Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Que tal passar um ano no Canadá?

Edição nº 1710 - 17 de Janeiro de 2020

O casal Márcio Pereira e Eliana Ribeiro botou os filhos na mochila e se mandaram para o Canadá. Poderia ser um ano de férias, mas os objetivos foram outros. Os quatro se matricularam em escolas canadenses, os meninos em escolas públicas, dando prosseguimento ao nível em que estavam, sem perder o ano letivo. Nas férias escolares rodaram o país, de Quebec a Vancouver, e se extasiaram com a beleza do país e com a responsabilidade e exemplos de cidadania do canadense. “Embora não muito dados às amizades, a população tem muito respeito e carinho pelos imigrantes’... Veja na entrevista. 

 

ET - De um país tropical para um país vizinho do Polo Norte. Por que essa guinada de 40 graus acima para 40 graus abaixo de zero? Qual o motivo da escolha do Canadá?

Márcio - Escolhemos o Canadá, primeiro, em função da língua, porque nosso objetivo era em especial que os meninos aprendessem a língua inglesa de forma fluente, corrente e, se possível, até com sotaque próprio da região. O segundo motivo, o que é importante também, a possibilidade de conviver com um povo que aceita o imigrante de uma forma mais fácil, que outros países.  O Canadá tem por política uma boa aceitação do imigrante, é um país com pouco ou nenhum preconceito com aquele que vem de outro país para estudar, trabalhar ou mesmo morar.  E que nos dá a possibilidade de conhecer outras culturas, porque é um pais que tem uma imigração muito grande. 

 

ET – Na prática, vocês de fato perceberam esse cosmopolitismo?

Márcio - Sim, os meninos puderam conviver com diversas culturas em especial, hindus, chineses, coreanos, europeus de vários países, todos com culturas bem diferentes. E os meninos, embora estejam num país diferente, puderam vivenciar isso.  Só para se ter ideia, eles estudavam numa escola pública, com tantos imigrantes, que lá se falavam 34 línguas diferentes.  

 

ET – Tem uma terceira justificativa?

Márcio - Sim, um terceiro e quarto motivos. O terceiro está no valor do dólar, afinal o dólar canadense é ¾ do dólar americano, então é uma possibilidade de economia. Por último, porque é um país com qualidade de vida, com um sistema de escola pública que está entre os dez mais no quesito avalição de escolas.  E posso ainda acrescentar um quinto motivo, as paisagens, a beleza do Canadá, que é um país muito bonito. Apesar do frio, tem uma natureza exuberante. 

 

ET - Como escolheram o lugar? Isto foi programado antes ou foram naquele velho estilo hippie: vamos e nos arranjamos por lá!'?

Márcio - A princípio, tínhamos pensado em ficar um ano fora, nos EUA, mas um amigo que passou sete meses no Canadá, em Victoria, na costa Oeste, me aconselhou e me convenceu que seria uma opção melhor, o que nos fez procurar uma empresa que organizasse esse tipo de viagem. Mas foi também programado, aliás, o mais importante de tudo é programar. Nós programamos essa viagem durante dois anos, em relação a três itens principais: nosso trabalho, escola e a parte econômica. 

 

ET - Já tudo arranjado no Brasil?

Márcio - Através dessa empresa, já fomos com escola acertada, um mês de hotel pago, porque durante esse mês iriamos alugar uma casa, adquirir um veículo, tirar a carteira de habilitação canadense ou seja, foi tudo muito bem planejado. Optamos por não ir com visto de turismo, porque os meninos, por estudarem numa escola pública, já teriam o visto de estudante. Para evitar de ficar renovando visto de turista e até correr o risco de ele ser negado, optamos pelo visto de estudante. 

 

ET - Mas e os pais, como se arranjaram?

Márcio - Eliana e eu nos matriculamos numa escola de línguas por um período superior a seis meses e, conseguimos o visto de estudante, que tem validade por dois anos, ou seja, poderíamos voltar ou ficar mais tempo. Importante também frisar, que além do planejamento, pagamos grande parte da viagem, para não passarmos por dissabores, sobretudo a variação do dólar.  A casa conseguimos alugar em 15 dias e fomos reembolsados pelo aparthotel. Resumindo, a viagem foi fruto de planejamento de dois anos.

 

ET - Em que cidade ficaram?

