Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1599 - 01 de Dezembro de 2017

'O toque de Xangô’, de Vicente Higino, conta saga de negro que passa por Sacramento

Edição nº 1464 - 08 Maio 2015

Noite de cultura na última quinta-feira 30 com a lançamento do livro, 'O toque de xangô', do escritor  Vicente de Paulo Higino,  na Casa da Cultura Sérgio Pacheco. O livro  traz  a saga de N´Futa Kuezida,   em busca de justiça para seu povo. Falando ao ET, Higino diz que manifestou o desejo de lançar o livro na cidade justificando o fato da ligação de seus ascendentes com a cidade, citando ainda que a Serra da Canastra e Sacramento entram na história da personagem principal do livro. Ao lado da esposa, Cristina Stark Rezende Higino, o escritor falou sobre o livro. Veja alguns trechos da entrevista.

 

LIGAÇÃO COM SACRAMENTO

N´Futa Kuezida,   ao fugir  do quilombo, passa pela serra da Canastra e por Sacramento. Mas há um outro detalhe importante, o fato de que a família do meu avô nasceu nessa região aqui. Minha avó nasceu em Guaxima e foi registrada em Conquista. Eu era menino e me lembro do meu avô contar causos de Sacramento, Conquista, meus tios viveram por aqui. Meu avô contava histórias das estações a ferrovia aqui, quer dizer, eu cresci ouvindo histórias daqui, é ,  um caso de amor com a cidade, porque  conheço Sacramento desde menino, de ouvir falar. Inclusive escrevi um livro, que está pronto para publicação, intitulado,  “Crônicas bem humoradas de uma família operária”, e nele meu avô conta as histórias...”, afirma. 

 

A OBRA DE HIGINO

Ituiutabano de nascimento e uberabense de coração, Higino  é psicólogo, especializado  em Abordagem Ericksoniana -Teoria Psicossocial do Desenvolvimento em Erik Erikson - e Mestre em Educação pela UFSCar. Foi professor universitário durante mais de uma década. Iniciou-se como escritor, com a publicação de 'Egressos de Sucesso: História da Escola Estadual Prof. Chaves', de Uberaba, onde estudou. O livro relata um pouco da vida de alguns ex-alunos da escola em diversas profissões. Escreveu também 'Horas de Reflexão: Uma caminhada em direção à sobriedade', onde discute e orienta sobre os doze passos do N.A; e, ainda, 'Nossos Versos', livro de poemas em parceria com Lia Gomes. É também autor de diversos artigos científicos. 

 

EM BUSCA DAS ORIGENS

Na minha família, as pessoas não falavam da cor, ninguém assumia. Botaram nos meus documentos que sou branco, mas não sou. Então decidi pesquisar sobre isso dentro da família e comecei a levantar datas, documentos, fotos e isso foi tomando um volume tal que transformei em livro. Comecei pelos tios, quase todos trabalhando na ferrovia da Mogiana, o que era na época uma forma de ascensão social. Vi uma foto de funcionários da Mogiana com muitas pessoas trabalhando e só há um branco no meio da turma, quer dizer, os negros era apontadores, maquinistas, chefe de trem... A partir daí peguei os documentos desses parentes e cheguei ao meu avô, que nasceu em 1896 - tenho os documento - oito anos  depois da abolição da escravatura. Então se ele nasceu em 1896, meu bisavô foi escravo, com certeza.

 

VIAGENS

Esgotada a pesquisa com os parentes, prossegui na pesquisa viajando, a princípio, para a serra da Canastra. Levantei dados sobre o Quilombo  doAmbrósio, mapas, fotografias, dados do Arquivo Público Mineiro, da Unesco, estive num navio semelhante àqueles do tráfico negreiro. Enfim, são muitos dados que estão bem guardados e lancei o livro, cujo personagem N´Futa Kuezida é fictício, mas a história é baseada em dados reais, como por exemplo,  o decreto do  Governo de Minas para a  destruição do Quilombo do Ambrósio. Quer dizer, as passagens que estão ali, não nasceram por acaso, o personagem é fictício, mas os fatos aconteceram ”. 

 

AS VISÕES DO ESCRITOR

Uma coisa curiosa que aconteceu quando eu estava escrevendo o livro é que eu via vultos. Eu falava pra minha mulher: 'Passou uma pessoa ali'. E isso foi se repetindo e houve um dia que passaram muitos vultos, aí criei coragem e falei: 'Se quiserem me passar medo, pode parar, porque eu tenho muito medo'. Algo muito estranho acontecia. 

Há uma passagem, 'Canto de amor de  Pembele', que quer dizer, 'canto de despedida', em angolano, que não sei como escrevi. A passagem é um canto de amor de uma mulher que se despede do personagem principal após uma cena envolvendo os filhos que seriam entregues aos portugueses. 

