Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Editorial

Entre vícios e virtudes, uma ponte sem medo.

Maria Elena de Jesus (*)

Vícios e virtudes foi o tema do FACC/2006, da Escola Estadual Coronel José Afonso de Almeida, com o lema “Entre vícios e virtudes, uma ponte sem medo”. Assunto muito propício para os mais de 500 jovens do Ensino Médio, que vivem, como milhares de outros de igual idade espalhados por todo o mundo, um dilema: o que é certo e o que é errado. Falar de valores humanos significa, sobretudo, destacar do homem, a capacidade de produtor da realidade construída a partir de uma consciência do que valoriza e transmite, realiza e transforma. Mas afinal, quais são os valores de hoje? Que exemplos temos em meio a tanta corrupção, injustiça, desigualdade social, autoritarismo de uns, passividade de outros, ganância, inveja? Nunca se falou tanto de paz e o mundo nunca esteve tão violento? ... Em que mundo estamos, como vivemos ou como vive o jovem envolvido no FACC?

O jovem é taxado, por muitos, de rebelde, alheio, irresponsável, mas, se nos perguntarmos chegaremos a algumas respostas. O que o mundo lhes oferece ou lhes cobra? Um cartão de credito? Um celular da moda? Uma roupa de grife?. Como educar uma geração num mundo que cobra o ter? O ser não é nada, é o descartável no dia-a-dia.

Quantos garotos e garotas têm que mentir pra se firmar no grupo social. O que não bebe na festinha de classe é filhinho da mamãe. A que nunca transou é santinha e motivo de chacota. O que chega em casa cedo é medroso. O que vai à igreja é carola. O que faz caridade é cafona. O educado é mariquinha. Se o jovem está rodeado de meninos é bicha, se forem meninas é garanhão. A menina então, é ´galinha´ ou ´sapatão´.... e por aí vão as críticas e mais críticas, que só quem vive atento no meio de jovens conhece e aí vale qualquer coisa para se firmar no grupo social, a isso chamamos vícios modernos.

Por essas e outras questões analisadas, vieram à tona Sócrates (470-390 a.C), um dos primeiros a tratar de vícios e virtudes, Platão, Aristóteles, cada um aperfeiçoando o assunto. Chegamos à Era Cristã que encontrou em Santo Agostinho "a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente" e Santo Tomaz de Aquino “a virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício" um novo conceito. Mais tarde Kant deu uma grande contribuição sobre o tema, embora por outros caminhos, tenha caído no mesmo erro dos antigos estóicos, dando-nos uma ética vazia, que se destrói a si mesma. (...) e um a um dos filósofos foram se abrindo nas pesquisas, até os nossos dias.

Mas afinal quais são as virtudes? Aí cada uma das clássicas virtudes entrou em cena, independente de serem adquiridas por esforço ou não, mas por serem todas essenciais na vida do homem: a Prudência, a fortaleza, temperança, justiça, a fé, a esperança e a caridade. Mas muitas outras vieram à tona: fidelidade, generosidade, solidariedade, gratidão, simplicidade, tolerância, humildade, respeito, alegria, bom humor, enfim as virtudes que cada um traz dentro de si, mas que vão se deteriorando diante das mazelas a que assistimos diariamente. A conclusão final, por certo foi a de que sem a prática das virtudes não há amor. E a frase mais usada por muitos, foi a de Spinoza “se cultivarmos as virtudes, não precisaremos corrigir os vícios”, isso porque as virtudes conduzem ao amor, a virtude das virtudes.

Na Escola Coronel cujo lema é “educação para a vida com dignidade e esperança”, a semente foi (re) plantada, em cada um dos 537 jovens do Ensino Médio. Eles poderão no futuro não ser grandes acadêmicos, mas por certo serão grandes seres humanos, mais solidários, mais caritativos, mais justos, mais amigos, mais respeitosos a si mesmos e aos outros. A semente foi (re) plantada, agora é regar, cuidar com carinho e colher os frutos. É essa a educação do século XXI, formar homens e mulheres completos como pessoas prontas a enfrentar as adversidades que a vida se lhes mostra.

(*) Maria Elena de Jesus é profa. de Língua Portuguesa