Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Editorial

Finados

Por Ivone REgina Silva

Dia de Finados é o dia da celebração da vida eterna das pessoas queridas que já faleceram.
Todas as palavras das ciências calam-se diante da morte. A medicina luta até o último instante da vida do paciente. Quando os sinais vitais se apagam, ela amarga a derrota. E definitiva!
Várias explicações são dadas pelas religiões, porém, continuamos diante do maior dos mistérios humanos.

O finados que procuramos celebrar é o finados da esperança.
Para os que não crêem, finados é só tristeza, saudade... Tudo vai dar em nada.
Para os que têm fé, finados é um grande sacramento. Recordamos a vida de nossos mortos, o que eles foram e o que nos deixaram, o amor com que nos amaram e com que os amamos.
Se pudéssemos ter consciência do quanto nossa vida é efêmera, talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes.
Muitas flores são colhidas cedo demais. Algumas, mesmo ainda em botão.

Há sementes que nunca brotam e há aquelas flores que vivem a vida inteira até que, pétala por pétala, tranqüilas, vividas, se entregam ao vento.
Mas não sabemos adivinhar. Não sabemos por quanto tempo estaremos enfeitando esse Éden e tampouco aquelas flores que foram plantadas ao nosso redor. E descuidamos. Cuidamos pouco. De nós, dos outros.
Nos entristecemos por coisas pequenas e perdemos minutos e horas preciosos. Perdemos dias, às vezes anos. Nos calamos quando deveríamos falar;
falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio. Não damos o abraço
que tanto nossa alma pede porque algo em nós impede essa aproximação.

E passa a noite e chega o dia, o sol nasce e adormece e continuamos os mesmos, fechados em nós. Reclamamos do que não temos, ou achamos que não temos suficiente. Cobramos. Dos outros. Da vida. De nós mesmos.
E o tempo passa... Passamos pela vida, não vivemos. Sobrevivemos, porque não sabemos fazer outra coisa.

Até que, inesperadamente, acordamos e olhamos pra trás. E então nos perguntamos: e agora? Não olhe para trás. O que passou, passou.
O dia de Finados leva-nos a uma reflexão maior. Estamos perdendo a nossa vida? O que nos aguarda?
A lembrança de nossos mortos, consola-nos despertando, em nós, o desejo de abraçá-los outra vez.

Há uma vontade de rasgar o infinito para descobri-los. De retroceder no tempo e segurar a vida.
A lágrima cristalizada, distante e intocável. Essa saudade machucando o coração. Esse infinito rolando sobre a nossa pequenez. Esse céu azul e misterioso.

Ah! Aqueles que já partiram! Aqueles que viveram entre nós. Que encheram de sorrisos e de paz a nossa vida. Foram para o além deixando este vazio inconsolável. Deles guardamos até os mais simples gestos. Sentimos, quando mergulhados em oração, o ruído de seus passos e o som de suas vozes. A lembrança dos dias alegres. Daquela mão nos amparando. Daquela lágrima que vimos correr. Da vontade de ficar quando era hora de partir.
Que ausência tão cheia de presença! Que morte tão cheia de esperança e de vida!

(*) Ivone Regina Silva, Conselheira Seccional – OAB/MG