 

ATAQUE AO QUILOMBO

 Há também a descrição da batalha que aconteceu quando as tropas do governo atacaram o Quilombo de Ibiraci. Imaginem a luta desigual que foi, armamentos utra-modernos para a época contra bodoques, atiradeiras tipo estilingue que arremessavam pequenas pedras, além de algumas espingardas velhas. Diante da desigualdade, os negros juntavam cobras venenosas e jogavam no lugar onde as tropas iam passar. E, há um lugar, perto de Ibiraci, que se chama Morro das Bolotas ou Morro da Batalha. Ali, os negros se defendiam atirando bolotas de pedras e depois que o quilombo é atacado, eles fogem e vão para o Quilombo do Ambrósio em Ibiá... 

 

SACRAMENTO, ROTA DE FUGA

A medida que os quilombos iam sendo dizimados, os negros empreendiam a fuga. Enquanto uma parte foi para o Quilombo do Ambrósio, outra parte dos fugitivos veio pela Canastra, passaram por Sacramento, Santa Maria, onde teve um quilombo, Conquista, e de lá atravessaram o rio Grande e foram para uma fazenda em Igarapava. Ali nasceu meu avô, em 1896. Aí, um dos negrinhos que foi para essa fazenda em Igarapava, fala: 'Vou procurar a história do meu pai e vou em direção a Formiga...' E se Deus quiser virá o volume dois, material para isso já possuo e já estou com o projeto na cabeça. 

 

A RAÇA NEGRA

Através da minha família, saí em busca das minhas origens e acabei me descobrindo uma pessoa que está tentando escrever sobre a raça negra, coisa rara no Brasil. Se fizermos uma procura no Brasil, veremos que não há muitos escritores negros nem afrodescendentes e, além de não achar muitos, não encontram também essa preocupação de contar como as cosias aconteceram. Era uma violência. Milhares de negros e negras perderam suas vidas nas minas, na destruição dos quilombos, em massacres, um autêntico   genocídio durante 350 anos de escravidão.

 

SOBRE O  TÍTULO...

O final do livro traz um glossário e notas devido ao uso de inúmeras palavras do vocabulário africano. Xangô é uma entidade religiosa, mas o livro não fala de religião. O nome Xangô, no panteão nigeriano, os vários orixás cada um tem a sua função, e o Xangô, no panteão é o deus da justiça, por isso o dístico na capa, 'a saga de um homem em busca de justiça para seu povo'. E, o porque do título está no epílogo:  Bartolomeu Bueno foi quem comandou a tropa para atacar o  quilombo do Ambrósio e, ele passa a ter delírios e alucinações...  

 

A MENSAGEM FINAL 

A grande mensagem não só para Sacramento, mas para todas as pessoas, independentes de serem negras, brancas, afro-descendentes, isto é, independente de raça, é de que nós precisamos repensar as relações que se tem hoje de trabalho, de educação com o negro, isso, porque percebo que se olharmos não só o Brasil, mas o mundo todo veremos que a escravidão não acabou. 

Hoje temos tráfico de órgãos, de pessoas, trabalhos análogos à escravidão e muitos outros problemas  que estão presentes no mundo todo e que nos remetem à escravidão e que precisam ser revistas. Dessa forma, entendo que precisamos repensar que a educação é que é realmente o grande elemento de libertação. É através dela é que nos tornamos cidadãos úteis, pessoas esclarecidas, lutamos por nossos direitos, buscamos igualdade de direitos e crescemos enquanto pessoa. E essa é a grande mensagem que está contida no livro, de que nos precisamos buscar   o sentido de justiça e de liberdade, coisa que ainda ninguém conseguiu”. 

PING-PONG COM O ESCRITOR
O 13 de Maio: Ainda não aconteceu e acho que não vai. Prefiro o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.  
A política nacional: Em relação à raça negra é falha. 
As políticas públicas: São falhas também. E vou estender: de cada 100 mulheres agredidas, 70% são negras ou afrodescendentes. De cada 100 crianças ou adolescentes fora da escola e de creche, 90 são afrodescendentes. Se formos falar em drogas e mortes violentas, então... De que políticas públicas podemos falar? A meu ver, o Estado e quando digo estado, me refiro à união, ao estado ao município, ainda não entendeu ou não estudou e não sabe  o significado da palavra genocídio e isso me preocupa, porque passou da hora de repensarmos nossa relação como nação, como pessoa...
A educação pública:  É questionável, porque não se ensina o que deveria ser ensinado.
As cotas: Importantes e necessárias. 
O negro tem preconceito: Muito, e negro em relação ao próprio negro e do negro em relação ao branco, mas felizmente isso está mudando, mas não por causa de educação ou políticas, mas porque nós todos, estamos nos descobrindo que somos uma raça só: a raça humana. 
A juventude brasileira: Segue modismos estrangeiros. Ainda não lhe ensinamos o significado de brasilidade e de cultura.
A cultura brasileira: Precisa ser reescrita e estudada naquilo que existe.  
A internet: Uma ferramenta importante que o brasileiro precisa aprender a usar. 
O esporte brasileiro: Ferramenta de ascensão social, de disciplina e que precisa de investimentos nas bases.
A literatura e o leitor brasileiro: Brasileiro não sabe ler.