Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1771 - 26 de Março de 2021

Da Santa Bárbara para o mundo

Edição nº 1675 - 17 de Maio de 2019

Carlos Roberto Prudêncio 43 é daqueles sacramentanos que fazem a diferença mundo a fora. A exemplo de muitos filhos da terra daquela época, nasceu em Uberaba e, nos primeiros dias de vida, retornou para a fazenda Santa Bárbara, pequeno povoado a 63 quilômetros da cidade, onde foi criado com zelo e esmero pelos pais, Darcy Garcia Prudêncio e Lilônio Honório Prudêncio, de saudosa memória. 

As primeiras letras foram na fazenda mesmo, até concluir o ensino médio na Escola Coronel, de onde saiu para fazer o Cursinho em Uberaba. Dali a Universidade foi um pulo. Ingressou no curso de Medicina Veterinária, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde cursou também mestrado e doutorado em Genética Animal.  

E não parou mais, a sede de aprender o impulsionava a novos cursos, pós-doutorado em Biotecnologia, no Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos, IREC, da Universidad de Castilla La Mancha na Espanha, em 2009. Retornando ao Brasil, em 2010, veio outro pós-doutorado na USP e também prestou com sucesso, dois grandes concursos,  nos Instituto Pasteur e Adolfo Lutz, ambos da Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo. Aprovado em primeiro lugar em ambos, optou pelo Instituto Adolfo Lutz (IAL) na capital do estado. Continuou se aperfeiçoando fazendo especialização em MBA sobre inovação e cursos específicos nos Estados Unidos, em Cold Spring Harbory em Nova York. É co-orientador no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Biotecnologia (ICB, IB, FMVZ, EP). Professor do Curso de Especialização em Vigilância Laboratorial em Saúde Pública, Membro da Rede Nacional de Especialistas em Zika e Doenças Correlatas, criada pelo Ministério da Saúde. É coordenador do Laboratório de imunotecnologia do Centro de Imunologia no qual as linhas de pesquisa estão focadas em temas de interesse em Saúde Pública.

Com toda essa bagagem e muito mais, o professor doutor Carlos Prudêncio continua o mesmo menino que saiu de Santa Bárbara para ganhar o mundo. Simples, humilde e dono de uma imensa cordialidade. Volta e meia está em Sacramento. E foi numa dessas voltas que recebeu o ET para uma entrevista. Veja. 

 

Na Espanha, levei tecnologia ao invés de buscar

ET - Carlos, fale um pouquinho do menino que viveu toda a infância na zona rural e hoje é doutor e pesquisador.

Dr Carlos - Nasci em Uberaba, meus pais tinham casa lá. Só nasci, porque, após o resguardo de mamãe, já vim pra fazenda, onde meus pais sempre viveram e onde também passei a infância. Comecei os estudos na escolinha da Santa Bárbara, depois fui para a escola do Quenta Sol até o quarto ano. Vim para Sacramento, para a casa de familiares, até que meus pais compraram uma casa, onde fiquei morando sozinho, a partir da 8ª série, até concluir o ensino médio na Escola Coronel. 

 

ET - Já com uma profissão definida? 

Dr Carlos - Eu queria ser veterinário, fiz um ano de cursinho em Uberaba e ingressei na UFU, em 1997, e lá permaneci até 2008, cursando também o mestrado e o doutorado na área de Biotecnologia Animal, sempre seguindo a linha de desenvolvimento de vacinas. Mas no final dos curso, vi que ainda não estava dentro do que eu queria. Consegui uma bolsa de pós-doutorado pela CAPES em 2009, na Espanha, e lá estudei com uma pessoa referência, um dos expoentes em desenvolver vacinas contra o carrapato bovino, o Dr. Jose De La Fuente. 

 

ET - Mas no Brasil você teve também grandes mestres na área? 

Dr Carlos - Sem dúvida. Além de grandes professores na graduação, no mestrado e doutorado na UFU tive como orientador uma grande referência, uma das pessoas mais admiráveis em termos de estar à frente do tempo, que é o professor doutor Luiz Ricardo Goulart. Foi ele a principal pessoa que fez a minha formação profissional, pela base que ele me deixou, porque o que faz um profissional é principalmente o mestrado e doutorado, que é o que constrói a sua mentalidade científica, depois é aprimorar. 