 

Eliana - A princípio, a empresa nos deu três opções de cidades, Prince Edward, mas é uma região muito fria. Outra opção era Victoria, ao lado de Vancouver e London, pela qual optamos, por ter um fuso horário muito próximo do Brasil e um custo de vida mais barato do que uma cidade grande.   Nós moramos em London, em Ontário, que fica a 180 km de Toronto. E a escolha da cidade, a princípio, foi por conta da logística, pensando em voltar ao Brasil a cada três meses e morando  em London seria mais fácil, mas na verdade, Márcio e eu viemos uma vez apenas, por ser muito cansativo e o alto custo. 

 

Márcio - É bom dizer também que não estamos pintando uma maravilha, não, porque a vida para o imigrante lá é muito difícil. A nossa situação foi diferente. Nós fomos, sabendo que iriamos voltar, mas para quem vai com o intuito de ficar, é muito diferente, e não é fácil em todos os aspectos: emprego, língua, comida, religião, relações humanas... 

 

ET - Mas e a política de boa aceitação ao imigrante?

Márcio - Sim, é um país cosmopolita, como disse. Mas lá não existe o calor humano, amizade, que temos aqui, não. É cada um por si, ninguém chama pra fazer uma visita, tomar um café, uma cerveja... As relações humanas são muito 'frias', inclusive, entre familiares. Os pais, pessoas idosas se preparam a vida inteira para morar sozinhos ou  em 'casas de acolhimento' e existem muitas, inclusive públicas.  Então, posso dizer que o começo de vida lá, os primeiros anos, é muito complicado, embora as perspectivas em regra sejam bem melhores do que aqui. Mas se não tiver persistência, não for insistente, não fica. 

 

ET - Seria possível exemplificar todas essas despesas. Por exemplo, o custo mensal para esse turismo de um ano. 

Eliana - Essa questão de despesas é muito relativa, dependendo do padrão de vida que a pessoa quer levar e de seus objetivos.

 

Dr Márcio - Tem que saber se a pessoa vai como imigrante, vai como turista ou como estudante. Eu, por exemplo, tive um gasto que talvez muitos não gostariam de ter. Eu tirei a carteira de habilitação e comprei um veículo. Se a pessoa vai pensando em imigrar é um custo de vida bem diferente do que fizemos, que foi uma mistura de aprendizado e turismo, tanto é que todos nós estávamos matriculados para estudar. Viajamos muito, conhecemos várias cidades.

 

ET - Com quase 10 milhões de Km², o Canadá é o 2º país em extensão territorial do mundo, porém não tão populoso... Dá pra sentir que é um país desabitado, poucas cidades, área rural pequena... No ponto de vista físico, como é o país?

Márcio – O Canadá é a nona economia do mundo, tem uma renda per capta muito alta, é o segundo maior país em extensão do mundo, bem maior que o Brasil que é o quinto em extensão, porém tem uma população cinco vezes maior. Já o Canadá tem pouco mais de 37 milhões de habitantes, e isso faz com que o país tenha imensas regiões inabitadas. Por isso eles têm uma política de aceitar, receber, um milhão de imigrantes entre 2019 e 2021...

 

ET - Por quê?

Márcio - Porque a população além de ser pequena pelo tamanho do país, ela tem idade avançada e baixo índice de natalidade, então o país precisa do imigrante. Eles não só aceitam bem, como precisam deles. Canadá é um país com oportunidades mil. Lá a procura é grande por pessoas da área da saúde, enfermeiros e médicos, porque eles têm um sistema de saúde pública muito atuante.  

 

Eliane - A procura é grande também por veterinários, caminhoneiros, pessoas da área de tecnologia da informação e tantas outras, porque falta mão de obra em diversas áreas, como motorista de caminhão, por exemplo. Então, para quem é jovem, é um país com muitas possibilidades. E eles evitam aceitar imigrantes acima de determinada idade. Por exemplo, em Ontário, imigrantes acima de 44 anos têm muita dificuldade, porque não pontuam mais em função da idade, a exceção de algumas profissões ou situações, como refugiados. Eles precisam de força de trabalho jovem, talvez por isso eles aceitam tão bem os imigrantes. 

 

ET - Falando nesse aspecto, o Canadá prima pela sua beleza, cidades, parques, Niagara Falls... Podem falar um pouco do que mais gostaram, o mais bonito, o que o turista não pode deixar de conhecer? É caro o turismo interno?

