Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1595 - 03 de Novembro de 2017

Teatro 'Memórias de Bitita' encanta público

Edição nº 1541 - 21 de Outubro de 2016

A escritora sacramentana, Carolina Maria de Jesus  (1914/1977) esteve em destaque na região essa semana, com  a peça, Memórias de Bitita – o coração que não silenciou, interpretada pelo  Grupo Circo de Teatro Olho da Rua,  de Belo Horizonte, cujo  espetáculo foi agraciado com o Prêmio Artes Cênicas de Minas Gerais pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.
Sacramento, terra natal da escritora foi a primeira cidade da região a ser brindada com o espetáculo cênico-musical, uma adaptação da obra de Carolina Maria de Jesus feita por Carlandreia Ribeiro. O texto, muito bem interpretado por Carlandreia Ribeiro, Eda Costa e Juliene Lellis, apresenta a força, a determinação, a generosidade e o lirismo contidos nos diários e composições musicais de Carolina.
Para a construção da dramaturgia, Carla costurou fragmentos dos seus diários, as vivências, reflexões e acontecimentos, que podem ser transportados claramente para os dias atuais. Escreveu um texto lindo, emocionante. O teatro fluiu com uma interação impressionante do público, no comportamento e na resposta, formado na sua maioria por adolescentes. Não se viu o tempo passar. Sem dúvida, foi um dos grandes espetáculos apresentados em Sacramento. Vale, vale repetir para toda a cidade, ainda mais que fala de nossa maior escritora.
No final, o elenco, que teve também a participação especial de Jacó do Nascimento e um grupo de músicos foi aplaudido de pé pelo público presente na Casa da Cultura na noite dessa quarta-feira 19. Maravilha!
O espetáculo segue para Uberaba e Araxá.

 

Oficina reúne 50 pessoas para seguir os passos de Carolina

Antes do grande espetáculo cênico-musical que há tempos Sacramento não via, durante oito horas, um grupo de 50 pessoas, professores, estudantes e educadores estiveram reunidos na Escola Técnica Estadual Carolina Maria de Jesus participando da oficina, A escrita da memória - Diários de Vivências seguindo os passos de Carolina Maria de Jesus, ministrada pelas atrizes, Carlandréia Ribeiro, Eda Costa, Juliene Lellis.
 Partindo da ideia de que é na memória que o sujeito se reconhece e pode repensar seu lugar no mundo a oficina visa, por meio da obra de Carolina Maria de Jesus, estimular o gosto e o prazer pela literatura e pela escrita. Os referenciais de memória de cada participante serão o material a ser transportado para os papéis e outros suportes não convencionais para esses registros.
A oficina foi dividida em dois momentos: das 8h às 12h – 'Quem é Carolina Maria de Jesus', uma apresentação aos participantes da obra e da vida da escritora e, à tarde, das 13h às 17h, 'Diários de Vivências', quando os participantes, em processo colaborativo, colocaram nos suportes (papéis e outros) a sua escrita, formatando um livro objeto contendo seus relatos.

 

Carolina foi o referencial de tudo

Em entrevista ao ET, a diretora de dramaturgia e idealizadora do projeto e pesquisa, Carlandreia Ribeiro fala do espetáculo, do seu projeto e responde a uma rápida, porém rica entrevista. E define: Carolina foi o referencial de tudo.

ET - A primeira peça encenada sobre Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus assistiu ao espetáculo e gritou da plateia: “Não é nada disso. Está errado!!!”. No seu texto, 'Memórias de Bitita – o coração que não silenciou', você fiel ao livro?
Carlandreia -
Nessa dramaturgia pegamos momentos de Quarto de Despejo, Diário de Bitita e outras obras, isto é, fazemos uma pincelada na literatura publicada de Carolina, inclusive suas músicas, mas, acima de tudo, esse espetáculo foi uma busca de que Carolina somos. Ela foi o referencial de tudo. Tanto que escrevi vários textos da peça, a partir dessas referências de fala de Carolina, mas também das minhas memórias e das duas atrizes que estão em cena comigo. Somos três mulheres negras em cena, então nesse contexto, somos três Carolinas, com nossas histórias, nossas memórias. Por que Carolina? Porque sou uma mulher que veio de uma família pobre, negra, ex-escravizada, vítima de preconceito e da discriminação racial e social. Tive que fazer essa travessia, em relação a esse preconceito, para me constituir enquanto mulher negra. Enfim, fazemos esse paralelo entre a Carolina Maria de Jesus e a Carolina que é a Carlandreia, a Carolina que é a Eda Costa, a Carolina que é a Juliene Lellis, ou seja, um entrecruzamento caroliniano para que construíssemos o espetáculo.