 

ET - A Universidade Federal de Uberlândia pode ser considerada uma referência nesses estudos?

Dr Carlos - Sem dúvida, quando fui para a Espanha, levei tecnologia, em vez de buscar, ou seja, o que eu tinha aprendido no doutorado da UFU, apliquei lá na Universidade. O Prof. De La Fuente havia desenvolvido uma vacina contra o carrapato, que tinha uma eficiência, mas não era aquela ainda adequada. E lá fomos entender o que estava acontecendo: Por que a vacina imunizava bem um animal, mas noutros a imunização era baixa? E chegamos a uma conclusão a partir das metodologias que eu havia aprendido no doutorado da UFU. Concluí, depois, o Pós-doc e comecei a pensar que teria que escolher um rumo definitivo para a minha vida...

 

ET - Até então você só estudava, dinheiro como profissional, nada...

Dr Carlos - Eu sempre quis desbravar, aprofundar conhecimento, até então só estudava, mas no doutorado o meu projeto foi desenvolvido em associação com a Vallée. Na época em 2004, ele foi aprovado e custava R$ 500 mil. E como era uma linha que a Vallée queria desenvolver, foi um grande desafio, porque, naquela época e ainda hoje fazer parceria público-privada era quase um atentado, por isso uma das grandes dificuldades é trabalhar com ciência no Brasil. Mas eu sempre quis desafiar, desbravar, conhecer, saber, sair daquela condição de menino da Santa Bárbara, mexendo com roça em paralelo, mantendo os negócios do meu pai juntamente com minha mãe… 


ET - Foi quando escolheu voltar...

Dr Carlos - Eu tinha tudo para continuar na Espanha, porque fui muito bem, consegui trabalhar num ambiente objetivo, focado, produzi bastante. E findo o curso, eu tinha duas opções: construir uma carreira fora, porque tive proposta para ir para a Itália; poderia ficar na própria universidade na Espanha, uma oportunidade de trabalhar com as melhores pessoas na área. Por outro lado, pensava na minha mãe aqui (perdi meu pai, quando cursava o mestrado e ainda tinha a propriedade rural para cuidar), pensava na fazenda, na base de vida, num relacionamento que deixei para trás. A outra opção era voltar para o Brasil, o que aconteceu em 2010, quando ocorreram concursos na Embrapa e nos institutos, Fiocruz, Pasteur, Adolfo Lutz, e algumas universidades. Como pesquisador, para seguir na área acadêmica no país, tem que ser em universidade pública. Fiz concursos, no Instituto Pasteur e no Instituto Adolfo Lutz (IAL), e fui aprovado em primeiro lugar nos dois. Como o concurso foi em 2011, ainda continuei fazendo o segundo pós-doutorado na USP.

 

ET - Aprovado, empossado partiu para as pesquisas?

Dr Carlos - Na verdade levou um ano para a posse. Comecei no Instituto Adolfo Lutz (IAL) em 2012. Já entrei em projetos de pesquisa, ganhei o meu espaço, ocupei cargos importantes, na área de Inovação, fiz MBA em Inovação e Gestão da Saúde. Em  2016, apareceu o Zika, vírus transmitido pelo Aedes aegypti, e fui chamado para trabalhar nessa área e nesse momento consegui um upgrade muito grande na minha carreira, porque estava estabilizado, pude criar grupo de trabalho e pleitear recursos grandes. Isso é o que eu considero o amadurecimento científico, porque a gente é um núcleo de ideias e de ações, e com esse projeto do Zika, entrei com os maiores pesquisadores do Brasil para ajudar a responder às várias perguntas da época...

 

ET - O projeto ficou restrito ao instituto ou envolveu outros pesquisadores?

Dr Carlos - Muitos outros. Conseguimos um investimento grande, exatamente porque o projeto envolve muitos pesquisadores do país. Ou seja, estava sentado com aqueles pesquisadores que eu admirava, e considero que entrei num know how que me deu muita maturidade. De lá pra cá trabalho nessas condições: tenho grupo de pesquisa, colaborações nacionais e internacionais, um projeto que envolve várias instituições e dentro da missão do IAL, que engloba apresentar soluções laboratoriais, apresentar diagnóstico e o controle do vírus zika no âmbito de Saúde Pública. 