Márcio - São tantas opções! O país é muito bonito. A gente acha que em relação à natureza, nós brasileiros temos, talvez, a mais bonita do mundo, mas lá também é muito bonito. Há regiões maravilhosas. Visitamos Quebec e ficamos maravilhados. É uma, digamos, cidade europeia nas Américas, embora seja muito fria. Visitamos também vários lugares na região de Ontário, que é a província mais rica, onde se fala inglês.  As cidades sempre bem estruturadas e os parques, maravilhosos, todos sem muros. A gente pode pedalar, 30, 40, 50 km ligando um parque com outro, e isso dentro da cidade. 

 

ET - E Niagara Falls?

Dr Márcio - As pessoas falam muito em Niagara, sem dúvida é muito bonita, mas se você for nas montanhas Rochosas, do outro lado, próximo da costa Oeste, você fica atordoado com a beleza. Os lagos, as montanhas, a estrada com um estrutura fantástica para o turista. É de fato coisa de outro mundo. No Brasil temos dificuldades de acesso a pontos turísticos naturais. Lá, não. As estradas são todas asfaltadas, ligando todas as regiões. Há hotéis, postos de combustível, tudo dentro dos cinco parques nacionais na região das Rochosas, que têm uma área maior que a de Portugal, por exemplo, e tudo ligado por asfalto, boas pistas. Ao contrário do Brasil, onde temos que nos aventurar por estradas de terra, sem a mínima infraestrutura. 

 

Eliane - Um passeio que vale a pena é a ligação entre Vancouver e Victória, feito por balsa, que vai passando por várias ilhas do Pacífico. E se tiver um pouco de sorte pode avistar uma baleia, como pudemos. Enfim, a natureza é maravilhosa. E há uma grande preocupação com a preservação que é respeitada por todos os turistas que têm pleno acesso a esses locais. Enquanto aqui no Brasil, que dificuldade é para visitar a Serra da Canastra, onde nada é permitido e sem a mínima infraestrutura, nem mesmo o básico, como uma estrada asfaltada. 

 

ET - E para as crianças... podem dar sua opinião e dizer por que agradaram mais desse ponto turístico escolhido?

Emannuel - Achei Quebec muito bonita, porque é uma região muito histórica. Gostei muito também de London, onde morávamos, uma cidade grande, com 400 mil habitantes, com shoppings e muitas opções de turismo e compras. 

 

Helena - Gostei de um parque perto do Toronto, chamado Wonderland, parecido com o parque da Disney, com muitas atrações. E, também, os parque nacionais de Jasper e Banff, na montanhas Rochosas. 

 

ET - Vamos aproveitar os filhos que entraram na roda e falar um pouquinho sobre:

Vida escolar do estudante canadense: Como funciona o regime escolar no Canadá? O ano letivo começa quando e vai até quando? Foi possível frequentar alguma escola?

Helena - O ano letivo começa em setembro, eu cursei apenas seis meses do sétimo ano aqui e chegando no Canadá comecei no oitavo ano, ou seja, me formei lá, porque depois vem a high scholl (segundo grau/ensino médio), que seria noutra escola, com estudantes mais velhos. 

 

Emannuel - Este tempo no Canadá me ajudou a entender e a conhecer uma nova cultura, inclusive dos imigrantes que vivem lá e também aprender uma nova língua.  Estudamos numa escola pública, muito diferente das nossas escolas. Tem muito lazer, a gente sempre lia um livro. E não usam cadernos, é tudo feito no computador/notebook.  

 

ET - Me dão licença os pais. Ainda com Helena e Emannuel, como é a vida do jovem canadense? A escola é obrigatória? A vida cotidiana do jovem, o passa tempo...

Helena - O jovem canadense não tem o hábito de sair toda semana. Eles gostam de fazer as coisas na idade adequada. E quando saem vão em grupos mas bem menores que os grupos aqui no Brasil. Uma coisa que fazíamos com mais frequência, uma ou duas vezes por semana, era passear no shopping que havia em nosso bairro, geralmente acompanhada com uma amiga ou um grupo pequeno de colegas. Ali íamos às lojas, cinema, conversávamos... 

 

ET - A escola...

Helena - É obrigatória para todo jovem. E se o aluno faltar eles enviam e-mail ou whatsApp para os pais, para verificar o que aconteceu ou se o aluno está 'matando aula'. Depois de três faltas, a escola manda a polícia atrás para saber o que está acontecendo. 

