Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1783- 18 de junho de 2021

Cresce o número no abaixo-assinado contra a cana-de-açúcar

Há cerca de um mês, João Osvaldo Manzan iniciou campanha contra o plantio de cana-de-açúcar no município de Sacramento e, praticamente sozinho, já levantou mais de 500 assinaturas. "Para mim, as autoridades estão passando da hora de tomar uma decisão, porque o plantio de cana é agora. O município já tem uma área grande plantada e, nesse ano, a maioria vai plantar na região de Almeida Campos, cujos produtores não moram em Sacramento. Os daqui queriam plantar, mas resolveram esperar mais um pouco, graças a esses nossos apelos", disse Manzan, satisfeito com o resultado. "As pessoas estão assinando, jovens, principalmente, comerciantes, que inclusive estão questionando sobre o que a Aciapss está fazendo contra isso", disse mais, lamentando a omissão da entidade e até do Sindicato Rural, Manzan, lamenta o desinteresse das autoridades. "A Aciapss ainda não se pronunciou, os comerciantes estão questionando. Mas eles não deram uma resposta positiva. Eu acredito que se fizer um plebiscito na cidade, a cana não ganha. Se um político candidato falar em cana aqui, ele não se elege", justifica e diz mais: " O secretário de Agricultura do município, o João Donadelli, eu ainda não conversei com ele, mas há uma certa preocupação por parte dele".
João Osvaldo ainda não esteve reunido com os poderes constituídos para discutir sobre o assunto. "Agora que estou colhendo as assinaturas, quero primeiro ver de que lado está o povo. Depois é que vou enviar esse abaixo-assinado às autoridades, prefeito, Câmara, e Ministério Público, para que tomem conhecimento".

Outra decepção de Manzan é com o Sindicato Dos Produtores Rurais. "Os produtores questionam muito sobre o papel e a posição do Sindicato. É lamentável, mas a diretoria não definiu nada, aliás eles entendem que não há jeito mais. Como ex-presidente do sindicato vejo com tristeza a entidade não liderar esse movimento. Se a cana vier pra cá como promete, um dos primeiros a ser prejudicado será o Sindicato, que vai perder um grande número de associados". Como o Laticínios Scala tem uma preocupação grande, o sindicato também deveria ter". Segundo João Osvaldo, a presidenta do Codema, Dora Cerchi, é contra o plantio de cana na cidade. "O Codema está ao nosso lado", afirmou.

São cerca de 7 mil hectares de cana já plantados no município e João denuncia: "Soube que a usina Caetés já foi multada no município. Outra denúncia grave que tenho é de que eles estão tapando os bolsões de beira de estradas e até mesmo as estradas. Se estiver acontecendo isso, a prefeitura tem que tomar providências. Ela não pode ser omissa nesse caso".

Manzan está embasado em testemunhos de pessoas de cidades onde proliferou a cana. "Se a cultura de cana fosse boa, Conquista seria uma cidade riquíssima, desenvolvida. Igarapava, Ituverava, Batatais, cadê o progresso dessas cidades. Pelo contrário, todas decresceram. Já fui parabenizado por pessoas de outras cidades que perderam o comércio, as famílias, a saúde, segurança, valor dos imóveis. Ninguém quer morar onde tem cana, ela acaba virando monocultura", diz Manzan, acrescentando que no município, o plantio de cana desse ano deve passar de 10 mil hectares.

E como mais um alerta contra a cana, João Osvaldo Manzan espalhou pela cidade cerca de 20 faixas de alerta com dizeres pedindo a atenção dos produtores rurais sobre a cana.

Crise no setor de grãos pode favorecer a entrada da cana no município

Hermógenes José Ribeiro, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sacramento, participou da reunião com diretores da Usina Caetés, realizada em abril, no salão de festas do Sindicato e ao ser questionado sobre a cultura da cana no município afiram "a cultura de cana já existe em determinadas regiões do nosso município, porém, numa quantidade pequena. Devido à crise, que o setor de grãos está atravessando, a probabilidade do aumento da área desta modalidade de cultivo, no município é grande, porque, no momento, é uma cultura que está dando uma boa rentabilidade por hectare, tornando-se, assim, mais uma opção para o produtor rural. Hoje o produtor precisa diversificar sua produção, porque se, num período, uma cultura não está bem, noutro, está equilibrada, fazendo com que o produtor continue na atividade".
Para Hermógenes, o papel do Sindicato agora é orientar os proprietários de terras "o que precisamos, no momento, e nós, do Sindicato, já estamos fazendo, é orientar os produtores quanto à decisão de plantar a cana ou não. E se plantar, procurar não ocupar toda a propriedade com esta atividade, porque, se surgir uma crise no setor canavieiro, o produtor estará novamente com dificuldades. Já sabemos que uma crise do setor pode ocorrer, como já aconteceu outras vezes, por isso temos salientado a importância da diversificação. Quanto aos contratos, que são feitos com as usinas, e que poderão prejudicar os produtores, no futuro, estaremos atentos a eles, principalmente no que se refere às questões ambientais, pois a monocultura, seja ela qual for, é sempre prejudicial para o município. Mas sabemos que, quando se desenvolve um trabalho de forma sustentável, todos saem ganhando: produtor, indústria e sociedade", afirma.

Secretário de agricultura

O Secretário de agricultura, João Donizete Garcia Donadelli também se manifesta e é veemente em afirmar "sou e sempre fui contra a cana-de-açúcar, só que infelizmente esta já é uma realidade em nosso município. Há 27 anos, em 1979, quando vim para Sacramento foi quando houve uma propagação da cana-de-açúcar na Alta Mogiana e o que fez com que viéssemos à procura de terras para o plantio da soja e do milho. Na época em São José da Bela Vista, onde nasci, nós não queríamos a entrada do produto e muito menos da usina. Porém a usina foi construída no município de São Joaquim da Barra, ficando Guará e São José sem, o resultado foi a produção de álcool e açúcar gerando mais divisas para São Joaquim; já Guará e São José ficaram com as plantações, porém com uma arrecadação muito menor, afirma e também atribui à crise no setor de grãos a proliferação da cana "o que está acontecendo hoje na agricultura é que o agricultor não está conseguindo saldar seus débitos com culturas como milho, arroz, trigo e principalmente soja. Esta crise com o setor de grãos está levando o produtor a plantar cana para tentar sair dos prejuízos. Se você fornecer a cana chegará a ter uma renda líquida de R$ 4.000,00 por ha; já se apenas arrendar para a usina receberá em torno de R$ 458,00 por ha. Não sou favorável à cana-de-açúcar, mas se no nosso município, por exemplo, for plantada laranja, temos que ter a indústria do suco como temos a indústria de laticínios. Para qualquer produto que for produzido no município, o ideal é que ele seja industrializado, para que possa gerar mais empregos e agregar valores, fazendo com que melhore a arrecadação do município. A questão da cana de açúcar tem que ser muito bem estudada para que não fiquemos com a parte ruim do negócio", conclui.