 

ET - Em que pé estão as pesquisas, isto é, vocês já encontraram respostas satisfatórias?

Carlos - Em andamento. Como o vírus zika é um arbovírus (vírus que se transmite aos humanos através da picada de mosquitos), não há como dissociá-lo da dengue, da febre amarela e da chikungunya. É uma área muito desafiadora, porque, por exemplo, se a pessoa teve febre amarela, dengue ou zika, pelo diagnóstico sorológico não tem como saber se foi um ou outro, porque os vírus são muito próximos e não sabemos ainda a distinção entre os dois. Isso tem diversas implicações para o controle.

 

ET - Então, não encontraram ainda um tratamento?

Dr Carlos - Não existe ainda um tratamento satisfatório, mas as pesquisas continuam. Aliás, não existe ainda um tratamento específico para arbovírus, apenas tratamento sintomático, na maioria dos casos. Das mais de 545 espécies de arbovírus conhecidas, cerca de 150 causam doenças em humanos. As arboviroses têm representado um grande desafio à saúde pública. Para a febre amarela, por exemplo, há a vacina, mas como a doença expandiu, gera uma série de interações com outros arbovírus tais como dengue e zika. Isso, por exemplo, dificulta o desenvolvimento de vacinas nesta área.

 

ET – Então, vocês já têm avançado nos estudos contra o zika?

Dr Carlos - Sim, temos estudado o vírus zika há três anos, embora não estejam disponíveis às informações, estaremos publicando e também patenteando alguns avanços em breve. Exemplificando as dificuldades neste segmento, na área de vacinas há também um processo de interação imunológica entre infecções sucessivas. Não pode ser liberada uma vacina contra zika e aumentar a patogenicidade para as outras doenças, com consequências severas. Quanto ao diagnóstico laboratorial ainda não existe um teste sorológico seguro para infeções por vírus do gênero dos flavivirus, por exemplo. Por isso, as pessoas, muitas vezes com sintomas, vão ao médico, um fala que é dengue, outro que é virose... Ou seja, os sintomas não são específicos, a sorologia é a mesma, porque os vírus são muito próximos.  

 

ET - E em relação ao Aedes Aegypti?

Dr Carlos - Com o Aedes temos um problema, ele está vencendo, ficando cada vez mais forte, cada vez mais resistente. E ele é um vetor, um meio de propagação para diversos vírus, tem uma competência vetorial muito grande. Eu pretendo, nos próximos anos, testar um método que não existe no Brasil, que é fazer por meio de um diagnóstico sorológico de alta complexidade, um mapeamento para saber quantos vírus estão circulando no Brasil, o que depende de parcerias internacionais. Esperamos implantar novos métodos biotecnológicos os quais já venho otimizando no laboratório, sob minha coordenação.

 

ET - Como funciona, a equipe realiza as pesquisas até desenvolver uma vacina e o IAL fabrica e disponibiliza?

Dr Carlos - Cada instituto de São Paulo tem um objetivo. O nosso, do Instituto Adolfo Lutz, é contribuir com as ações laboratoriais de Vigilância em Saúde, a pesquisa e inovação tecnológica, de acordo com os princípios do Sistema Único de Saúde, para proteção, prevenção e promoção da saúde e melhoria da qualidade de vida da população. Caso haja o desenvolvimento de uma nova tecnologia, esta pode ser transferida para a própria instituição ou mesma transferida para outra instituição baseada em acordos específicos.

 

ET - Com doutorado e pós doc na área, como sua profissão é definida?

Dr Carlos - Sou Pesquisador Cientifico. É uma profissão que só existe no Estado de São Paulo e todos os cargos são lotados por pesquisadores que comandam uma área de pesquisa.  Nós fazemos o trabalho em conjunto com universidades, institutos federais e outros estaduais de forma coordenada. Nesse tipo de pesquisa, tem que haver interação com várias áreas. São pesquisas que não se faz sozinho. Aliás, um dos motivos que me fez optar por São Paulo foram os recursos estatais, bem melhores que no resto do país. Em São Paulo, os institutos são mantidos pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que por determinação da Constituição estadual de 1989, o percentual cresceu para 1%, para ser investido em pesquisa científica e tecnológica.

