Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1777 - 07 de Maio de 2021

Continuação: Simone Silva fala sobre a cultura ‘americana’

Edição nº 1123 - 12 Outubro 2008

 

ET – O que te prende nos Estados Unidos? Parece que vale a pena ser professora aí, hem. Ganha muito? Te passa pela cabeça cantar um dia aquela canção do Roberto Carlos: “Eu voltei, agora pra ficar, por que aqui...?

Simone – Com certeza, um dia vou chegar aí cantando aquela linda canção, mas por enquanto não sei o que me prende aqui. Talvez a estabilidade. Agora, não seja indiscreto, me perguntando quanto eu ganho (risos). E depois, professor é professor em qualquer lugar do mundo. A gente sobrevive!! Tenho um carrinho, que é o meu meio de transporte por aqui, e moro em apartamento alugado. 

ET – Pra te atiçar esse desejo, do que mais sente saudade, além da família?

Simone - De Sacramento, das amizades, o clima, a comida.

ET – Depois de dez anos, você se sente ainda uma imigrante ou já se adaptou ao modo do cidadão estadunidense. Aliás, trace pra nós o seu perfil, fale das amizades, o relacionamento...

Simone - A cultura Americana sem sombra de dúvidas é bem diferente da nossa...

ET – Quando você diz 'cultura americana' não estaria se referindo também à cultura do México, da Venezuela, do Brasil?... Não entendo por que eles se arrogam a essa exclusividade. Não seria cultura estadunidense?

Simone -  Sim, é verdade. O que percebo é que o termo já incorporou à cultura desse país há séculos, e eu já assimilei esse modo de falar. Como eu disse, ela é diferente, mas com o tempo agente aprende sobre essa cultura e como lidar com eles. Hoje posso dizer que estou em casa. Os 'estadunidenses', brasileiros, bolivianos, indianos, chineses, etc., são todos humanos, não são? Todos temos nossas crenças, valores que diferem um pouco. Na minha opinião, os americanos são mais racionais, ou seja, suas atitudes são baseadas na razão e não na emoção. Por exemplo. Os americanos jamais parariam os Estados Unidos, porque uma grande estrela do cinema ou do esporte morreu. Isso não significa que eles são frios e não sentem a perda. Não, não é isso, a cultura deles é voltada para o, “vamos continuar a vida”. E assim também, quando perdem familiares próximos. Passam uns três dias sem trabalhar e logo retomam suas atividades normais, sem demonstrar muito as emoções. 

ET – E essa história de os conservadores serem todos Republicanos e os Democratas, mais abertos... é verdade?

Simone – Sim, a maioria dos conservadores são republicanos, e têm uma propensão para ver a vida dentro desses limites. Mas os americanos democratas são mais abertos para a vida em si, e também para lidar com outras raças. Os americanos observam muito as ações das pessoas, mais que as palavras, querem ver se o que você diz é realmente o que você faz. Respeitam muito as pessoas responsáveis, honestas. Uma vez que os conquistam são amigos eternos. São pessoas maravilhosas. É claro que existem, como em toda raça, aqueles que têm uma mentalidade ainda limitada.

ET – Falando em Republicanos e Democratas, você pode votar aí? Mc Cain ou Obama?

Simone – Ainda não. Mas aqui em Madison  a maioria da população é e foi sempre democrata. O Obama, parece ser o candidato indicado para a situação econômica, social e política dos Estados Unidos. Ele é jovem, inteligente e por vir de uma família relativamente pobre, comparada com a maioria dos políticos daqui, sabe melhor o valor da vida. Obama acabou de pagar seu student loan (acho que financiamento para pagar a universidade) há pouco tempo.   Ele é o primeiro negro que chega a candidato a presidência. Estou com ele. O Mc Cain é o republicano, conservador, que, se ganhar, vai continuar seguindo os passos do presidente Bush.  Ou seja, mais guerra, mais dificuldade social, econômica. 

ET – Obama não poderia ter estudado em uma Universidade pública?

Simone – Nos Estados Unidos, todas as Universidades/Faculdades são pagas. Não existem as Federais como no Brasil. E ir para a Universidade é caríssimo. 98% da população que vai para a Universidade faz financiamento.

ET – Você disse que professor é professor em qualquer lugar do mundo, o jovem também?

Simone -  Como eu disse, aqui o sistema é baseado na razão. Por exemplo, um jovem que termina o Colegial e não sabe ainda o que vai fazer na vida profissional, a decisão aparece depois de uma consulta com o Orientador Educacional, que vai olhar as notas dele e diz: 'Bom, você saiu bem melhor nesta disciplina e nesta... Você deve buscar algo ligado com isso'. E muitas vezes, assim, eles se decidem na vida profissional. 

ET –Fale mais sobre a juventude estadunidense, seus estudos, o currículo escolar, a responsabilidade...

Simone - Os jovens aqui são obrigados a ir a escola até terminar o Colegial. O ensino é público, portanto mantido pelo  governo. Mas se um aluno não vai a escola por três dias, sem que os pais dele saibam, ele pode ir para a cadeia. E, na cadeia, ele tem professores que o acompanham por conta do governo também. Se os pais tem consciência que o filho  está faltando à escola tem como obrigação buscar ajuda, com a polícia ou educadores, psicólogos da própria escola, etc., caso contrário responderão por essa falta na justiça. O dia-a-dia de um jovem começa cedo também. A maioria deles pega o ônibus escolar ou coletivo que os deixa na porta das escolas, que têm todas período integral para todos os alunos. Hoje em dia, devido a economia americana, o governo estadual diminuiu os custos educacionais. Infelizmente, não são todas as escolas que oferecem aulas de Música ou de Artes Plástica. Mas aprender a dirigir é parte do currículo escolar.

ET – E a família?

Simone - A família é uma instituição que está falindo aqui. O número de divórcio cresce muito a cada dia. A conseqüência disso são jovens completamente perdidos no ciclo da própria consciência. Eles tardam a se reencontrar e descobrir o que realmente buscam na vida.

ET – Pra terminar, uma perguntinha muito sutil: quantos anos você tem?

Simone – (risos) Tenho muitos anos de felicidade, outros de experiência, mais alguns de maturidade, tantos outros de vivência e, para finalizar, alguns mais de saudade. Ah! que saudade!! Daquele tempo… rá rá rá... Essa vou deixar por conta dos leitores amigos. Olhem bem nos meus olhos, e me digam vocês, quantos anos tenho?

ET – Diríamos: somando a felicidade com a experiência, a maturidade, alguns mais de vivência e toda a saudade, uns 70 ainda de amor pra dar.

Simone – You are so sweet! Assim a gente diz aqui. Muito obrigada, amigos do ET, por esta oportunidade de estar em contato com vocês e Sacramento. Vocês são maravilhosos. By!