 

Márcio - Os jovens canadenses têm uma vida social bem diferente dos jovens adolescentes do Brasil. Eles não vão tanto a bares, tanto é que a maioria deles fecham às 22h. Eles têm muitas oportunidades de teatro, parques, muitos shows, patinação e outros esportes... São muito ligados ao hóquei, que para eles é o nossos futebol. Eles têm paixão por esse esporte. Toda cidade tem seu time. Nesse ano em que estivemos lá, eles deram também muita atenção ao basquete, porque o Toronto Raptors foi campeão da NBA. 

 

Eliane - E na escola eles se desenvolvem muito na arte, música, teatro e muito esporte. O país é muito preocupado com a educação básica que, como a Helena disse, é obrigatória. Um fato interessante é que não há muitas universidades no Canadá como há Brasil. A maioria dos estudantes faz o College, que é equivalente a cursos técnicos no Brasil, embora alguns ofertem cursos universitários. Mas saiu da educação básica tudo é pago, embora não seja caro, tanto para o cidadão canadense quanto para os residentes, mas para o estudante internacional é caríssima. Eles usam dessa oportunidade dos estudantes internacionais para financiar os residentes ou o cidadão canadense.

 

ET - A programação curricular da escola canadense é semelhante à nossa, o ensino tem tempo integral?..

Márcio - A grade curricular das escolas canadenses é bem diferente das escolas brasileiras. As aulas iniciam às 9h e terminam às 15h30. Após esse horário, iniciam-se as aulas práticas de esporte, principalmente para quem está participando de equipes em competição.  Helena participou do time de softbol e Emanuel e também Helena participavam da banda da escola, então ficavam até mais tarde. Uma coisa que percebi, é que a educação é muito mais voltada para a prática do que para a teoria. As escolas públicas não têm ensino religioso, apenas as escolas privadas que são católicas.

 

Emanuel - O que é diferente na grade curricular é o francês, porque na província (estado) Quebec fala-se o  francês. 

 

Helena - Excetuando o francês, as demais disciplinas são básicas, matemática, geografia, ciências, etc. O inglês não é estudado como o português aqui. Como eles já sabem  e falam a língua, eles praticam redação, escrita e criatividade, afinal o inglês é a língua deles. Tínhamos aulas de drama (teatro) e muitas aulas de educação física, todos os dias,  aulas de 50 minutos. A prática de esportes nas escolas é muito forte. A cada bimestre são formados times para as competições entre as escolas públicas, como o JES que temos aqui.

 

ET - Seu pai disse que você participava da equipe de Softbol. Explique como é esse esporte e a experiência vivida nas competições.

Helena - O softbol é um beisebol praticado com uma bola maior. Eu jogava na terceira base e foi uma experiência muito legal. Tínhamos também uma aula de “Coisas saudáveis”, em que o professor discutia sobre a sociedade, drogas, bebidas. Outra aula interessante que tivemos foi  sobre a  maconha, que lá é legalizada, e, no final, temos que escrever nossos ponto de vista, as coisas boas e as ruins da legalização.  Outra coisa também muito interessante, e que durou um mês e meio, foi um formulários que tivemos que fazer diariamente, falando sobre o que comemos de saudável e o que fizemos de exercícios na escola. 

 

ET - Ensino Religioso?

Helena - Não tem ensino religioso, ou melhor, não falam em Religião. E uma coisa que achei muito interessante em relação às matérias foi a Música. A escola estimula muito a música. Os alunos podem escolher o instrumento que quiser tocar, trompete, tuba, enfim qualquer instrumento de sopro ou percussão. Eu escolhi e estou aprendendo flauta transversal. A escola tem uma banda e eu treinei tanto em casa que consegui fazer parte da banda, que faz apresentações em escolas e outros lugares. E todos da banda são muito dedicados. Um dia por semana tínhamos que chegar mais cedo para ensaiar a banda. Os instrumentos são da escola, mas cada aluno é responsável pelo seu e no final da aula, cada um tem que fazer uma limpeza geral no instrumento. Ganhei um ukulelê (instrumento semelhante ao nosso cavaquinho, mas de origem havaiana, com cordas de nylon) uma e toco até hoje. 

 

ET - O regime escolar, como disseram, é público e privado. O acesso à escola pública é gratuito para os turistas e para aqueles que passam uma temporada no país?

Eliana – Sim, há os dois regimes, porém o público é gratuito apenas para os canadenses e residentes. No nosso caso, os meninos estudaram em escola públicas, mas pagamos por isso. As escolas privadas são católicas e são caríssimas. Uma coisa interessante é que lá, as pessoas não escolhem onde estudar, a escolha é feita pelo sistema de acordo com o local de residência do aluno. Ele sempre estuda na escola mais próxima de sua residência. Ainda assim, o ônibus escolar transporta os alunos. Dão muito valor à segurança. Em cada escola há guardas no portão de entrada, embora fosse um bairro tranquilo. A questão de segurança lá é prioridade. E tudo que acontece na escola é notificado aos pais. 