 

ET - Você disse no início da entrevista que 'fazer relação público-privada no Brasil é um grande desafio'. Qual a consequência disso?

Dr Carlos - É verdade, essa relação aqui é um grande desafio,  por isso é difícil trabalhar com ciência no Brasil.  Considerando como referência a minha área, biotecnologia da Saúde, os Estados Unidos estão na vanguarda, desenvolveram conhecimento e estão à frente de todo o mundo. Então, lá na região de Boston, onde estão, dentre outras, a Harvard, Berkeley, Massachusetts, há  milhares de empresas, tanto startups (empresas emergentes) como multinacionais,  que estão ali na  fronteira do conhecimento, ávidas para aplicar o que vai sair das universidades. Eles apoiam e, em contrapartida, a patente é em conjunto com eles. Todos ganham, inclusive a população, que passa a ter a opção de novos tratamentos. Aqui estamos começando apenas em alguns poucos centros, de forma tímida e, na prática, nos resta importar essa tecnologia.

 

ET - Por que no Brasil não existe essa relação?

Dr Carlos - Por mais que tenham iniciativas políticas sobre inovação não temos tido o resultado esperado. O Brasil está muito atrasado quanto à produção de patentes. Não existe difundida essa cultura de transferência de tecnologia. O conceito predominante é baseado no fato de que o trabalhador público e o conhecimento gerado tem que ser disseminado para a sociedade, não poder ser vendido. Os programas de pós-graduação cobram majoritariamente números de publicações como forma de avaliação de mérito acadêmico. A UNICAMP tem um perfil voltado à inovação. Ela é bastante efetiva com relação ao empreendedorismo, gera riqueza por ser inovadora e, por isso, hoje, muitas empresas preferem a região de Campinas.  Isso mostra que uma região que gera conhecimento, se desenvolve. Conhecimento é poder e poder gera desenvolvimento social e econômico. 


ET - Não acha que os bens simbólicos e públicos devam ser democratizados? Sua assertiva, 'conhecimento é poder e poder gera desenvolvimento econômico', em se tratando de salvar vidas, de descobrir um antídoto para evitar, por exemplo, a morte de 123 brasileiros, conforme dados do IBGE, nesses primeiros quatro meses do ano, não deve passar por cima de todas essas patentes nas mãos de laboratórios farmacêuticos, de propriedade de poucos biliardários?

Dr Carlos - O direito ao conhecimento por meio da proteção intelectual é um assunto que há tempos é debatido no meio acadêmico, empresarial e como política de Estado. O sistema de proteção à propriedade industrial garante ao empreendedor segurança para explorar, com exclusividade, suas marcas e invenções. Se houver a democratização, empresas que desenvolvem medicamentos na ordem de bilhões não farão investimentos no país pois não terão segurança jurídica. O estado será obrigado a fazê-lo. As leis de incentivo por meio de políticas de Estado devem aproximar estes três entes de forma justa e produtiva para todas as partes envolvidas. 

 

ET - Agradecemos a resposta. O Sr. estava falando sobre a relação público-privada... Poderia exemplificar. 

Dr Carlos - Sim, cito em outros países, o estudante termina uma pós-graduação e, grande parte deles são absorvidos pela iniciativa privada. No Brasil, um doutor, tem que passar em algum concurso público, senão será muito difícil ser contratado pela iniciativa privada para trabalhar na área científica. A industria nacional ainda não está preparada para contratar cientistas. Eu passei em primeiro lugar e estou no IAL, mas duas colegas, a que passou em segundo lugar e outra em terceiro foram para o exterior.

 

ET - Temos nossos laboratórios brasileiros e universidades, e temos também baseados no país grandes laboratórios farmacêuticos multinacionais. Por que eles não contrataram  seus colegas? 

Dr Carlos - No Brasil as multinacionais atuam muito timidamente na pesquisa, o que limita a oferta de emprego para cientistas. Por outro lado, conforme a vaga que vai pleitear em algumas universidades particulares, quem tem diploma de doutor, muitas vezes acaba por ocultá-lo, senão não consegue o emprego. O cenário ainda não é favorável, pois as políticas recentes estimulam aumento na produção de doutores sem a respectiva absorção destes no mercado de trabalho. Isto demonstra claramente as dificuldades enfrentadas para o profissional dessa área, corroborando com o termo "fuga de cérebros" para o exterior.

