Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Editorial

A educação no topo das discusões

Por Maria Genny Caturegli

Relatório da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgado em 17 de agosto último, constata que, dentre as 163 nações que acataram a recomendação de universalizar a educação para todos até 2015, feita durante a reunião de Dakar no ano 2000, apenas 47 a cumpriram até 2005. O Brasil, infelizmente, não se inclui nesse bloco dos que estão respondendo a contento a esta importante agenda das Metas do Milênio. Além disso, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País tem 33 milhões de analfabetos funcionais – pessoas com menos de quatro anos de estudo – e 16 milhões de pessoas com mais de 15 anos ainda não alfabetizadas. Isto demonstra que os números meramente retóricos sobre melhoria do ensino apresentados pelo governo não comprovam a realidade.

Outra estatística da Unesco revela a necessidade de o Brasil contratar 396,3 mil professores para a escola básica até 2015, colocando-o em primeiríssimo lugar dentre as nações enumeradas, que devem aumentar o número de docentes. À época das eleições, os candidatos são unânimes em afirmar que a educação será a prioridade de seus governos. Entretanto, a história demonstra que, depois de apurados os votos, o tema é relegado ao último plano.

A progressão continuada, que permite às crianças a continuação dos estudos sem que sejam submetidas a uma avaliação de desempenho e possível repetência, apenas serve para alimentar as estatísticas da existência de alunos matriculados no ensino básico. Porém, na verdade, os estudantes passam às séries seguintes sem adquirir as habilidades e competências básicas para ler e escrever. Têm dificuldades até para distinguir as sílabas. Isto, sem mencionar a evasão escolar, cuja redução é o questionável motivo alegado pelos defensores da progressão continuada.

No Curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Rio Branco, na disciplina Prática de Ensino, é proporcionado aos alunos, futuros professores, o treinamento necessário para sua aprendizagem. Uma das vertentes desse processo de aperfeiçoamento é a sua atuação no trabalho de reforço escolar de estudantes de escolas públicas. Tal experiência vem demonstrando que algumas crianças, embora matriculadas na 4ª série do Ensino Fundamental, não conseguem ler ou escrever.

Urge insistir na capacitação dos docentes, inserindo-os nas novas tecnologias da educação, a fim de que possam acompanhar as transformações culturais que marcam o século XXI. Também é essencial motivá-los para conscientizar os alunos sobre as necessidades de aprendizagem para sua vida futura. O conceito das PPPs (Parcerias Público-Privadas), que, conforme lei federal aprovada há mais de um ano, deverá contribuir para mitigar o gargalo da infra-estrutura, bem que poderia inspirar soluções para evitar a falência da educação, a crônica de uma morte evidenciada pelas estatísticas.

Afinal, muito mais até do que portos, aeroportos, estradas, energia e telefonia, a democratização do conhecimento e da cultura é fator condicionante ao desenvolvimento brasileiro. Neste contexto, a contribuição financeira das empresas serviria para cobrar resultados positivos do poder público, preenchendo a lacuna que a sociedade civil está deixando em aberto.

(*) Maria Genny Caturegli é doutora em Ciência da Comunicação e coordenadora do curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Rio Branco