ET - O filho de Carolina, José Carlos de Jesus, conta que Quarto de Despejo está mais atual do que nunca. Aliás, ele diz que “o 'quarto' virou 'Galpão de Despejo':  nas periferias,   nos ônibus,  no centro da cidade miséria, miséria... uma consequência trágica do império capitalista”. Você concorda com ele?
Carlandreia:
Totalmente. Aliás, tive a alegria e a honra de conversar com José Carlos, que morreu tragicamente. Ele foi atropelado no início de maio, conforme informações que recebi da filha dele, Eliza Carvalho de Jesus. Mas, tive com ele muitas conversas, todas muito estimulantes. Ele, talvez dos filhos, tenho sido o que mais puxou a mãe, por causa da sua eloquência, sua inteligência, sua cultura. Era um homem muito culto, devorador de livros. E para mim ele tem total razão em dizer isso, porque o capitalismo   na sua crueldade intrínseca nos faz consumidores daquilo que nós não necessitamos ou não desejamos. Consumimos tudo segundo uma necessidade capitalista. E a economia do desejo, que deveria ser a mais importante,  nos foi e nos é subtraída pelo capitalismo cotidianamente. Quarto de Despejo continua atual, especialmente, no Brasil  nesse momento em que vivemos esse golpe, porque estamos assistindo a uma derrocada de todos os direitos que levamos décadas para construir,  na medida em que a PEC 241 congela a educação por 20 anos. José Carlos tem toda razão quando disse isso. E digo mais, que se não sairmos dessa paralisia em que nos encontramos nesse momento, os direitos fundamentais de cidadania irão para o ralo e a gente aqui olhando e fazendo hashtag na rede social.

 ET - Ao analisar a obra caroliniana, você identificou, fundamentalmente, nela: uma escritora, uma poetisa, uma compositora ou uma revolucionária?
Carlandreia -
Tudo isso. Ela era tudo isso.  A Carolina é de uma potência... Ninguém passa incólume por Carolina Maria de Jesus.
 
ET – Citando a Lei 10.639/2003 que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas de Educação Básica, nas suas andanças, experiências junto a escolas com oficinas e teatros,  o que você vê por aí, tanto nas escolas públicas como privadas? Essa lei está sendo cumprida?
Carlandreia -
Nas particulares eu tenho pouco contato, mas tenho minhas dúvidas. Já nas escolas públicas, onde eu circulo mais, vejo que há uma tentativa para que essa aplicabilidade realmente se efetive, mas sinto que há muita resistência. Há uma questão que barra a aplicação da lei nas escolas, que é muito preocupante e que é a questão da religião de matriz africana, geralmente muito rechaçada. Vejo educadores burlando a aplicação da lei por causa de suas convicções religiosas, quando na verdade as escolas deveriam ser laicas, respeitar a identidade religiosa de cada um. Entendo que se tem um crucifixo na escola, eu também tenho o direito de colocar meu Buda, meu orixá, etc. Mas tenho notícias e atuo em experiências muito profícuas nesse sentido. Eda e eu ganhamos a nossa vida trabalhando com essa intenção, como, por exemplo, nessa oficina e nesse espetáculo. Nos nossos objetivos deixamos claro que queremos contribuir para a efetivação dessa lei. Mas, temos muito que avançar ainda. As escolas precisam levar isso a sério e dar a seus alunos o direito de conhecer uma cultura que é tão importante para a humanidade.
 
ET - Pra terminar, Carla, você, Juliene e Eda, com esse espetáculo, acreditam que estão sendo hoje a voz de Carolina, essa voz que não silenciou?
Carlandreia -
Pretendemos. É uma pretensão imensa nossa, e digo que, a partir do  momento desse contato, aprofundamento que vimos buscando, com essa persona, Carolina Maria de Jesus e sua obra  viraram missão. Numa entrevista à rádio Inconfidência eu disse recentemente que  posso viver  100 anos, mesmo assim serão  poucos para agradecer  as transformações que ela faz e fez em mim. A gente quer, sim, que cada um tenha o direito de conhecer a obra de Carolina. E quando dizemos “o coração que não silenciou”, é porque ela foi uma mulher que não se calou, fez a transgressão  necessária, rompeu com o preconceito e paradigmas. É essa mulher que eu quero ser, quero gritar para o mundo e dizer que eu tenho o que dizer.