 

ET - O Sr. está dizendo que o Brasil não valoriza o conhecimento? 

Dr Carlos - Não chegaria a tanto, mas as empresas de fora não vêm para desenvolver pesquisas, porque o conhecimento de ponta não é gerado aqui, salvo poucas exceções. As empresas quando muito, vêm aqui para fazer testes clínicos, produzir e validar medicamentos. São pouquíssimas as empresas que fazem pesquisa no Brasil,  porque sabem que o custo e a burocracia é grande. O país ainda não amadureceu nesse tema. Eu vejo este como o principal caminho para o desenvolvimento de nossa nação. 

 

ET -  porque a elite acadêmica é muito conservadora... 

Dr Carlos - Sim, falta um olhar um pouco mais prático, não tem a cultura de patentes, publica-se um artigo, mas gera pouco uso da tecnologia a partir do artigo, isto é, o país não se desenvolve como poderia, porque não consegue fazer um trabalho alinhado da pesquisa, desenvolvimento e inovação, não consegue dar continuidade. Eu não digo que o Brasil não valoriza o conhecimento, ele não consegue transferir o conhecimento acadêmico para a população por meio de inovações. Ou seja, saber como descobrir uma molécula e fazer com que esta se transforme em um medicamento na farmácia. E por não conseguir transferir conhecimento acadêmico é que o Brasil é um grande importador de produtos, muitos deles resultados de pesquisas lá fora, e até realizadas por brasileiros no qual o nosso próprio país custeou os estudos. 

 

ET - Esse 'transformar estudos em medicamentos' exige investimentos...

Dr Carlos - Sim, e muitos. Só que ele não pode vir só do setor público, mas também da iniciativa privada e neste ponto, as empresas têm um pé atrás, porque ele é amarrado, e burocrático, falta segurança jurídica e em muitos casos, não está em harmonia com a realidade.  Aqui, abrimos um parêntese para a brasileira, Lily Safra, que embora mantenha no Brasil dois institutos, doou um cheque no valor de 20 milhões de euros (R$ 88 milhões de reais) para a reforma da catedral Notre Dame, de Paris. 

 

ET - E nem um 'tostão' para a reconstrução do Museu Nacional no Rio de Janeiro, cujo incêndio consumiu entre outras raridades, o acervo da botânica Bertha Lutz...

Dr. Carlos - Ela investe lá porque sabe que o dinheiro será aplicado da forma que tem que ser. Aqui, além da burocracia, a lei não permite e quando permite, boa parte acaba se extraviando. Uma das coisas que é muito comum noutros países é ex-alunos de sucesso re-investindo nas universidades onde estudaram. Aqui não existe isso. Aqui só podemos fazer aquilo que a lei determina. Lá fora é livre, a lei só interfere se fizerem coisa errada. 

 

ET - Sua área é genética, pode falar um pouco sobre o agronegócio no país. 

Dr Carlos - De modo geral, temos muitos desafios pela frente, mas o agronegócio funciona muito bem no Brasil. Na década de 70, por exemplo, em função de uma política coordenada que visava fazer o país o celeiro do mundo. Em 1973, o presidente Médici criou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com a missão de viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, em benefício da sociedade brasileira. Com isso veio a revolução verde em que o cerrado passou a ser produtivo, citando apenas um de vários exemplos. Nesse setor, investiram em pesquisas aplicadas, fazendo com que o país concorra no top 5 do agronegócio mundial. O pessoal lá de fora vem aprender com o Brasil. 

 

ET -  E os transgênicos? Lá fora proíbem agrotóxicos que são aplicados sem nenhuma restrição no Brasil...

Dr Carlos - A realidade no campo é bem diferente da que vemos nos jornais e no discurso dos detratores dos agroquímicos. É preciso equilibrar o debate entre produtos orgânicos e convencionais. Não fossem os defensivos agrícolas, a oferta de alimentos no mundo seria muito menor e, consequentemente, não teria comida para todo mundo. Os críticos argumentam que a transferência de genes de uma espécie a outra pode provocar a contaminação dos ecossistemas e comprometer a biodiversidade. Se uma soja precisa ter uma característica a mais, uma proteína simples que lhe dará maior resistência à seca, que até então, com os cruzamentos tradicionais entre variedades levaria centenas de anos, o que justifica seu uso. Eu trabalho com a parte de imunologia e genética molecular e posso afirmar que, biologicamente falando, transgênicos não tem teoricamente problema para o ser humano. Entretanto, estudos são necessário para a comprovação de segurança. 

