de perderem suas terras por um prazo mínimo de sete anos. E outros, lembravam amigos de municípios vizinhos que se arrependeram amargamente de terem arrendado suas terras.

Manzan chega a se emocionar quando defende a diversidade de culturas. "O meu maior objetivo é defender a cidade de Sacramento e o seu povo, porque acho que não merecemos ter um município com monocultura, que além de degradar o meio ambiente, vai fazer uma cidade totalmente suja, e o risco de fechamento de nossas indústrias. Defendo e sou contra radicalmente o plantio de cana no município, como está sendo feito nos municípios vizinhos", justifica.

Manzan, porém, deixa claro que não é contra o produtor rural. "A cana de açúcar precisa fazer parte da cultura no município como já faz, o que não aceito é o como está sendo feito esse plantio. Pelo que o produtor fez para mim, particularmente, eu seria desleal se trabalhasse a favor da cultura de cana no município", explica, frisando que vê muito mais prejuízo e uma perda muito maior do que benefício para a cidade.

Sistema de arrendo é comprometedor

Segundo João Oswaldo Manzan, no município já existem cerca de oito mil hectares de terras com plantio de cana, mas o que mais o preocupa é o modo como são feitos os arrendamentos. "Sou a favor de que o proprietário plante a sua própria cana, para o seu uso próprio, porque, se num futuro próximo, a soja, o milho e outros produtos voltarem a ter bons preços, o produtor fará da sua terra o que achar melhor, mudando o tipo de cultura. Com esse sistema atual de arrendamento das terras para os usineiros, a longo prazo, um mínimo de sete anos, o proprietário fica de pés e mãos quebradas, porque suas terras estarão nas mãos de outros. E no final do arrendo, cadê as divisas, cadê as cercas”, exemplificou Manzan.
Prosseguindo, disse que “o arrendo de terras pode ser viável por um tempo. Depois, reverter a situação não será fácil. O proprietário terá que replantar a fazenda e poderá ter dificuldade até para saber a demarcação de sua própria fazenda. A perda da qualidade da terra é indiscutível. Segundo dados, após a retirada da cana, a terra leva de dois a três anos para se recuperar e, atrás disso tudo, virá o prejuízo para o proprietário", informa.

A história mostra rasteiras

A preocupação de Manzan embasa-se em exemplos desastrosos do plantio de cana no país. "A história não mente, o passado não mente, em meados da primeira metade do século XX, o nordeste investiu em cana e usinas, que hoje estão desativadas, levando a pobreza ao povo. Outro exemplo, foi o Pro-Álcool e não faz muito tempo. Quando faltou incentivo do governo, ficou todo mundo na mão, inclusive, muitos municípios na nossa região. Tenho por mim, que isso já aconteceu e não foi a última vez. Quem fori investir em cana terá um resultado satisfatório num curto prazo. E eu pergunto: por que os plantadores de cana não vão lá para o nordeste? Eles sabem porque não vão."
Para Manzan, os produtores têm que pensar bem antes de entrar na história da cana, que pode ser um engodo. Ediz mais: "O proprietário tem que pensar sobretudo, que Sacramento e a terra deram muito pra ele que é preciso preservar a nossa terra e a nossa cultura diversificada, concluiu.

O abaixo-assinado

O abaixo-assinado, segundo Manzan, será divulgado na imprensa de modo geral, será passado às autoridades locais e aguardará uma posição. "Quero ver a posição política de Sacramento. Já conversei com pessoas ligadas ao governo e ninguém definiu nada, agora, eles têm que lembrar que foram eleitos para defender o povo, o município e não para defender grupos, que vão cada vez mais acumulando renda e a pobreza cada vez mais aumentando”, informou.
Manzan questiona também por que os proprietários das usinas não moram onde estão instaladas. “Eles vêm aqui, tiram o que podem e não estão nem aí. Quando não interessar mais pra eles, tchau, mesmo. É só observar nossas cidades vizinhas e ver pra onde foram com o plantio de cana. Pararam no tempo, os moradores se mudaram, a arrecadação vai lá embaixo... Temos testemunho vivo, uma prova disso, por isso é preciso olhar essa questão com muito atenção e responsabilidade", alertou.

Segundo Manzan, um projeto de lei tramita na Câmara Municipal, delimitando, por exemplo, a distância de plantio em relação à área urbana, um quilômetro da cidade, o que acho bem pouco; e limitando em 15% a área de cada propriedade rural para o plantio. É uma forma de atenuar o mal. E afirmo mais, serei um fiscal e serei radical, para que trabalhem dentro das leis ambientais. Temos conhecimento de todos de que eles não respeitam nascentes, reservas permanentes, cercas, nada. Passam por passam por cima de tudo”, criticou.