 

Márcio - Para quem vai na nossa condição de estudante internacional, uma mistura de turismo com aprendizado, pagamos e pagamos caro. Quem vai como nós, acaba financiando o estudo daqueles que não pagam. Agora, se tem o visto de residência ou de trabalho ou com visto de estudo para uma universidade, o ensino é gratuito. 

 

ET - Como funciona o trabalho no Canadá para jovens estudantes?

Márcio - Os jovens que vão para trabalhar, normalmente vão com o visto de estudante ou com o visto de trabalho. Depois de alguns anos podem tentar o visto de residência e, uma vez conseguido, podem iniciar o processo para a cidadania. Esses jovens que vão nessa situação, geralmente, procuram uma escola menos 'puxada' e têm permissão para o trabalho em escala de meio horário, que são 20 a 24 horas por semana. Só que dependendo do curso eles não têm essa permissão. Mas se tiverem família, o cônjuge também têm permissão para trabalhar. Isso acontece muito lá com os hindus. Eles vão estudar e trabalhar por meio período. Após eles 'aplicam' para o visto de residência. 

 

ET - Há muito trabalho ilegal?

Márcio - Essa questão de trabalho ilegal, praticamente não existe no Canadá, porque o canadense não dá trabalho para quem está ilegal no país.  Por isso, os jovens vão com visto de estudante. Mas dependendo da formação do jovem, ele já entra no país com a permissão para o trabalho em tempo integral, porque o país precisa de muitos profissionais, mas têm que ter formação: eletricista, pedreiro, motoristas, enfim para todas as ocupações é exigido o College (curso de nível superior destinado à formação tecnológica). No caso dos estrangeiros, passam por uma adequação do currículo escolar e da profissão, de acordo com as leis vigentes do país.  

 

ET - Pra finalizar, depois de um ano no Canadá, que avaliação Helena e Emanuel podem fazer? O que a viagem acrescentou em suas vidas?

Helena - Além de ter aprendido inglês, evoluído mais de 100%, para isso os colegas e amigos me ajudaram bastante, acho que o que mais aprendi foi sobre a cultura do país, porque tudo é muito diferente.  A minha ideia de mundo, de cultura mudou muito. Amadureci bastante...

Márcio - Foi muito bom, sobretudo porque fomos em família e ficamos muito próximos. Para os meninos, que estão muito novos poderem fazer essa imersão numa cultura diferente foi muito válido. Aprender o inglês tão bem, porque voltaram falando fluentemente, até porque na idade deles, as escolas não se preocupam com a gramática e, sim, com a proficiência na língua através da leitura, escrita e discussão. Eles conheceram novas culturas o bastante para perceberem que não existe o certo e o errado, existem, sim, culturas diferentes. Este um ano no Canadá foi muito importante para nós, sobretudo para Helena e Emanuel.

 

ET - Em que sentido?

Márcio - Primeiro, por conhecerem um novo país e tirar lições. Por exemplo, no Brasil as pessoas não seguem regras e lá eles aprenderam que regras foram feitas para serem seguidas. E nisso o Canadá dá lição, todos seguem as regras, as leis. Não tem meio termo, ou pode ou não pode. Vivemos numa cidade de quase 400 mil habitantes e nunca vimos uma pichação em nada. Qualquer pessoas que vê alguma coisa errada, chama a polícia e fica para testemunhar. A visão de coisa pública é fantástica. Lá o que é público é de todos e todos têm que cuidar, não é o governo que cuida. Canadá tem pouco problema de alcoolismo no trânsito, porque a lei é rigorosa e a poluição é certa.

 

ET - Por quê?

Márcio - Porque por menor que seja a quantidade de álcool no sangue há punição, perdem a carteira e vão presos na hora. O policial faz isso na hora, na calma, com respeito, mas não tem conversa, a prisão é no ato e ficam presos, bem diferente do Brasil. Outra coisa, horários são cumpridos à risca, isso é regra e não tem meio termo. Então quem for para o Canadá tem que entrar no ritmo do aís, caso contrário não fica.  Lá é assim: 'é cumprir ou cumprir' as regras, e isso vale para todos.  O jeitinho brasileiro não funciona no Canadá.