 

ET - Qual a diferença?

Dr Carlos - É o tempo que leva basicamente. Mas exemplificando, se uma soja precisa resistir a um pH muito mais ácido que o normal, é preciso transferir um gene exógeno em seu genoma. O milho Bt, contém uma proteína chamada Cry1Ab oriunda da bactéria Bacillus thuringiensis, que tem ação inseticida altamente especifica apenas contra lagartas de lepidópteros. Temos que ficar atentos é com relação a alergia por estar ingerindo um alimento contendo uma nova proteína. Em relação aos transgênicos, assim como outras questões polêmicas, ainda falta a disseminação do conhecimento, para as pessoas entenderem a questão a fundo, focar em campanhas, melhorar a conscientização e sobretudo, aproximar a sociedade com a área acadêmica através de divulgação científica de tudo que for produzido, de forma clara e simples. Exatamente o que estou tentando demonstrar aqui. 

 

 

ET - O menino roceiro que saiu da Santa Bárbara e conquistou espaços em grandes universidades até se estabelecer como Cientista efetivo no Instituto Adolfo Lutz, referência Laboratorial em Saúde Pública, sem jamais perder as humildes raízes, o que tem a dizer a esses jovens pre-vestibulandos sacramentanos que têm o futuro pela frente? 

Dr Carlos - Primeiro, as pessoas têm que fazer o que gostam, seguir seus sonhos com muita determinação, porque o preço é caro e depois ficamos reféns de nossas escolhas. Todos nós temos que fazer escolhas na vida e, como a vida é muito difícil, temos que pagar o preço dessas escolhas e, por isso, precisamos de muita força de vontade e ter uma base familiar muito forte. Todas as pessoas de quem eu estive próximo ajudaram de alguma forma. Enfim, é um conjunto de fatores, por isso a questão primordial é decidir o quanto antes o seu caminho. Todos nós temos algum talento e precisamos descobri-lo. Descobriu? Vá em frente, vá atrás do sonho, faça tudo o que é possível para atingi-lo, nunca desistir. Depois que atingir um objetivo, virão outras etapas e é importante vencer uma a uma...

 

ET - ... e ser feliz.

Dr Carlos - Sim, e ser feliz. Tudo isso que eu disse, não estou preocupado com a parte técnica, porque sei o que sei, mas pelas experiências que tive, já conheço boa parte do mundo, então para mim não tem barreiras, amanhã se quiser morar noutro país, as portas estão abertas. Mas hoje quero ficar aqui, com uma vida tranquila, porque sempre vivi longe de meus pais, pus muita coisa em cheque para ir atrás de um objetivo. Sempre quis aprender e consegui construir duas vidas paralelas, uma urbana na capital de São Paulo e outra rural em Minas Gerais e sou, sim, realizado. A gente tem o poder de mudar a vida, é só querer e isso não tem preço. 

 

ET - Um ping-pong pra terminar: 

- Sacramento e fazenda  Santa Bárbara?

- A minha origem. Não podemos nos esquecer de onde saímos. Sempre há um marco inicial dessa maratona que é extremamente importante. A minha origem me ajuda a não me perder lá na frente. 

- Família?

- A base. 

Religião?

- Católica.

- Objetivos Futuros?

 - Equilíbrio profissional e pessoal.

- Deus?

- Tudo

- Time preferido?

- Cruzeiro

- Comida?

- Bem mineira.

- Cidade?

- São Paulo. Lá foi onde consegui expor meu potencial.

- Um país para se mudar?

- Estados Unidos 

- Um sonho?

- Que o Brasil retome os trilhos do desenvolvimento. 

- Um prato saboroso de comida, com produtos orgânico ou transgênico?

Transgênico, porque sei a origem dele. Os orgânicos, se forem processados da forma adequada, não têm problema. O que manda é o controle. O transgênico a gente já come, na batata, milho, etc.